• A Pensão da Lilly Lilligant - Capítulo 6 (Season Finale)



    O Café Mix era o lugar mais confortável e familiar do mundo. Não mais que a própria pensão, é claro.

    O cheirinho dos ingredientes naturais sendo misturados e transformados em receitas novas prontas para serem vendidas e degustadas por todo tipo de Pokémon que passasse por ali. A decoração era delicada, limpa e clara e tudo era tão organizadinho bem como Lilly imaginou. Algum tempo de trabalho foi necessário para que tudo ficasse pronto para funcionar.

    — Rápido, rápido, tia Bree, tio Vic! – gritou Sombra, correndo em direção ao novo café.

    — É a quarta vez essa semana... – resmungou Vic.

    — Onde cabe tanto açúcar nessa menina? – questionou Brianna, segurando a coleira do Victini.

    O Pokémon anjo sorriu de canto de boca e passou o braço em volta do ombro da companheira:

    — Será que rola dessa vez um pedaço de bolo pra mim? – perguntou.

    Mas a Snivy nada respondeu, o que deixou o outro preocupado.

    — E-ei! – ele chamou.

    O olhar de Brianna estava focado para a pequena ponte que servia de entrada para a pensão. De longe, era possível ver que chegava. Três Pokémon, um Darmanitan que logo foi recepcionado por Mirsthy, uma pequena Cleffa que não saia do calço do grandalhão, e por fim, o que chamava a atenção da inicial de grama, um Excadrill.

    Vic seguiu o olhar da companheira e viu todo o charme do Pokémon que tinha um estilo cowboy. Ele mostrou a língua e deu de ombros.

    — Gente nova só – disse. – Vamos lá? A Sombra tá esperando a gente e-

    Ignorando o parceiro, Brianna foi em direção aos novos hóspedes, em especial ao Excadrill, arrastando o Victini junto com a coleira.

    Quando chegou, mal sabia como agir. Parecia uma adolescente boba que tinha encontrado seu príncipe encantado disfarçado de justiceiro do Oeste. Estava com cara de idiota quando o Excadrill finalmente notou a presença dos dois.

    Howdy, girl! – cumprimentou o homem.

    — O-Oi – Bree acenou de leve, com uma voz mansa nunca ouvida antes. – M-Meu nome é Brianna.

    — Pode me chamar de Jesse, madame – sorriu o Pokémon, fazendo a mulher corar. – E seu namorado?

    — Meu nome é Vi-

    O Victini não teve tempo de terminar antes de levar uma cotovelada no estômago. A Snivy riu de nervoso.

    — N-Não, não é meu namorado. Ele é meu animal de estimação – a risada era tão forçada pra ser fofa que soava como um fantasma assombrando as pessoas.

    — Um outro Pokémon como animal de estimação? – sorriu o Excadrill, ajeitando seu chapéu. – Gosto de mulheres... dominadoras.

    Brianna corou e colocou suas mãos no peito, jurando que o coração sairia de dentro dele.

    — Esse não é um adjetivo pra você fazer essa cara – ironizou o Victini, com as mãos no bolso.

    — É melhor do que você me chamando de selvagem! – disse, em tom baixo, a Snivy, irritada.

    — Jesse! – acenou a Cleffa que tinha chegado junto a ele e ao Darmanitan. – Você não vai entrar?

    — Estou indo! – disse Jesse, acenando de volta. – Estou indo conhecer a pensão. Foi um prazer falar com vocês.

    — EU POSSO TE ACOMPANHAR! – berrou Brianna, envergonhando-se logo em seguida pelo tom de voz. – Digo... – a cobra juntou as mãos, tímida. – Se você quiser.

    O Excadrill estendeu um dos braços com garras mecânicas acopladas para a donzela e sorriu.

    — Será uma honra – disse. Aquilo soou como um sonho para a jovem Snivy que dizia ser de uma família real, um verdadeiro cavalheiro no meio de tantos selvagens. Jesse parecia um príncipe, ainda que sua aparência bagunçada quebrasse um pouco da imagem.

    A mulher segurou o braço forte dele e acenou com a cabeça, positivamente. E assim, ambos entraram, deixando um Victini abandonado em sua coleira. Sombra se aproximou do Pokémon e segurou a barra da jaqueta dela.

    — Tio Vic, a tia Bree não vai comer com a gente? – perguntou a pequena Zorua.

    — Não, Sombra, não vai – respondeu ele, com uma expressão séria e com certo desânimo. – O problema é que ela tinha o dinheiro. Será que o Koin mata a gente se roubarmos bolo?

     

    Koin estava orgulhoso. Além de ter evoluído como forte e rechonchudo Pignite, tinha assumido o controle da cozinha do Café Mix graças as aulas de Lilly, agora, era um excelente cozinheiro e confeiteiro.

    Concentrado em seus serviços e afazeres, mal notou quando a própria dona do local chegou, provavelmente para fazer uma checagem diária.

    — Uau – exclamou a Lilligant. – Esse lugar está brilhando.

    — Hein? – Koin se assustou com a voz repentina e bateu a cabeça na bancada ao se levantar rapidamente. – Oh, olá dona Lilly – sorriu o porco.

