O primeiro farfalhar de asas de um Pidove solitário nos galhos escuros de um carvalho anunciou o início de um verão ensolarado e quente na pacata cidade de Accumula.
Sua localização no sudoeste do grande Estados Unidos de Unova era como um tesouro escondido que contemplava os poucos visitantes que se aventuravam por lá. Os que foram diziam parecer uma utopia, quase como uma hipocrisia daquele país. Enquanto as grandes metrópoles ostentavam arranha-céus de ferro fundido e estruturas metálicas, Accumula Town carregava nas madeiras dos seus bangalôs e casarões a história de um povo que viu na arquitetura vernacular um meio de preservar momentos do passado.
E quando se falava da população, a maioria era composta por idosos ou famílias jovens com três filhos ou mais. Poucos realmente escolhiam Accumula para viver; quase todos haviam nascido ali e permanecido por gerações. E mesmo aqueles que partiam acabavam retornando de tempos em tempos para festividades e reuniões da comunidade. Não por acaso, Accumula Town registrava, no último censo realizado, pouco menos de sete mil habitantes.
Havia menos pessoas em Accumula do que seguidores no Pokégram de Hilda.
Provavelmente era isso que ela pensou quando passou pela placa de boas-vindas da cidade com a informação do número de habitantes.
— Ugh! Que calor insuportável. Odeio essa estação. — Ela assoprou as unhas recém esmaltadas e voltou a resmungar. — Minha pele fica um caos. Minha zona ‘T’ fica brilhando igual a cabeça de Tadbulb, não tem skin care que aguente. E nem são nove da manhã.
Sentada a sua frente, em um banco desconfortável naquele trailer apertado, estava a manicure que finalizava as unhas da adolescente. Não era a primeira vez que ela trabalhava para a garota, então os resmungos já não a surpreendiam tanto. Seu olho apenas se direcionou para o ultramoderno ar-condicionado ligado na temperatura exigida pela própria menina: 16°C.
Essa era a modelo e jovem influenciadora Hilda Taylor Foley. Filha da top model e atriz Havana Foley, a adolescente, no auge dos 16 anos colecionava um portfólio admirável de trabalhos para revistas de moda e maquiagem. Assídua com suas rotinas de cuidados com pele e corpo, Hilda conseguia ostentar um dos rostos e medidas mais bonitos da região de Unova. Não importava o horário, se tinha que estar bem apresentada, Hilda passaria horas para garantir que sua imagem nunca fosse esquecida por onde passasse.
— Estão prontas, senhorita — disse a manicure, se ajeitando em seu assento após algumas horas encurvada. — O que achou?
Hilda estendeu as mãos e encarou com precisão de uma cirurgiã. Boa cobertura, sem manchas ou borrados. Ela deu de ombros e respondeu:
— Dá pro gasto.
Infelizmente, a modelo era impontual quando o requisito era ter boa personalidade. Mimada, mesquinha, fútil e dramática eram só um dos poucos adjetivos que corriam pelos corredores das agências para descrever Hilda Foley. E com razão, ela era capaz de tratar uma unha quebrada como tragédia nacional.
A manicure apenas suspirou e resolveu ignorar, seu mísero salário não incluía argumentar com uma pessoa que brigaria até com uma placa de trânsito.
Hilda se levantou do sofá compacto, porém confortável, e se dirigiu até um espelho de corpo inteiro. Ela ajeitou as mechas castanhas tão escuras quanto os troncos dos carvalhos que rodeavam Accumula. Mechas volumosas, brilhantes e saudáveis. Ela simulou alguns penteados, insatisfeita com todos.
— Clara, eu sei que você é uma diva, mas achei non-sense você me trazer pra esse fim de mundo.
Leve com uma pluma, a mulher, cujo nome fora anunciado por Hilda, surgiu de um cômodo ao lado. Clara, a assessora pessoal da modelo adolescente, muitas vezes era apelidada como ‘anjo’ ou ‘enviada de Arceus’ por ser praticamente a única pessoa que conseguia aguentar e lidar com os esperneios dramáticos da sua superior. Era uma figura hipnotizante e misteriosa. Por volta dos seus 30 anos, Hilda admitia as vezes que sentia inveja dos cabelos loiros quase platinados e dos olhos azuis piscina. Carregava consigo uma cicatriz na bochecha direita parecida com queimadura cuja história nunca foi contada, apenas teorizada.
Com um sorriso usando apenas os lábios, ela se dirigiu até a menina e gesticulou, colocando a mãos em seus ombros, para que se sentasse na cadeira em frente as espelho. Hilda obedeceu, seus olhos azuis opalinos encararam Clara através do reflexo, esperando uma resposta.
— Seu portfólio precisa de mais eventos culturais — disse ela, com a voz aveludada. Ela alcançou uma escova próximo e começou a pentear o cabelo da adolescente. — Seus últimos trabalhos foram sessões de fotos e comerciais. Não se cansa de tanto flash?
— Não — disse Hilda, sem pensar muito. Clara riu.
— Eu imaginei que responderia isso. — A assessora juntou as mechas em um rabo de cavalo alto. — Mas, como minha função é cuidar da sua agenda e da sua imagem, eu acho que um evento rural tradicional aqui no interior de Unova vai ser perfeito para você. Eu conversei com algumas pessoas e descobri que você já frequentou alguns anos da Accumula Summer Market quando criança. Não é nostálgico?
Hilda revirou os olhos. Clara finalizou penteado com um elástico de cabelo e olhou para o espelho, esperando uma resposta sobre o penteado. A adolescente assentiu de leve.
— De qualquer forma, esse ano, o evento completa 50 anos — explicou a assessora. — É ano de eleições e o prefeito investiu uma boa verba para te trazer para cá. Tente sorrir um pouco lá fora, que tal?
Hilda se levantou, ajeitou sua regata branca e seu jeans desbotado de cintura baixa, arrumou as botas de estilo country, escolhida pela estilista da própria para agradar os habitantes e recebida de cara torta pela mesma, e virou-se para Clara.
— Não precisa me ensinar como eu devo fazer meu trabalho.
Hilda desceu o pequeno degrau do trailer num leve pulo e se arrepiou quando a sola de seu calçado bateu na terra batida e seca e levantou um pouco de poeira. Clara veio logo atrás, iria guiar a jovem para os compromissos no evento.
Ao lado da porta do trailer, seu segurança particular se mantinha atento como um Watchog. Hilda estalou os dedos para chamar a atenção dele e disse:
— Tenta fazer o mínimo hoje e não saia da minha cola, ok? — a frase saiu tão seca quanto o terreno que pisara. Ela sequer encarou o funcionário. — Não estou com paciência para fã inconveniente.