    — Foi uma pancada e tanto – a Pokémon flor cruzou os braços e sorriu. – Obrigada por tanta dedicação.

    — Obrigada por me deixar abraçar o sonho da senhora também – sorriu o Pignite, segurando uma caixa cheia de pratos, sorrindo com seus dentes brancos e seus braços fortes.

    Lilly se acanhou um pouco, admirada com a pequena tatuagem de seu rosto no braço do jovem.

    — Já falei pra me chamar de dona ou de senhora. Não estamos com idades tão distantes assim – riu ela, ajeitando seu avental. – Bizarro como os Pokémon crescem rápidos.

    — Alguns nunca mudam – riu Koin.

    A atenção dos dois voltou-se para o balcão de atendimento, onde Sombra se apoiava para tentar alcançar um dos pedaços de bolo expostos na pequena estufa rosada.

    — O que tá fazendo, pequena? – questionou Lilly, se aproximando com Koin.

    — Tô tentando roubar um pedaço de bolo – confessou a jovem infratora.

    A quarta figura que apareceu na cena parecia irritada. Era Vic, que estava envergonhado.

    — Porra, Sombra, roubar é forte demais! – repreendeu. – O certo é “pegar emprestado sem previsão de devolução”.

    — Mas essa frase é muito difícil de decorar tio Vic! – argumentou a Zorua. – Não é a mesma coisa que dizer “Em um ninho de mafagafos haviam sete mafagafinhos, que amafagar mais mafagafinho, bom amagafanhador será”!

    Os outros três encararam confusos para o trava-língua citado pela garota e muitas perguntas surgiram na sua cabeça, mas a mais intrigante era: O que diabos era um mafagafo?

    — De toda forma, vou fingir que vocês não vão tentar roubar nosso café – riu a Lilligant, nervosa. – Onde está Brianna?

    — Tá sendo guia turístico de um mané que chegou na Pensão – respondeu Vic, revoltado.

    — Oh, vi que tivemos três novos check-ins – sorriu Lilly, animada e orgulhosa. – Foi um convite de Mirsthy. Mas você não parece tão animado, são ciúmes?

    — Quê?! Ciúmes?! – as orelhas do Victini esquentaram. – Nunca! Nunca, nunca, nunca!

    — Podia jurar que vocês eram um casal. Um casal com fetiches estranhos, mas um belo casal – riu a Liligant.

    — Casal? – Vic ficou desconcertado. – Claro que não. A gente se suporta, no máximo.

    — Tio Vic tá apaixonado pela tia Bree? – questionou Sombra, fazendo o Victini explodir.

    — Você nem sabe o que é amor! – gritou o Pokémon anjo.

    — Eu amo o tio Vic e a tia Bree! – respondeu a Zorua, animada. – Koin, você ama a Lilly?

    A Lilligant corou dessa vez e o Pignite fez uma expressão surpresa, mas com a resposta na ponta da língua.

    — É claro que amo – sorriu o cozinheiro. – Quem não ama? Ela é uma inspiração pra todo mundo e devemos muito a ela.

    — Eu já tô perdido em que tipo de amor estamos falando – ironizou Vic.

    — É só seguir o fluxo – disse Lilly, um tanto decepcionada.

     

    Nos dias que se seguiram, Vic resumia sua doce rotina em observar sua dona, digo, Brianna acompanhando o novo hóspede da pensão para cima e para baixo, conversando sobre assuntos que o Victini não tinha a mínima vontade em ouvir.

    Estava encostado em um troco de uma árvore aproveitando a brisa e a sombra quando Mirsthy apareceu para lhe fazer companhia.

    — Como pode fazer essa cara com um clima tão bom? – questionou a Minccino, se espreguiçando.

    — Só estou entediado – respondeu o rapaz, com braços apoiados atrás da cabeça.

    — No final das contas, você gostava de andar numa coleira com ela pra cima e pra baixo – debochou a mulher, fazendo o Victini corar, envergonhado.

    — Heh, se quer saber, estou feliz que não estou sendo mais humilhado pela brutamente gosmenta – Vic levantou o nariz e jogou o queixo pra frente, tentando parecer orgulhoso.

    — É por isso que você ainda não tirou essa coleira do pescoço? – questionou a amiga, rindo quando o Pokémon ao seu lado ficou sem jeito ao perder a pose.

    Ele levou a mão até o pescoço, tentando esconder o objeto em vão.

    — Eu só esqueci de tirar...

    — Você deveria deixar seu orgulho um pouco de lado e ser mais sincero. Acredite, homens bonitões com esse jeito mal acabado e sério são só uma fase. As mulheres adoram os estranhos – apontou Mirsthy.

    — Se você tá tentando me motivar, por favor, pare – ironizou o outro.

    — De toda forma, logo as coisas vão voltar ao normal.

     

    Mais alguns dias se passaram, Brianna resolveu aproveitar o pôr-do-sol para levar Jesse a uma pequena colina próxima para admirarem o restinho de tarde que logo chegaria ao fim. Ambos se sentaram na grama rasteira que fazia um pouco de cócegas, o Excadrill tirou seu chapéu e apoiou seu braço sobre o joelho levantado, enquanto Brianna sentou-se sobre os calcanhares, como uma verdadeira dama.