O homem era quase um gigante perto daquela mísera criança, ele apenas a encarou com os olhos e não abriu a boca. Clara sinalizou para que ele tivesse calma sem que Hilda notasse. Por fim, com as duas mulheres na frente, o trio desceu a pequena ladeira em direção a praça central, local onde o evento acontecia.
A primeira coisa que Hilda sentiu foi o aroma doce entrando por suas narinas. Lá no fundo, havia algo nostálgico naquilo.
A Accumula Summer Market daquele ano tingia o ar com cheiros das frutas frescas, especiarias, das tortas e das geleias, todas colhidas e produzidas pelos próprios moradores. As tendas montadas seguiam o mesmo padrão, mas cada vendedor fazia questão de decorá-las à sua maneira, deixando ali sua própria marca. Em Accumula, tratar a comunidade bem era uma troca recíproca.
Pokémon e humanos trabalhavam juntos. Os moradores que vinham de áreas afastadas chegavam em caminhonetes antigas herdadas da família, cobertas de barro, descarregando mercadorias com a ajuda de Timburr e Blitzle. Lilligant ajeitavam flores nos expositores e até mesmo Pansages faziam a frente oferecendo frutas de amostras para os visitantes.
Naquele ano, o evento arrecadava fundos para o Corpo de Bombeiros que prestava serviço voluntário para a cidade. Por isso, Herdier e Frillish apareciam aos montes, inclusive em um estande da própria instituição, cheio de brincadeiras, exposições e pequenos prêmios. Era quase um mundo à parte. Todos se conheciam; olhares eram trocados com familiaridade, e o tempo parecia não ser inimigo de ninguém.
Hilda parou alguns metros de distância do evento.
— Sabe...
Clara olhou para ela. Criou expectativas que a nostalgia tinha atingido a garota.
— Aquela manicure que você contratou — continuou a modelo. — Muito amadora para o meu gosto. Ela demorou mais de uma hora, me fez acordar cedo, errou o tom e ainda teve a AU-DÁ-CIA de usar uma marca horrível. Ela foi muito bem orientada e sabia que eu só uso Hermès e teve a ousadia de aparecer com aquela porcaria da Dior. — Logo em seguida ela levantou as mãos como se tivesse genuinamente ofendida e concluiu. — Pode demitir.
Clara se deu por derrotada, mas continuou positiva. Balançou a cabeça e assentiu.
— Como quiser, senhorita.
Quando adentraram oficialmente o evento, Hilda foi prontamente instruída a trocar algumas palavras com o prefeito da cidade, que estufava o peito por estar perto de uma celebridade. Uma câmera já estava sendo posicionada para registrar o encontro.
Clara, como uma boa representante e mediadora, iniciou a formalidade.
— Senhorita Hilda, este é o prefeito Walker.
Walker transpirava quase de forma desagradável. Não sabia se era pela ansiedade ou pela péssima escolha de vestir roupa social numa temperatura elevada daquelas. Apesar de ser uma figura política, portava-se de forma patética. Sua primeira reação foi se aproximar de Hilda quase como um Snorlax desengonçado para lhe dar um abraço.
Ágil, a modelo recuou com uma expressão imediata de desgosto, levantando as mãos em defesa.
— Ew! Não — disse ela. — O senhor está suado.
— Ah... Hã... — ele riu, nervoso e constrangido. — Peço mil desculpas. O calor está impossível hoje. Mas agradeço muito a sua presença e espero que aproveite o evento. Poderia dizer algumas palavras para a câmera? Tenho certeza de que sua mensagem vai atrair muitas pessoas para os nossos festivais futuros.
— ... Claro. — Assentiu a garota, recompondo a postura.
O prefeito Walker e Hilda se posicionaram no enquadramento da câmera, e com uma distância segura um do outro. O jovem cameraman acenou positivamente, declarando o início da filmagem.
— Estamos aqui no nosso tradicional festival de verão na nossa linda e próspera Accumula. — O prefeito iniciou sua apresentação, usando de seu dom de oratório político para exaltar o evento. — Na 50ª edição da Accumula Summer Market nosso foco é arrecadar fundos para nossos homens, mulheres e Pokémon do Corpo de Bombeiros. Além disso, temos a honra de ter como presença ilustre de uma das modelos em ascensão mais famosas da nossa linda Unova, Hilda Foley.
Walker se virou para Hilda com um sorriso.
— Primeiramente, é um prazer tê-la conosco. Poderia nos dar suas primeiras impressões do festival?
Hilda respirou fundo e finalmente assumiu sua forma favorita: A figura pública.
— Olá, pessoal. Hilda Foley aqui. — Ela acenou para a câmera com um charme irresistível. O tom da sua voz até mudou, como se mudasse de configuração. — O prazer é todo meu de poder prestigiar um evento tão importante para a comunidade local. Accumula Town é conhecida pelo lema de “A cidade que cresce rápido” e tudo isso é graças aos moradores que se esforçam todas as estações para alimentar o comércio regional.
Walker e até mesmo o operador de câmera se surpreenderam com a atenção detalhista e inteligência de comunicação de Hilda. Apesar de parecer um texto pronto e decorado, era possível sentir que ela passou alguns minutos se dedicando em simplesmente aprender.
— Estou encantada com a magnitude da Accumula Summer Market — a modelo continuou o discurso, olhando em volta. — Estou mega curiosa para aproveitar tudo que vocês têm para oferecer. Eu agradeço o convite do prefeito Walker e convido as pessoas para participarem do evento.
Hilda Foley finalizou com uma piscada leve e uma jogada de ombro charmosa que fez o cameraman corar. Ele encerrou a gravação e acenou com um sinal de joia para confirmar. Em seguida, o prefeito, ainda atônito, direcionou a palavra para a modelo:
— E-Espero que aproveite, de verdade. Suas palavras foram incríveis.
A adolescente abandonou aquela personalidade em frente às câmeras e deu de ombros enquanto usava o celular para conferir a aparência novamente.
— Eu sei. — Ela sorriu, um pouco debochada. — Agora, se me der licença.
Dramaticamente, ela se virou e jogou os cabelos, convencida. Clara apenas balançou a cabeça e riu com o nariz, tão acostumada com aquelas atitudes que já se tornava cômico.
Apesar de controversa, Hilda sabia que o segredo para uma carreira longa e próspera estava no profissionalismo e na comunicação. Se adaptar a diversas situações não era só a regra principal da biologia, mas também do mundo da fama. Por isso, sempre estava pronta para vestir sua máscara e atuar conforme o roteiro pedia. Era capaz de ignorar suas crenças e criar a imagem perfeita. Esse era o seu lema.
Hilda foi abordada por algumas pessoas que pediam fotos e vídeos. Sorria e esbanjava carisma, adorava atenção e holofotes.