    — De tirar o fôlego, né? – comentou a Snivy sobre a paisagem, respirando fundo.

    — Com certeza. Combina com você – sorriu Jesse. – Obrigado por me ajudar na adaptação, madame.

    — Não precisa me agradecer. Foi muito divertido passar esses dias com você – respondeu Bree, um pouco acanhada.

    — Mas eu tenho certeza que aquele seu amigo Victini ficou bem incomodado com isso. Tá tudo bem mesmo?

    — O quê? O Vic? – a Snivy riu, exagerada. – Aquele cabeça de vento não liga pra nada, deve estar ocupado roubando alguma coisa.

    — Você é muito dura com as pessoas – riu o Excadrill. – Parece sempre brava ou desconfiada.

    — Isso é um problema? – questionou, preocupada.

    — Para mim,não – respondeu, entre risos. – Mas é porque eu ainda não devo ter conhecido sua verdadeira fúria. Você deveria sorrir mais igual sorriu todos esses dias.

    — Eu não faço por mal – disse Brianna. – É só um jeito meu, acaba saindo sem querer. Piora quando eu tô perto daquele Victini folgado. Mas eu prometo melhorar, ser mais feminina.

    — H-hã? Não, por mim você não tem que fazer nada – explicou o Excadrill. – Você só muda se sente que quer mudar, o importante é você se sentir bem. Você já é incrível.

    Brianna sentiu seu coração derreter com tantos elogios. Apaixonada era uma palavra muito forte para quem acabara, mas com certeza poderia passar muito tempo ouvindo aquele homem.

    — Eu adoraria ver o pôr-do-sol com você todo dia – confessou a Snivy.

    — Seria incrível – confessou Jesse. – Porra, Darryl adoraria ver uma paisagem dessas.

    — D-Darryl? – perguntou a cobra de grama, ao seu lado, curiosa.

    — Meu namorado – contou o Excadrill, fazendo a Snivy arregalar os olhos.

    — E-Eu não sabia que você... tinha namorado – a Pokémon riu de nervoso. – Digo... Isso é incrível.

    — Não parece muito feliz com a informação – brincou Jesse, mostrando a língua. – Oh, você... – o Pokémon toupeira encaixou algumas peças. – Ow, girl, desculpa. Eu não queria causar essa impressão, nem era minha intenção.

    — V-Você não precisa se desculpar – riu Brianna. – Digo, quem se precipitou demais fui eu. Talvez eu tenha sido emocionada demais, como dizem.

    Já estava imaginando Vic rindo e debochando da cara dela por quase se apaixonar por um cara que conheceu há poucos dias. Era tão ridículo quando ela parava pra pensar que se sentia num drama adolescente escrito por uma menina de quinze anos com problemas no amor.

     — Eu vou entender se não quiser mais ficar comigo – disse Jesse, ainda que um pouco deprimido.

    — O quê? N-Não, claro que não – disse a Snivy, surpresa. – Isso não afeta em nada no nosso relacionamento. Foi só um mal entendido da minha parte, mas eu estou super feliz de você se sentir à vontade aqui e querer trazer pessoas especiais para você.

    O Excadrill riu e colocou o chapéu de volta, observando o último raio de sol sumir no horizonte.

    — O cara ou a mina que tiver a sorte de ter você ao lado será muito feliz – sorriu o Pokémon, com sinceridade.

    Brianna sorriu de volta.

     


    Talvez a Snivy tenha perdido hora quando finalmente resolvera voltar para a pensão. Jesse tinha lhe pedido licença para se retirar minutos depois daquela conversa, mas ela quis ficar mais um pouco para refletir.

    Caminhou por uma pequena floresta em direção de seu objetivo, nem se preocupando se alguém observava ela. Até que ele resolvesse se manifestar, não tão graciosamente como planejara, até porque acabou escorregando de um dos galhos e caiu de cara no chão.

    Bree se assustou, mas quando notou ser Vic, apenas pisou por cima do corpo do Pokémon e continuou seu caminho.

    — Obrigado pela ajuda – murmurou o Victini, se levantando e alcançando a companheira.

    — O que você quer? – questionou a Snivy, tentando manter um ego que não existia.

    — Eu só estava andando por aí. Onde está seu namorado? – provocou Vic.

    — Meu “namorado” tem um namorado – Brianna levantou o nariz, vermelha. – Agora você pode rir, mas seja rápido porque estou de bom humor.

    O Victini fez silêncio e engoliu seco, ficou encarando a amiga por alguns minutos, reprimindo o lábio enquanto disfarçava a expressão rabugenta. Expressão essa que incomodou a serpente de grama.

    — Fala alguma coisa! – gritou Bree, sendo surpreendida com o Victini agarrando seu braço e prendendo seu corpo magro contra uma árvore. Isso a fez corar, mas deixando-a extremamente irritada. – QUE MERDA É ESSA, VIC?!

    A resposta veio com um beijo quente contra os lábios dela. Obviamente quente por causa da tipagem do Pokémon, mas carregado de um sentimento confuso. Vic recuou, ruborizado, evitou contato visual pois sabia que as pupilas da companheira estariam em chamas.

    — S-Seu Lillipup de estimação não quer perder sua dona – disse, baixinho, estendendo a corda da coleira para a mulher. – N-Não precisa dizer que ama outro homem, pois eu estou bem aqui.

    Brianna segurou a guia da coleira que Vic usava, envergonhada. Suspirou, mas antes de abrir a boca para responder, Victini cortou o clima:

    — Aliás, bem idiota da sua parte querer se confessar pra um cara que acabou de conhecer.

    Bree encarou o Pokémon.

    — E vê se prende esse cabelo, tá parecendo um Carnivine! – provocou o anjo, mais uma vez. Não estava pronto para resolver aquele assunto, todos os sentimentos eram muito confusos.

    — Você não passa de um Lillipup inútil né? – resmungou a Snivy, quase rosnando. – NÃO VOU TE PERDOAR POR ME BEIJAR COM ESSA BOCA IMUNDA, SEU VICTINI MALDITO!

    O Vine Whip estralou e a perseguição rolou a noite toda. Victini, apesar dos golpes, estava animado ao retornar os velhos tempos.

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  • Galeria do Burgh - Aniversário do Hilbert!

     


    COMENTÁRIOS DA AUTORA

    E aqui estamos, 24 de Abril! 
    No capítulo 3 de Neo Pokémon Unova, é revelado que o nosso falsificador de insígnia favorito faz aniversário no dia de hoje. Ele é ironicamente do signo de TOURO, e eu juro por Arceus que ele escreve certo por linhas tortas rs 
    De toda forma, desejamos tudo do bom e o melhor para o menino <3 
    (Curiosidade: Hilbert nasceu em 2001, então ele está completando 21 anos :3)

  • PÁSCOA NPU! (feat. Chinatsu)

     


    Independente da sua crença ou religião, um dos maiores símbolos da páscoa com certeza são os famosos ovos de chocolate. É claro que com o preço nas alturas e o os ovos cada vez menores, fica difícil degustar da iguaria da data. DE TODA FORMA, apesar de NPU ter 2 anos, esse é o primeiro ano que comemoro, oficialmente, essa data com algo que realmente valha a pena postar.

    E é nesse clima que eu trago para vocês os ovos temáticos de NPU que foram feitos por mim, que não tenho nenhuma experiência com confeitaria rs. Mas eu garanto que ficaram bonitos e com uma aparência apetitosa! 

    MAS EU NÃO FIZ ISSO SOZINHA. Novamente, temos a presença do senhor Chinatsu que nos trouxe artes maravilhosas dos protagonistas vestidos de coelhinhos, que além de fofos, decoraram os ovos de chocolate e deram um brilho a mais! 

    Confira as fotos: 

       


       




         



    FELIZ PÁSCOA!
    Que o espírito de páscoa possa renovar em cada um de nós a esperança de dias melhores <3

  • Capítulo 40




    — Meu nome é Junsei Kurosawa – apresentou-se o visitante.

    Hilda sabia que estava na frente de uma figura histórica. O antepassado de Inari e o responsável por registrar a existências das esferas dos dois dragões da Verdade e do Ideal de Unova. Parte da família que manteve a paz por muito tempo na região antes que fossem obrigados a fugir pela maldade das pessoas que queriam trazer o caos novamente.

    Junsei retirou a esfera branca brilhante de dentro da bolsa de pano, relutante em entregar para o casal. Ele suspirou e começou a falar:

    — Essa é a Light Stone, ela guarda o Dragão da Verdade, Reshiram. O Rei nos confiou as duas esferas para que as guerras as envolvendo não voltassem – ele riu de forma sem graça. – Mas aparentemente a pressão está sendo tantas que começamos a ser perseguidos. Eu queria honrar minha missão, mas a minha família é mais importante.

    Hilda não conseguia parar de encarar a Light Stone.

    Novamente, o ambiente mudou. Estava tudo no completo vazio, não havia chão, não havia teto, muito menos paredes. Apenas uma imensidão de uma única cor. Na frente de Hilda, Junsei a encarava como se soubesse que ela estava ali, mas não dizia nada.

    A garota olhou para suas mãos estendidas que carregavam a Light Stone. Seu ato foi estender seus trêmulos braços para alcançar o objeto, mas a voz pesada e carregada de Junsei a interrompeu:

    vOcê aCEitA eSsE DEsTinO?

    Os olhos azuis de Hilda subiram para visualizar o rosto do comunicante. Sua respiração prendeu quando o rosto de Junsei não possuía olhos, apenas um buraco negro e vazio que assustava muito por não saber que expressão ele carregava. Sua cabeça começou a tremer com movimentos frenéticos, até um som ensurdecedor ecoar pelo local, fazendo a menina cobrir os ouvidos.

    O som não parecia com um grito, mas era claramente de desespero. Junsei desapareceu logo em seguida, sendo engolido por uma espécie de vórtex.

    Na sequência, mais imagens do passado. Hilda olhou para frente e lá estava o corpo de uma garota de cabelos curtos, quimono branco expressão vazia, suspensa, com o corpo mole. A corda em seu pescoço revelava o motivo da morte.