Quando não era abordada por fãs, aproveitava para passear pelas barracas. Apesar de focado na agricultura familiar, a feirinha contava com atrações como barracas de jogos, de pinturas faciais para as crianças, artesanato e até mesmo uma área de splash comandado por Panpour e Simipour para refrescar e entreter os menores.
Algumas traziam boas memórias, ainda que Hilda jamais admitisse. O calor a deixava mal-humorada, então não demorou para que seu corpo pedisse alguma coisa refrescante. Para sua sorte, estava bem em frente a uma tenda que vendia sucos e batidas naturais de frutas e berries.
Sobre a mesa que separava o público dos vendedores, três caixas térmicas mantinham as garrafas individuais devidamente geladas. Na frente de cada uma delas, pequenas placas escritas à mão exibiam os sabores disponíveis: uma bebida cítrica feita com Sitrus Berry, laranja, limão e água gaseificada; uma vitamina cremosa preparada com Lum Berry, blueberry e leite MooMoo; e, por fim, um chá gelado de Pecha Berry com pêssego e hibisco.
Depois de analisar por alguns segundos, Hilda levantou a cabeça e seu olhar cruzou com um garoto da sua idade. Ele tinha um olhar curioso, daqueles que sempre pareciam implorar algo. Seus olhos amendoados tinham uma certa inocência que combinava com seus cabelos castanhos igualmente claros com cachos densos. Era uma pena que ele escondia mechas tão bonitas por baixo de um boné velho carmesim. A princípio, ele passou um certo tempo fitando Hilda que ela jurou que ele era algum fã tímido. Mas pelo estilo desajeitado com algumas bandagens adesivas espalhadas pelo corpo, concluiu que ele provavelmente não era seu público-alvo.
— Vamos aproveitar pra se refrescar, moça? — o menino questionou, gentilmente. Parecia um pouco ensaiado e não combinava muito com o jeito dele.
— Estou em dúvida em qual escolher. — Hilda levou o indicador ao lábio inferior, pensativa. — São todos naturais, né?
— Todos feitos com as frutas e berries colhidas na nossa fazenda. — de novo, a mesma fala ensaiada. — Que tal levar o Lum Freeze Shake? — ele gesticulou com a mão e apontou para a caixa térmica do meio, de líquido lilás.
— Com MooMoo Milk, né? — questionou a menina, logo em seguida acrescentando. — É leite integral?
— Hã... — o adolescente tentou manter a postura. — Sim...? Compramos de fazendeiros vizinhos que trabalham com ordenha de Miltanks.
— É pasteurizado? Teria a versão sem lactose? Sou alérgica a lactose. E com leite de amêndoas? — ela continuou a despejar perguntas.
O menino perdeu um pouco da pose.
— Moça, é leite. Apenas leite. Não faço ideia do que é pasteurizado. É um Pokémon? — ele percebeu que Hilda o encarou um pouco descontente e tentou amenizar. — Se não tem certeza, experimenta o Peach Summer Tea. — ele apontou para a caixa ao lado, com garrafas de um líquido transparente alaranjado. — É chá. Sem nenhum tipo de leite.
Hilda pegou uma das garrafas. Analisou o rótulo com informações simples sobre sabor e validade. Minuciosa, parecia uma sommelier averiguando cada característica de um vinho. O vendedor se questionou se ela sabia que aquela custava apenas míseros 5 PokéDólares.
— Foi feito hoje? É muito enjoativo? — e a cachoeira de questionamentos retornou. — Tem açúcar adicional? É feito com qual tipo de chá? Tem alguma tabela nutricional?
O adolescente levou a mão ao rosto. De que cidade grande aquela insuportável tinha vindo? Só estava fazendo um trabalho temporário e não ganharia o suficiente para ter que responder perguntas nutricionais o sei lá mais o que aquela garota fosse inventar. Ele olhou para o lado e notou que uma fila de clientes já começava a ficar grande. Com um sorriso, ainda que sarcástico, ele resolveu se livrar do problema.
— Moça, a fila está ficando grande — explicou, com um sorriso leve e olhos fechados. — Se está inventando esse tanto de perguntas porque não tem dinheiro para comprar e está com vergonha de pedir, leva esse como cortesia da casa. Todo mundo está com calor e temos vendas para fazer.
Pronto. Assim estaria tudo resolvido. Certo?
Quando o jovem vendedor abriu os olhos sentiu seu corpo inteiro se arrepiar. Hilda o encarava com superioridade e soberba, mas, acima de tudo, com uma raiva quase infantil. Havia cutucado o ego explosivo da pessoa mais dramática daquele evento, e, provavelmente de toda Unova. A modelo abriu os lábios para dizer algo, mas alguém foi mais rápido.
— GAROTO! — era o dono da tenda, um homem mais velho que usava um avental manchado de suco. Ele se aproximou às pressas e agarrou os ombros do adolescente. — Está maluco em falar assim com os clientes? Ainda mais com ela?
— O que tem ela? — o jovem perguntou, genuinamente confuso.
— N-não sabe quem é ela?
O menino balançou a cabeça em negativa.
Hilda soltou uma pequena risada nasal, debochada. Era quase como se tivesse expelido o desconforto do próprio ego ferido. Cruzou os braços e encarou o garoto de cima abaixo.
— Imaginei que não me conhecesse. Hilda Taylor Foley não é exatamente alguém para qualquer um.
O proprietário engoliu seco.
— P-Peço desculpas pela atitude do Hilbert, senhorita Hilda. — Ele juntou as mãos, nervoso. — E-ele é só um garoto que veio me pedir um emprego para conseguir algum dinheiro.
O sorriso da modelo ficou estranho, quase perigoso.
— "Conseguir algum dinheiro” então? — ela riu de forma curta, debochada. — Pois bem. Vamos resolver isso.
A modelo estendeu a mão para trás, em direção de Clara. A assessora suspirou, desaprovando a atitude, mas sem interferir. Ela alcançou a carteira de tons rosados adornada com laços de dentro de sua bolsa e a entregou para a sua dona. Hilda abriu o acessório e começou a revirar o compartimento de notas de dinheiro. Ela fez questão de contar em voz alta.
— Vejamos… 100, 200, 300, 400, 500… — o olhar dela nunca saia de Hilbert. — 800, 900… 1000.
Hilda tirou o bolo de notas da carteira e estendeu bem na direção do adolescente. Hilbert alternou olhares entre as notas e a garota. Um sorriso enorme surgiu em seu rosto, simples e genuíno como o de um Darumaka feliz.
— Pra mim? Que foda! — ele aceitou o dinheiro. — Tu é daora, moça. Cê é tipo aquelas pessoas famosas que ganham dinheiro com TV?
O dono interferiu imediatamente.
— Ei! Vai dar dinheiro para esse incompetente? — o homem parecia indignado.
— Vou levar uma caixa fechada dessa coisinha. — Hilda apontou para a garrafa de chá em sua mão.
— Tá vendo? O “incompetente” aqui converteu o cliente — Hilbert se gabou enquanto protestava o adjetivo, mas recebeu um beliscão do proprietário. — Ei!
— Como quiser, s-senhorita Hilda. Muito obrigado pela compra! — o proprietário se virou imediatamente para o garoto. — E você, faça o favor de ir buscar o pedido da moça no carro!
— Pra já, senhor! — energético, ele fez uma continência exagerada. — Valeu pela gorjeta, moça!
O adolescente saiu praticamente saltitando.
Hilda o observou se afastar com crescente insatisfação. Seu plano havia fracassado miseravelmente. Como alguém podia ser tão limitado a ponto de não perceber o insulto por trás daquilo? No fim, só havia jogado dinheiro fora, ainda que, para ela, não fizesse a menor diferença.
Resmungava baixo enquanto pagava pela quantidade exagerada de chá que havia comprado no impulso. Definitivamente não tomaria aquilo. Só fez aquilo pois percebeu que as pessoas atrás de si na fila começaram a observar muito. Não queria manchar sua imagem.
Quando finalizou a venda, quase deu um pulo no lugar.
Um som agudo e estridente próximo dali reverberou pela feira com um anúncio de mal presságio. A reação generalizada foi de cobrir os ouvidos, algumas crianças gritavam rindo, como se fosse uma brincadeira e outras já se colocavam em prantos nos colos de seus responsáveis.
Clara se aproximou da garota, preocupada em descobrir a origem do som. Ela colocou a mão sobre o ombro da mais nova, que logo parou com seu surto interno para prestar atenção. Séria, a mais velha apontou.
Com a visão bloqueada pelas pessoas que começaram a se agrupar, Hilda se esgueirou até alcançar a frente e arqueou a sobrancelha. Era um grupo pequeno de cerca de cinco pessoas que tinham um péssimo gosto para moda. A modelo procurou referências em sua mente até perceber que eles se vestiam com trajes inspirados em tabardos medievais. Era um grupo de teatro?
Eles não se preocupavam com os olhares curiosos. Terminavam de montar um pequeno palco e ajeitavam a caixa de som e o maldito microfone que atormentara as pessoas segundos atrás. Era difícil dizer as idades ou a aparência deles graças ao capuz do tal uniforme. O último ato que finalizou seja lá o que estavam fazendo, foi quando um deles fincou um mastro de madeira no chão. Os curiosos que levaram a cabeça para procurar o que estava na outra extremidade perceberam que se tratava de um estandarte.
O tecido balançou com um leve vento e triunfou acima dos moradores de Accumula. Estampado, estava um símbolo que também era carregado no peitoral dos uniformes daquele grupo estranho. Um escudo meio a meio com as cores preto e branco e no meio, a letra P em azul cruzada com um ziguezague.
Por fim, um sexto membro ingressou e assumiu o palco. Esse usava roupas diferentes e Hilda definiu aquilo como um dos maiores atentados à moda no último século. Não dava pra definir qual fora a intenção do estilista, mas o homem, que alcançava fácil seus sessenta anos, trajava aquela espécie de manto com muito orgulho. A pose impecável fez Hilda imaginar que ele fosse algum líder religioso ou político. Tanto sua postura quanto os símbolos semelhantes a olhos estampados em sua roupa hipnotizam até quem não tinha interesse.
Após levantar diversas dúvidas, o que parecia ser o líder começou a falar no microfone.
— Saudações, cidade de Accumula. — A voz dele reverberou como um trovão distante e Hilda sentiu as pernas tremerem. — Meu nome é Ghetsis. Represento a Team Plasma. Peço mil perdões por interromper subitamente o evento de vocês. Prometo ser breve.
A curiosidade venceu o desconforto. Moradores e comerciantes permaneceram atentos enquanto o homem observava a multidão como alguém analisando um experimento.
— Nós, humanos, crescemos acreditando em uma mentira confortável — continuou ele. — Acreditamos que pessoas e Pokémon compartilham um sentimento mútuo de quererem estar próximos. Desde nosso nascimento, compartilhamos nossas rotinas com eles. No trabalho, no lazer, nos momentos triste e felizes. Porém...
Ele apontou discretamente para um Herdier sentado ao lado de seu treinador.
— Digam-me... Isso é realmente verdade? Alguém aqui já chegou a questionar isso para os próprios Pokémon?
O dono do Herdier engoliu seco e olhou para seu Pokémon, sentindo uma espécie de culpa. O cachorro por sua vez, como uma verdadeira incógnita, balançou o rabo, esperando algum comando.
— Sujeitamos os Pokémon aos nossos comandos egoístas — Ghetsis continuou. — Alguns são obrigados a batalharem até que um caiam exaustos. Outros carregam nossos pesos. Forçamo-los a serem presentes e dispostos o tempo todo para que possamos usá-los como conforto emocional.
A voz de Ghetsis endureceu.
— E então, existe a indústria da mídia.
O olhar dele atravessou a multidão até encontrar Hilda.
— Senhorita Hilda Foley.
A praça inteira virou o rosto quase ao mesmo tempo. Hilda sentiu o peito apertar, mas sustentou a postura com o orgulho de alguém acostumada a viver sob julgamento público.
Ghetsis desceu de seu palanque e se aproximou da adolescente, parando ao seu lado.
— Eu devo ter empurrado Giratina pro Distortion World pessoalmente pra merecer uma coisa dessas — resmungou a modelo, com a mão no rosto.
— Uma das figuras mais influentes de Unova — apontou Ghetsis. — Modelo e influenciadora. Filha de Havana Foley, provavelmente a atriz e modelo mais famosa dessa região. Sobrinha de Benjamin Beaumont, CEO do grupo Beaumont, uma das maiores multinacionais de fragrâncias do mundo.
Hilda não se impressionou com a ficha que o homem lhe dera sobre sua vida. Até achou divertido os minutos de dedicação para pesquisar tais informações.
— Símbolo de luxo, beleza e entretenimento. Milhões acompanham sua rotina diariamente. Milhares consomem os produtos que ela recomenda. Alguns até ousam dizer que querem ser como ela.
Hilda olhou para Ghetsis. Com a testa franzida e um ar de deboche, ela cruzou os braços.
— Você quer um autógrafo ou vai continuar com essa apresentação de vilão de teatro?
Algumas pessoas riram baixo. Ghetsis sorriu com escárnio, mas sem perder sua pose sofista.
— Interessante, senhorita Foley. Mesmo uma situação como essa você consegue transformar em um espetáculo. Deve ser uma habilidade bem desenvolvida por alguém criada na mídia.
O comentário cerrou algumas risadas e se transformaram em cochichos.