    A adolescente cobriu a boca, chocada com a cena. Em seguida, uma série de eventos continuaram a história. O corpo da mesma garota foi levado por monges que usavam máscaras de expressão neutra, eles alcançaram um lugar não muito exato ou conhecido, mas era possível ver um enorme abismo de forma retangular.

    Como se fosse um objeto qualquer, a garota de quimono foi arremessada no abismo.

    Em seguida, um terremoto.

    E mais gritos. Hilda se abaixou, mas o evento não parecia lhe atingir.

    Uma enorme sombra engoliu o cenário novamente.

    vOcê nÃo POderÁ fUGir DesSe dEsTino”

    O cenário muda. Lá estavam Akiri e Ranmaru.

    Ranmaru carregava uma espada conhecida como katana. Akiri estava no chão, chorando em desespero.

    “Não foi culpa delas que não deu certo. NÃO FOI MINHA CULPA! NINGUÉM QUERIA ESSA MALDIÇÃO!”, berrou a mulher. As mãos sujas de sangue do homem e a expressão insana com os olhos arregalados indicavam que ele não estava são.

    “O ritual não deu certo. As sombras vieram, quem não morreu, logo será consumido por ela”, sua risada era assustadora. “Então essa é a maldição da Light Stone? Esse é o poder daquela esfera? Uau”

    “Como consegue ainda ficar admirado?!”, gritou Akiri.

    “Eu vi uma pessoa tentar destruir a Light Stone enquanto fugíamos do templo. Ela agarrou a esfera e seu corpo queimou”, Ranmaru contava com um sorriso no rosto, enquanto alcançava uma lamparina. “Sua pele descolou de seu corpo e eu o vi ficar em carne vive antes de as chamas consumirem seu corpo”

    “O que vai fazer?”, perguntou Akiri, preocupada com o objeto nas mãos do marido.

    “Nós vamos QUEIMAR”

    Ranmaru deixou com que a lamparina alcançasse o chão e o fogo o consumisse junto de Akiri. A mulher gritou em desespero e ele continuou a rir, enquanto as chamas engoliam aquela feição assustadora.

    Hilda travou e sentiu seu corpo pesar. Sentiu seu pescoço fechar e lhe faltar ar. Toda a dor causada pela Light Stone naquela família caiu como uma culpa contra ela. Seus joelhos cederam contra o chão, com a boca aberta, quase seca, ela começou a chorar.

    — D-Desculpa – disse, num sussurro.

    Akiri surgiu por trás, entrando na visão da menina. Claramente se tratava de um espírito, mas esse parecia calmo. Hilda sentiu um leve calor quando as mãos da mulher tocaram suas bochechas.

    “Seu destino é tão triste quanto o nosso”, disse ela. “Você é tão nova quanto minhas filhas e carrega uma missão tão exaustiva. Não é a sua culpa se as pessoas são más. Você pode me fazer um favor? Promete que vai ajudar esse lugar? Você só precisa levar a Light Stone embora”

    Akiri acariciou as pálpebras de Hilda e os olhos da garota se tornaram brancos, como se fosse cega.

    “Por favor, me prometa que vai salvar o mundo”

     

    Vic berrou pelo nome de Hilda que despertou. A adolescente se levantou, estava de volta ao escritório, mas dessa vez, ela estava diferente.

    Hilda! Achei que tivesse morrido ou que tivessem te levado! – disse o Victini, aliviado em ver a amiga não tinha qualquer machucado. Mas voltou a se afligir quando ela nada respondeu. – Hilda, tá tudo bem?

    Hilda olhou para o amigo, mas não diretamente para ele. Suas írises brancas como um véu de noiva chegavam a ser relaxante e assustador ao mesmo tempo, seu olhar era distante como se aquela cor fosse uma cortina para sua visão.

    — Não consigo ver nada, Vic... – revelou. – Mas sei exatamente onde está a Light Stone. Eu preciso pegar ela.

    Desamparada, mas confiante de seus passos, Hilda começou a caminhar em direção a saída da sala. Vic tentou segui-la, mas seu corpo paralisou, como se aquela missão fosse apenas exclusiva para a garota. Sombra, a Zorua, por sua vez, conseguiu seguir sua mestra e usou sua forma de Arcanine para guiá-la na mansão.

    O Victini, deixado para trás, só conseguiu recuperar o movimento quando a garota já estava distante. Ele deixou o quarto a fim de seguir e procurar a amiga, mas sabia que não seria uma tarefa fácil. Sua única felicidade foi se deparar com outra figura conhecida, ainda que ela estivesse mudada.

    Bree! – chamou o Pokémon, voando em direção dela.

    V-Vic! – apesar de não ser o feitio dela, a Servine parecia apavorada e ofegante, completamente perdida. – V-Você precisa me ajudar, o-o Hilbert, uma criatura diabólica sumiu com ele!

    Bree, eu também tô precisando de ajuda. A Hilda saiu andando por aí feito uma louca procurando a Light Stone!

    O que faremos?! – ansiosa, a inicial de grama começou a andar em círculos.

    E-Eu sugiro procurarmos Hilda primeiro, ela não está tão longe.



    — Jackson-sama, aquela é a Hilda! – apontou Inari.

    O Jardim da Cerejeira era melancolicamente bonito, apesar da árvore ressecada da flor de cerejeira estar morta, ainda era possível enxergar alguma coerência daquela composição. Hilda fora avistada parada na entrada de um pequeno templo com um telhado cinzento e arquitetura clássica. Local que, Ranmaru impediu de ser acessado pelos três mosqueteiros em sua visita, o que poderia significar que aquele pequeno templo podia guardava algo nada convidativo.

    Jackson se aproximou da sacerdotisa para confirmar e gelou.

    — Ela vai entrar ali? – questionou. E sua resposta veio logo em seguida quando Hilda estendeu a mão para frente, alcançando a maçaneta enferrujada, puxando com certa força.

    — Pelo amor de Ho-oh! Vamos! – Inari agarrou o braço do homem, puxando para fora do quarto.

    — PERA AÍ, INARI! – berrou o rapaz, assustando-a. – A gente subiu aqui pra fugir de um fantasma, fantasma esse que tá no andar de baixo.

    — O que faremos então? – questionou a ruiva. – Pulamos pela janela?

    — Não é uma má ideia – respondeu o arqueólogo, indo até a varanda.

    — JACKSON!

    Jack tirou uma Pokéball de sua mochila e liberou Winston, o Darmanitan, que olhou apavorado em volta, analisando o ambiente incomum. Logo em seguida, olhou para o seu treinador com uma expressão de dúvida.

    — Winston, pode nos dar uma mãozinho? – pediu o jovem. – A gente precisa chegar lá embaixo.

    Jackson apontou o jardim. Winston era um ex-militar, o que fazia dele um Darmanitan mais forte e alto que os de sua espécie, e isto seria até bom se o seu tempo no exército não tivesse lhe causado tantos traumas. O Pokémon olhou o local indicado e assentiu, sempre disposto a cumprir ordens. Seus enormes braços envolveram a cintura de Inari que se sentiu em um filme antigo sendo sequestrada por um macaco gigante.

    Winston usou seu braço livre e suas habilidades para alcançar a varanda e descer pelo telhado, logo alcançando um pilar a fim de alcançar o solo.

    Nesse tempo, Hilda abriu a porta do templo, e ela se arrependeu de ter feito isso. Como se tivesse aberto os portões do inferno, uma enorme energia sinistra sentida por Inari a fez estremecer, assim como a própria mansão. A estrutura sacudiu e graças ao tempo, não foi muito difícil que as paredes começassem a rachar e algumas madeiras do chão começassem a ceder. Até mesmo o pilar que o Darmanitan de Jackson estava apoiado rachou e ele perdeu o equilíbrio, caindo com certo impacto no chão junto da sacerdotisa.

    — Inari! Winston! – o arqueólogo se apoiou no parapeito da varanda, preocupado. Até mesmo Bijou grunhiu, preocupada, apoiada no ombro do rapaz.

    Inari olhou para Hilda. A jovem Foley tinha uma expressão vazia e os olhos esbranquiçados, estava apoiada em Sombra, que começou a guiar sua mestra para dentro do templo. Tanto a sacerdotisa quanto Hilda já sabiam: Aquele era o local que guardou a Light Stone.

    Preocupada, a ruiva correu, ainda que com dores, em direção a amiga, a fim de impedir que ela entrasse e o desconhecido acontecesse. Tudo o que conseguiu foi alcançar seu ombro e, em seguida, sentir seu corpo paralisar.

    Gritos ecoaram. Gritos desesperados de dor, gritos de pedido por ajuda, gritos de angústia. Flashback de gêmeos em quimonos brancos se repetiram várias vezes, revelando as diversas mortes causadas por aquela que foi revelada logo em seguida.

    No pequeno altar de dentro do templo, estava ela. Incompleta e não era uma ilusão. Pelo menos ¼ da Light Stone estava apoiada exposta como o objeto sagrado que era. Uma quantidade enorme encontrada, para a sorte (ou azar) dos jovens. Inari observou o objeto e olhou para Hilda.

    — Essa maldita está aí – praguejou a morena, com uma expressão de insatisfação, enquanto seus olhos cegos só conseguiam “olhar” para aquela que amaldiçoava.

    Ela se aproximou e segurou o objeto como se nada fosse e seus olhos voltaram para o tom azul de sempre. Sombra olhou preocupada para sua tutora e grunhiu docilmente.

    — Hilda? – chamou Inari, ganhando a atenção da garota.

    — I-Inari? – aliviada, ela se aproximou a abraçou a sacerdotisa. – V-você está bem?

    — S-só com alguns arranhões e dores – nervosa, ela olhou para o pedaço da Light Stone. – E pensar que parte dos fragmentos voltariam para o local de origem.

    — Esse lugar precisa descansar – disse Hilda, com a voz baixa. – Estou ajudando-os como posso.

    — HEY! VOCÊS DUAS! – Jackson gritou do segundo andar, recebendo a atenção das meninas. – Está tudo bem?!

    — Jackson! – Hilda sorriu, igualmente aliviada por ver mais de um de seus amigos bem. – E-Está tudo bem!