Ghetsis se posicionou logo atrás da adolescente, um pouco para o lado, olhando para a mesma direção que ela. Ficou parado ali como uma assombração, um encosto, pronto para sugar sua alma.
— Responda-me, senhorita. Quantos Pokémon exaustos foram necessários para sustentar sua imagem perfeita? Quantos foram tratados como acessórios descartáveis em campanhas publicitárias? E quantos bastidores foram abafados para que celebridades como você continuassem vendendo felicidade para o povo de Unova?
Hilda arqueou uma das sobrancelhas e respondeu:
— Não faço ideia do que você tá falando.
— Imaginei que não — rebateu Ghetsis. — Pessoas privilegiadas raramente sabem de onde vêm as coisas que consomem. Esse é o conforto do luxo, outros limpam a sujeira por você.
O palestrante estalou os dedos. Em resposta, um Beheeyem se aproximou. O Pokémon tinha uma aura cósmica desconfortável. Ele se posicionou e seus olhos verdes brilharam e mudaram para uma coloração azulada. Com seu poder psíquico, ele projetou um holograma semelhante a um telão. Grande o suficiente para que até os mais afastados pudessem ver.
As primeiras imagens mostravam comerciais famosos. Sessões fotográficas luxuosas. Celebridades sorrindo ao lado de Pokémon maquiados e vestidos para campanhas milionárias. Entre elas, a própria Hilda aparecia em algumas tomadas rápidas, sempre impecável diante das câmeras.
Então, as imagens mudaram.
Um Minccino apareceu tremendo sob luzes intensas de estúdio.
Um Emolga preso em cabos durante gravações aéreas repetidas inúmeras vezes.
Pokémon assustados em camarins apertados.
Um Growlithe sendo contido por sedativos para permanecer dócil durante entrevistas ao vivo.
Um Cinccino claramente esgotado tentando repetir movimentos coreografados enquanto produtores gritavam irritados ao fundo.
As imagens passavam rápido demais. Não havia contexto, não havia datas. Apenas choque. E aquilo funcionava.
Os murmúrios aumentaram e Hilda sentiu diversos olhares caindo sobre ela.
— Isso é... ridículo — por falta de palavra melhor, a modelo retrucou.
— Ridículo? — Ghetsis inclinou levemente a cabeça, desconfortavelmente próxima do ouvido da modelo que comprimiu os lábios. — Essas imagens existem. Esses Pokémon existem e o sofrimento deles é real. Ou a senhorita pretende dizer que tudo isso é mentira?
Os olhares se intensificaram, cobrando uma resposta. Mas ela não respondeu, sentindo o estômago pesar, como se seu orgulho estivesse apertando seus órgãos internos, tentando sobreviver.
Ela conhecia aquele mundo. Sabia dos bastidores cruéis, dos produtores agressivos, das gravações intermináveis e das marcas que tratavam Pokémon como objetos cenográficos.
Só que aquilo não importava. Não era problema dela e não a afetava.
— A mídia transformou criaturas vivas em ferramentas de consumo — continuou Ghetsis, retornando ao seu palco — E figuras como Hilda Foley são o rosto perfeito desse sistema. Belas e carismáticas, porém, vazias o suficiente para vender qualquer fantasia ao público.
Aquilo sim era problema dela.
— Você não sabe nada sobre mim! — ela levantou a voz um pouco mais do que gostaria.
— Então prove.
Silêncio.
— Diga para essas pessoas que estou mentindo. Diga que sua indústria não explora Pokémon até a exaustão. Diga que nunca fechou os olhos para abusos porque era mais conveniente continuar famosa.
Hilda tentou rebater, mas nenhuma palavra saiu. Não porque ele estivesse completamente certo, mas porque havia verdade suficiente naquelas acusações para fazê-la hesitar. E a hesitação foi tudo que a multidão precisou.
Os comentários se intensificaram, celulares começaram a gravar vídeos. Todos esperando um colapso de Hilda Foley.
Ghetsis sorriu, satisfeito.
Ele sinalizou para que o Beheeyem parasse e levantou as mãos, pedindo silêncio da população. E assim foi obedecido.
— Apesar de necessário, não sou nenhum sádico, mas faço isso para que entendam o que estou prestes a dizer. Senhoras e senhores, Pokémon e humanos são diferentes. Essas criaturas possuem poderes ilimitados e muito deles são desconhecidos. Nós, humanos, somos inferiores e mesmo assim, Pokémon nos acompanham com bel-prazer.
Ghetsis levantou os braços em direção a multidão.
— A Team Plasma acredita que existe apenas uma maneira de romper esse ciclo de mentiras. — Sua voz se levantou. — LIBERTEM VOSSOS POKÉMON!
A multidão ficou estática. A dúvida havia sido plantada.
Hilda sentiu uma onda de choque percorrer seu corpo a ponto de agarrar seu braço para que ele não agisse involuntariamente. Havia lógica nas palavras daquele homem, sua solução também parecia plausível, mas a modelo não se preocupava o suficiente com o assunto.
— Com esse pedido, eu encerro meu discurso. Agradeço a atenção de todos. Estamos de braços abertos caso queiram entender mais sobre nossas crenças e como podem ajudar. Sei que é muito para digerir em um pequeno discurso, por isso, estaremos distribuindo panfletos com informações. Tenham um ótimo evento.
Um desses caiu na mão de Hilda, que o analisou rapidamente. A ilustração estampava um membro da Team Plasma apontando para o leitor, com uma expressão séria e quase hipnotizante. Era desconfortável e propositalmente provocativo. Hilda reconheceu aquela estratégia de marketing inspirada em antigos governos que chamava as pessoas para o dever e as colocavam como peças importantes para algo grandioso. Os dizerem “A Team Plasma precisa de você para Libertar os Pokémon” só reforçavam a autoestima do leitor, como se o tornasse indispensável.
Antes que a garota pudesse amassar o papel e voltar para seus afazeres, o primeiro golpe de rebeldia chamou a sua atenção.
— Você tá certo! — berrou uma pessoa. Se tratava do dono do Herdier que antes fora praticamente “desafiado” por Ghetsis.
Uma mulher ao seu lado, provavelmente sua companheira, agarrou o ombro dele com uma feição de preocupação. O Herdier em seus pés se agitou, preocupado.
— Querido, d-deixe disso... — confortou ela, com a voz um pouco assustada. — O Cooper adora você.
— E eu o amo! — retrucou o homem. — É por isso que ele precisa ser livre. Não é o que dizem? “Quem ama, deixa livre”? — trêmulo, ele alcançou a Pokéball do Herdier no bolso e a encarou. — Desculpa por tudo, carinha.
A mulher tentou conter, o Herdier encarava tudo confuso. Em um movimento carregado de dor, ele arremessou o objeto no chão e o destruiu com o calcanhar. Depois, mordeu o lábio, contendo o choro.
Hilda esboçou uma reação de quem havia presenciado uma insanidade tão absurda quanto às peças de roupa no setor de moda do Walmart e seu desrespeito pelo bom gosto. Ela olhou em volta. A Team Plasma havia deixado o ambiente como um fantasma, mas não sem deixar suas assombrações para trás.
— V-você é maluco?! — quem direcionou a palavra para a situação era um vendedor de uma tenda próxima. — É seu Pokémon. Acha que ele vai conseguir sobreviver na natureza? Vai se deixar levar por um discurso idiota de um desconhecido?!
— Não deveria me julgar quando você utiliza os Pokémon para carregar seus fardos como se fossem objetos — argumentou o ex-dono do Herdier, apontando para um Zebstrika amarrado contra uma carroça.
Hilda não conseguiu presenciar o resto da confusão. Clara tocou seu ombro com delicadeza e acenou para que elas deixassem o lugar, preocupada com a possível evolução da confusão.
Quando a modelo concordou, uma terceira pessoa interrompeu, agarrando um dos braços da modelo. Era outro homem, ele tinha quase o dobro da altura de Hilda e não tinha uma expressão de quem ia pedir um autógrafo.
— Você sabia de tudo aquilo? — questionou, se referindo as imagens transmitidas. — Tem coragem ainda de ganhar dinheiro em cima do sofrimento de tantos Pokémon.
— Eu não controlo o que acontece nos bastidores — respondeu Hilda. Clara agarrou seu pulso, preocupada. — Agora tire essa sua mão de mim antes que eu chame meu segurança!
A veia no pescoço do gigante pulsou e ele agarrou o outro braço de Hilda e aproximou o rosto. A modelo esboçou nojo quando o hálito de bebida alcóolica invadiu suas narinas.
— Tem sangue inocente nas suas mãos!
— Você não está nem lúcido o suficiente para estar afirmando isso — debochou Hilda, cuspindo na cara dele e conseguindo se livrar. — Onde está o inútil do meu segurança?
O homem atingido limpou o rosto e encarou a menina furioso. Clara a puxava para trás com movimentos leves. Ela sussurrou para Hilda, reafirmando a urgência de deixar o local.
De repente, o ex-dono do Herdier foi empurrado contra o gigante e ambos foram arremessados contra a mesa de uma venda de produtos artesanais, incluindo velas aromáticas. Deu pra ouvir o vendedor que o empurrara proferir xingamentos, assim como o dono da tenda destruída.
Algumas velas aromáticas acesas entraram em contato com panos e enfeites inflamáveis e não demorou segundos para que um pequeno incêndio se iniciasse, o suficiente para pessoas gritarem e uma correria começasse.
Hilda sentiu o tempo parar quando seus olhos pousaram nas chamas.
Os vultos passavam lentamente em volta de si.
Os sons estavam abafados.
Aquele fogo crepitando em um degradê bonito prendiam seu olhar como se fosse magnético. Por fim, sentiu uma nostalgia inexplicável, parecida com memórias de guerra.
Só foi despertar quando Clara a puxou com um solavanco. Ambas correram por entre as pessoas. A assessora tentava procurar o caminho para o trailer para ficarem seguras antes de, efetivamente, entrarem em contato com alguém. Hilda a seguia quase arrastada, já que a loira insistia em não soltar seu pulso.
De repente, num único impulso, alguém as puxou por entre duas tendas. Pararam em uma área mais afastada, cercada por caixas e estoques de mercadorias do evento. Clara soltou o ar em alívio ao reconhecer o homem que as guiara até ali: o segurança pessoal de Hilda.
A modelo, no entanto, não parecia nem um pouco aliviada. Seu cabelo estava bagunçado pelo tumulto e o calor fazia suor escorrer por sua testa.
— Onde você estava, seu imprestável?! — berrou Hilda. — Um brutamonte bêbado quase me agrediu! — ela apontou para o braço cuja marca da agarrada já começava a desaparecer. — Por pouco não arrancou meu braço! Você é um incompetente! Quando voltarmos, iremos rever esse seu contrato. Pode dar adeus as suas férias!
— ...Cala a boca.
A voz saiu baixa, mas foi suficiente para que fosse escutada. Hilda arregalou os olhos, ofendida.
— Você tá me mandando calar a boca?! Sabe qual é sua posição aqui?!
— Hilda... — Clara tentou intervir, nervosa ao perceber que o tumulto do festival começava a diminuir ao longe.
Os bombeiros voluntários já controlavam parte da situação, e os sons desesperados do evento aos poucos se transformavam em murmúrios dispersos.
O segurança deu um passo à frente.
— É só isso que você sabe fazer — rebateu. — Fica reafirmando essa merda de status para se sentir superior. Você sabe que nada acontece, pois é uma mimada protegida!
Irracional, ele avançou na direção dela, mas Clara entrou no meio.
— Para com isso! — a assessora gritou.
— Inventa um discurso diferente. Eu ouço essa toda semana! — Hilda retrucou, avançando também. — E quer saber? Não me afeta. Eu continuo sendo superior.
— Pelo amor de Arceus, não é hora pra-
A frase morreu.
Clara travou no meio do movimento e Hilda demorou um segundo para entender. Então viu.
A mancha vermelha começou pequena, espalhando-se lentamente pela roupa da assessora. A faca tática estava cravada em seu abdômen. O segurança arregalou os olhos. Parecia assustado tanto quanto elas. Por reflexo ou puro pânico, ele puxou a lâmina de volta.
Clara perdeu o ar. O sangue escorreu rápido entre seus dedos quando ela tentou pressionar o ferimento. Cambaleou alguns passos na direção de Hilda, como se ainda tentasse protegê-la, as seus joelhos cederam antes e ela caiu aos pés da modelo.
— Clara?!
Hilda se ajoelhou imediatamente, pressionando as mãos contra o ferimento numa tentativa desesperada de conter o sangue.
O segurança encarava a faca manchada, tremendo.
— O que você fez?! — Hilda gritou, desesperada. — Chama ajuda! AGORA!
Ele soltou a arma no chão. O horror em seu rosto parecia genuíno.
— D-desculpa...
E fugiu, como um covarde.
Hilda tentou ir atrás dele, mas parou ao notar as próprias mãos, virando-a para si, se deparando com a palma suja de sangue.
O sangue de Clara.
Sua respiração falhou. Os sons se abafavam, a confusão do festival ao fundo parecia distante, seu tato parecia não existir, seus pés não sentiam o chão e sua vista estava embaçada.
Então ouviu vozes.
Primeiro distantes, depois, próximas demais. Um flash quase a despertou do transe, as pessoas haviam encontrado a cena: uma adolescente coberta de sangue junto de um corpo caído e uma faca, o objeto do crime, no chão. A conclusão parecia óbvia.