    Winston voltou para o local em que seu treinador o aguardava, carregando-o para baixo juntos das outras duas garotas. O arqueólogo se aproximou.

    — Ok, três de nós estamos reunidos – disse. – Algum sinal do Hilbert? E Vic?

    — Eu só encontrei a bolsa dele – contou Hilda, mostrando o objeto pendurado em seu corpo. – Eu encontrei o Vic, ele estava comigo. Mas depois de um acontecimento, devo ter o deixado para trás e ele se perdeu – a voz dela demonstrava preocupação. – A gente precisa sair daqui, temos que tirar a Light Stone daqui. Esse lugar sofreu muito.

    — Nós imaginamos – disse Inari, com a voz triste. – Essa casa nos mostrou a história. Essas almas vivem em uma repetição eterna de um ritual que não funcionou.

    — Pessoas inocentes eram destinadas a morte – complementou Jackson, num silêncio de respeito.

    — Bem, estamos aqui para reunir os fragmentos e garantir que não teremos cenas como essa se repetindo, né? – encorajou Hilda, com um sorriso confiante. – Akiri me disse que meu destino é tão triste quanto os que estavam aqui. Mas eu prometi para mim mesma que faria o futuro ser legal comigo.

    — E você não está sozinha – sorriu Inari.

    A paz momentânea foi interrompida quando criaturas começaram a surgir do chão com suas máscaras e olhos avermelhados. Estavam em quantidade grande e rodeavam o trio, nem um pouco satisfeitos com a presença deles. Cami, a Furret, eriçou os pelos e reforçou sua segurança com o ovo em seu rabo, enquanto Sombra e Winston se posicionaram de modo defensivo.

    Hilda sacou duas de suas Pokéballs, liberando Lucio e Koin para ajudar. Jackson lançou Jesse, que se juntou ao Darmanitan, até mesmo Reginn, o mais novo Axew do arqueólogo, quis se juntar.

    — São Yamask – disse Jackson.

    — É impressão minha ou eles estão carregando máscaras parecidas com aquelas que vimos nos corpos quando Kirie nos atacou? – questionou Inari, olhando para o arqueólogo ao seu lado.

    — As informações na Pokédex dizem que eles carregam a máscara com o rosto de quando eram vivos – informou.

    Alguns Yamask começaram a atacar com seus grunhidos finos. Winston e Koin socavam alguns com seus punhos cobertos por chamas fazendo os Pokémon caírem no chão e serem engolidos por ele. Jesse usava um golpe conhecido como Metal Claw e conseguia atingir uma quantidade maior de inimigos que tinham o mesmo destino dos outros. Lucio usava golpes aquáticos, priorizando o Water Gun para afastar os fantasmas de Hilda.

    Apesar de uma grande força ofensiva, os Yamask não cessavam de aparecer, sedentos em alcançar os três jovens, mas, precisamente, os fragmentos e o pedaço da Light Stone encontrada por Hilda. Um deles agarrou o tornozelo da garota, assustando-a. Ela sacudiu o pé para se livrar e perdeu o equilibro, fazendo com que mais se aproximassem. Sombra atacou alguns enquanto o Palpitoad continuava a afastar alguns que insistiam em se aproximar.

    Jackson e Inari tentaram ajudar, mas estavam sendo atacando por muitos deles. Parecia uma espécie de formigueiro, mais e mais surgiam, agitados e se multiplicando. 

    De repente, um tornado de folhas varreu alguns do Yamask, aliviando momentaneamente a situação. Os que atacavam Hilda recuaram, colocando as mãos em suas cabeças. Brianna e Vic surgiram para a ajuda.

    Finalmente achamos vocês! – disse o Victini, se aproximando dos amigos junto da Servine.

      Vic! – exclamou Hilda, aliviada. – Sinto muito por te deixar pra trás. Essa é a Brianna?

    Ela mesmo – confirmou o Pokémon vitória. – Ela me contou que estava com Hilbert.

    — E onde ele está agora, Brianna? – perguntou a garota, preocupada.

    O clima mudou novamente. Inari sentiu que a atmosfera era tão forte que até mesmo os Yamask paravam seus ataques para contemplar a nova figura que surgiria. Era um Pokémon, a máscara em sua cabeça indicava que se tratava de algo relacionado com os Yamask presentes, mas era bem maior e diferente de um. Seu corpo era semelhante, se não, igual a um sarcófago, a luz da lua revelava a dominância da cor prata com detalhes transversais em violeta. Estático, os jovens se preocuparam com o que poderia acontecer.

    A criatura, conhecida como Cofagrigus, levantou a máscara onde supostamente seria seu rosto e uma faixa preta antes escondida por ela, revelaram dois olhos vermelhos com expressão perversa e profunda, que foi complementada por uma espécie de sorriso com dentes pontudos. Mas foi a aura escura com tons roxeados que assustou o grupo, que quase infartou quando quatro braços com mãos enormes e ameaçadores apareceram.


    Tensa, Hilda olhou para seus próprios Pokémon, indicando que eles só deviam atacar em caso de hostilidade. A risada da criatura só pesava mais aquele clima macabro e ninguém sabia exatamente quais eram os planos dele, já que suas mãos apenas flutuavam pelo ar.