Alguns começaram a filmar, enquanto outros tentavam se aproximar, exigindo respostas, já que Accumula não estava acostumada àquele tipo de violência. Hilda tentou recuar, mas o corpo não respondia. Ela arfava, presa entre o choque e a hiperventilação, enquanto a multidão parecia crescer ao seu redor como uma onda prestes a engoli-la.
Então sentiu alguém puxando seu braço. Tudo aconteceu rápido demais.
Num instante estava sob o sol sufocante do festival e, no outro, à sombra fresca de um grande carvalho na rota ao lado de Accumula. Hilda se assustou ao sentir algo gelado tocar seu pescoço.
Piscou algumas vezes até perceber que era uma garrafa com um líquido alaranjado. Quando ergueu os olhos, encontrou Hilbert, o garoto da barraca de bebidas de mais cedo.Ele parecia ofegante de tanto correr, mas ainda assim sorriu de maneira estranhamente tranquila, tentando aliviar a situação.
— E aí, moça... — disse, estendendo a bebida. — Tá calor, né? Toma um Pecha Summer Tea pra refrescar.










UM NOVO COMEÇO
ResponderExcluirÓtima introdução a Hilda e sua personalidade forte pra dizer o mínimo , já causou problemas agora imagina depois kkkk
Hilbert apareceu menos mas só pelo que teve já dá pra ver a diferença dos dois e como vai ser essa dinâmica (Inclusive com essa bela arte do China)
MAS DE LONGE MINHA PARTE FAVORITA É O DISCURSO DO GHETSIS
O cara vem do nada, dá suas mitadas, chama a Hilda no X1, vaza deixando panfleto e TUDO COMEÇA A PEGAR FOGO.
Simplesmente o maior de todos
E QUE VENHA MAIS NPU!!!
Dear Grovy (ou Meu Bem mesmo, vamos dispensar as formalidades kkkkkk)
ExcluirQue alegria te ter aqui! Histórias novas, mas velhos companheiros sempre presentes! Bem-vindo ao reboot de NPU (e esperamos que dê certo)
O discurso de Ghetsis de Accumula sempre foi um negócio aleatório no jogo pra mim, o cara realmente brota sem contexto só pra apresentar quem é o inimigo novo de Unova. Foi divertido reimaginar esse momento com um contexto adequado. E É ISSO AÍ GHETSIS, TEM QUE ACABAR COM OS FAMOSO. GHETSIS, DESTRUA A VIRGINIA FONSECA!
A mudança da Hilda me deixou muito satisfeita, apesar da personalidade que eu particularmente não aturaria 5 minutos (sou muito mais um Hilbert que os olhos brilham quando vê dinheiro huashuashuahus)
OBRIGADA PELA PRESENÇA!
Te vejo no próximo!
Vou acompanhar o NPU, li o capítulo e agora quero mais!!!!!
ResponderExcluirDear Chester
ExcluirBEM-VINDO A NEO POKÉMON UNOVA. Sua vantagem é que você não conhece a antiga, então tudo vai ser uma novidade huahuashuashu
Fico feliz que tenha gostado! AGUARDE, LOGO VIRÁ!
OBRIGADA PELA PRESENÇA!
Te vejo no próximo!
Sou eu, Anão
ResponderExcluirVish NPU tem um novo começo? Uia, desta vez foi bem mais focado na Hilda, ai da vamos ter Victini nessa versão?
Pobre Clara. Deu uma de bolsonaro e ainda pelas mãos de um colega de equipe, bem deve ter morrido, então vou dar meus pêsames para ela.
Abandonar cachorro é permitido nessa cidade? Que absurdo esse cara ter feito isso TT_TT
Acabei por aqui, vou no WhatsApp te atormentar agora.
Dear Anão (ou Sr. Anônimo que se identificou como um Anão)
ExcluirTemos um novo começo, eu ouvi dizer que reboot é uma moda e eu O-D-E-I-O não estar atualizada nas trends dos jovens da internet.
Posso garantir que o Vic ainda fará sua presença, fica tranquilo, nenhum personagem querido saiu kkkkkk
Clara botou a mão no fogo pela pessoa errada e ainda pagou com a própria vida. O mundo é injusto!
A Luísa Mel do mundo Pokémon já está de olho para resolver esse abandono de cachorros (ainda que ngm saiba o que é um cachorro no mundo Pokémon)
Te aguardo no Whatsapp
OBRIGADA PELA PRESENÇA!
Te vejo no próximo!
Cheguei atrasada, mas cheguei!
ResponderExcluirE eu sigo sendo o anti-jurídico Hilda Foley, pois nunca pensei que eu ia bater palma pro Ghetsis humilhando uma adolescente, mas aqui estamos kkkkkkkkk Pq minha amiga, faltou um media training aí pra vc, querida, vc era pra ter devolvido essa bola pra esse velho cultista safado! Falando em faltou, vamo contratar outro segurança e outra assistente... Ih, pera, ela levou facada, né, vai ter que trocar mesmo... OPS :D
Cara, mas e essa interação dela com o Hilbert? Eu tô interessada pra ver como a amizade deles vai começar depois disso, pq apesar do bichinho não ter se ligado, isso foi algo pesado que ela fez... Como que vai se desenvolver a relação desses dois agr, principalmente agr que eles são mais opostos do que nunca? Só me resta aguardar!
E, olha, um último comentário, a Hilda que se considere com sorte por ter sido cancelada por algo que ela tecnicamente não fez parte diretamente, pq se fosse com as atitudes dela, a bicha tava mto mais na merda kkkkkk
Enfim, parabéns pelo retorno ao mundo das fanfics, que seja o primeiro capítulo de muitos! Até a próxima! <3
P.S: CHINA É MTO BRABO, NÉ, LINDÍSSIMA A ARTE!
Dear Jolly
ExcluirVOCÊ NUNCA ESTÁ ATRASADA, VOCÊ ESTÁ SEMPRE NA HORA CERTA!
Dá pra dizer que o Ghetsis é o Lucífer e a Hilda é alguma coisa próximo do próprio rei do inferno. Mas é legal ver essa visão pq ao mesmo tempo que o Ghetsis, A GENTE SABE QUE ELE TÁ ERRADO. Amiga, vou falar, eu acho que nem se a Hilda tivesse a equipe da JK Rowling pra evitar de falar merda, ela pararia kkkkkkkkkkk
A vantagem de ter um protagonista bobo é essa, nenhuma punição vem na hora, mas no futuro o Hilbert pode falar: PO VC FOI FILHA DA PUTA NAQUELE DIA, VIU? kkkkkkkkkkkkkkkkk
Confia que opostos se atraem é minha especialidade, nem que seja na base da conveniência de roteiro kkkkkkkk
Ah, Jolly, você não sabe o que aguarda para ela no capítulo 2.......
OBRIGADA PELA PRESENÇA!
Te vejo no próximo!
Oi, Star!! Tudo bem contigo?
ResponderExcluirPrimeiramente quero parabenizar você pelo inicio da sua historia!!! Escrever é sempre um desafio, ainda mais quando vamos refazer uma ideia e precisamos quebrar a cabeça pra saber o que queremos levar e o que queremos mudar, então comemore essa vitória!!
Não conheço nada da história anterior, então tudo é um grande misterio e estou curioso pra saber onde você vai levar essa historia.
Já vi que vou sofrer muito com a Hilda, acho que se eu convivesse com ela eu teria dado fim nela já (por meios legais, espero eu)
Esse primeiro capítulo me deixou muito intrigado, como eu disse anteriormente, quero ver pra onde você vai nos levar! Seria o Ghetsis o causador do fim das BETS de Unova?
Por fim, fico triste pela Clara!! Queria ter visto mais dela. Ser uma das únicas pessoas que aguentam a Srta. Foley é um feito e tanto, e achei que veria mais dela pra entender como a mente e o coração aguentam asuhashuashu
RIP
Enfim, fico feliz que você tenha voltado pro mundo da escrita e torço pra você continuar escrevendo mais e mais!! A arte é a válvula da nossa alma que precisa ser aberta sempre que possível!
Abraços (:
Dear Gui
ExcluirMuito obrigada! Eu acho que todo escritor que tem a mínima vontade de escrever sofre com a pior coisa sobre a escrita: ESCREVER. É muito fácil delirar em pensamentos da madrugada com takes cinematográficos e no papel virar uma porcaria kkkkk
Você vai estranhar o pessoal se empolgando com alguns velhos personagens ou comentando comparações, mas posso te garantir que essa nova fase de NPU é completamente independente kkkk
Relaxa que a Hilda tá com uma fila gigante de haters e ela já tá adorando toda a atenção (ainda que negativa)
Ghetsis será o responsável pela CPI das BETs, esse capítulo 1 é ele questionando a nossa Virginia Fonseca kkkkkkkk
Clara aguentou tanto a Hilda que Arceus já puxou ela pro céu direto pq já aturou muito. Ela é uma personagem intrigante pra mim também, ela já existia de outro jeito na antiga versão de NPU, mas você está vendo A MELHOR FORMA DELA!
OBRIGADA PELA PRESENÇA!
Te vejo no próximo!
É A SHII AQUI (COMENTANDO EM ANÓNIMO POR PREGUIÇA DE FAZER LOGIN NO BLOGGER)
ResponderExcluirE assim, NPU teve seu regresso tão aguardado! Como leitora de longa data da fanfic, admito que foi um pouco triste a noticia de que irias rebootar a história. Lembro-me de ler os 40 capítulos da NPU antiga e ser uma experiencia incrível. Tenho excelentes memórias de cada cena e de dar imensas risadas.
Mas se, como autora, sentiste maior conforto criando um rumo completamente novo, para refrescar os teus objetivos, então só resta habituar-me aos novos tempos.
A nova Hilda tem imenso potencial em comparação com a antiga. Terás que ter bastante cuidado com o rumo que ela levar em seus temas. Influencers digitais costumar ter muitas fãs pequenas que podem fazer coisas impróprias por atenção ou não aguentarem a pressão de ''não serem bonitas igual aquela modelo'''', ou mulheres que tentam alcançar uma imagem IDEAL(que não existe). É um lado bastante escuro, pressionado da sociedade. A própria Hilda vive num meio bastante artificial. O trauma dela, uma situação completamente fora da sua rotina segura, a levará agora por um rumo em direção à VERDADE. (BW CONFIRMED) O que acontecerá agora a ela sem a luz dos holofotes?
Depois tivemos um corno manso Hilbert ganhando uma gorjeta fenomenal kkkk Mas a verdadeira estrela aqui foi mesmo o Ghetsis, com seu discurso sobre usar Pokémon como objeto enquanto o seu próprio servia como projetor... Que contradição, típico de antagonista kkkk
Sobre o incendio, curioso não ter sido provocado por Pokémon do tipo fogo agitados no meio da revolta das pessoas. Achei um pouco de burrice dessa gente acenderem velas aromáticas para exposição entre tendas apertadas feitas de material extremamente inflamável. Acho que eles confiaram demasiado no facto de ser um evento para angariar fundos para os bombeiros locais e PUFF, pobre Hilda, sofrendo as culpas, pois o custo desse erro da povoação viu-se numa desgraça. A sorte é que os bombeiros estavam mesmo lá, não foi? KKKKK
Espero que o rumo que a fanfic tenha siga algo semelhante ao filme de animação Disney BOLT O SUPER CÃO, porque os paralelos entre ambos são imensos kkkkkk. Estou no aguardo dos próximos com imensa espectativa e entusiasmo! VIC, QUERO VER MEU CLÁSSICO LADRÃO DE CASTELIACONES!
Dear Anônimo-que-é-a-Shii
ExcluirAcho que muita gente não superou o luto depois de 40 capítulos, nem eu como autora, mas prometo que ela estará presente (inclusive preciso divulgar o link do arquivo da antiga Neo Unova para os notalgicos)
A temática de Unova é muito semelhante com o mundo da fama. Admito que passei meses ouvindo as músicas da Taylor Swift e como a mídia pressiona ela. "Tem muito namorado", "é muito santinha", "muito gorda", "muito magra". É como você bem disse, tem como ser o ideal e de verdade ao mesmo? Existe um equilibrio?
NPU vai se guiar muito nisso
Todo mundo pagando pau pro Ghetsis só mostra como esse desgraçado dá trabalho kkkkkkkk Passei meses batendo a cabeça nesse discurso, tentando conectar ao original dos jogos com a temática em NPU, no final consegui um resultado que me deixou feliz e fico feliz de receber esse feedback positivo!
Nenhum vendedor de velas aromáticas espera que dois adultos comecem a brigar do nada haushaushua Sobrea escolha de Pokémon, acho que a ideia de não fazer "eles saírem do controle" é só uma escolha não proposital de mostrar que o discurso do Ghetsis no final não estava totalmente errado: Pokémon são seres superiores, são humanos que começam brigas por ideias
NUNCA ASSISTI BOLT NA VERDADE KKKKKKKKKK Conheço o jogo de PS2 e vi de relance uma vez na TV, então provavelmente o que aparecerá aqui é uma puta coincidência.
PODE VIR VIC, TEM FÃ GRITANDO AQUI
OBRIGADA PELA PRESENÇA!
Te vejo no próximo!