    A gente faz alguma coisa? – sussurrou Vic para os amigos.

    — Até mesmo os Yamask pararam com a presença desse Cofagrigus – disse Jackson, observando. – Deve ser o líder deles, ou uma entidade muito mais perigosa.

    O grupo se atentou quando uma das mãos do Cofagrigus alcançaram a própria lateral de seu corpo e puxou lentamente, como que se atentasse a fazer tensão. Aos poucos, aquele corpo de sarcófago foi aberto como uma porta e lá foi revelado algo inesperado.

    — HILBERT! – gritou Hilda.

    O corpo do treinador estava desfalecido, seu rosto estava calmo, mas era possível ver lágrimas finas escorrendo pelas bochechas. Ele estava em pé, preso pela massa preta que era vista dentro do Cofagrigus.

    “Ele é meu!”, gritou a voz de Kirie, que saia do Pokémon. “NÃO VÃO ME SEPARAR DO AUTEVIELLE!”

    Brianna tomou a frente, nervosa, olhando pra Vic. O Victini notou e assentiu, assumindo uma pose nunca vista antes. O corpo do Pokémon foi rodeado por chamas e seus olhos brilharam.

    Vic estendeu o corpo para frente e chamas foram liberadas de seu corpo. O golpe, conhecido como Inferno, atingiu o solo e as labaredas se direcionaram aos Yamask, que gritaram, desesperados. Apesar do fogo generalizado, os que acompanhavam o Pokémon não foram atingidos.

    Com os Yamask exterminados, restava apenas o que realmente importava naquele momento. Hilda se levantou e um calor de ódio subiu pelo seu corpo, não suportava ver Hilbert naquele estado.

    — D-Devolva-o! – a garota sentiu sua voz falhar, mas quem olhava, viu olhos azuis brilhantes prontos para qualquer coisa. Inari, Vic e Jackson sentiram os corpos arrepiarem.

    “Venha pegar”, provocativa, Kirie afundou para aos poucos para debaixo da terra, sumindo junto de Hilbert.

    Hilda rangeu os dentes.

    — Para onde ela foi?! – berrou, olhando para seus amigos, que não souberam o que responder.

    “Ela voltou para o Hellish Abbys”, Tomie apareceu, com a voz calma, ela logo ganhou a atenção dos demais. A gêmea de Kirie estava posicionada na frente do templo onde estava a Light Stone. “Vocês estão quase lá. Ela está com medo, então por favor, façam tudo para salvá-la”.

    — Salvá-la?! – questionou Jack, incrédulo. – Essa coisa tá tentando nos matar! A gente é que deveria ser salvo! – desesperado, o arqueólogo colocou as mãos na cabeça, com medo e frágil. Bijou, a Cleffa, estendeu suas mãozinhas em direção a ele, preocupada.

    Inari olhou para o rapaz com pena, se aproximando para dar suporte.

    “E-eu sinto muito”, desculpou-se Tomie, preocupada. “Foi horrível ficar sem Kirie. Eu consegui escapar, eu tive uma vida depois desse lugar. Eu me casei, tive filhos e morri de velhice, como deveria ser. Mas Kirie não, e é tudo culpa minha. Se eu tivesse segurado a mão dela quando ela pediu, mas eu estava com tanto medo que não conseguia pensar em nada!”

    Hilda suspirou. Seu coração se aqueceu e ela lembrou de Hilbert lhe dizendo sobre a importância de contar sobre suas dores. Pensou também no seu sonho, ser médica era ajudar, não lhe importava quem, nem onde estava. Dor era dor, e sua função era curá-la de alguma maneira.

    — Eu não posso prometer nada – disse Hilda à Tomie. – Eu sou apenas uma adolescente como outra qualquer, eu não tenho grandes dotes. Sua irmã está com uma pessoa extremamente especial para mim, eu só cheguei até aqui por causa dele, então minha principal missão é salvá-lo. Não sei se sua irmã quer ser salva, mas tentaremos o que estiver no nosso alcance.

    Tomie secou algumas lágrimas inexistentes e assentiu, agradecida. Ela mostrou que o altar com a Light Stone revelou uma passagem secreta onde escadas levavam para um andar inferior, lugar onde provavelmente Hilbert e Kirie os aguardavam.

    O local era escuro, então Jackson tomou a dianteira, usando Cleffa com Flash para iluminar. Após as escadas, um caminho guiava-os por um longo corredor que se afinava, as paredes eram feitas de pedra, indicando que se aproveitaram das estruturas naturais para fazer aquela construção. Depois de uma caminhada sem nada que se destacasse, foi uma fileira de toris vermelhos que indicaram que estavam chegando a algum lugar.

    Hilda reconheceu a estrutura. Além de ter no jardim, ela teve a vaga memória de ter visto a mesma em uma visão com a garota pendurada. Inari parou ao lado da jovem.

    — Tenho quase certeza de que depois desses toris, as coisas vão ficar tensas – comentou, segurando a mão da amiga.

    — É como se tivéssemos perto do inferno. Está sentindo esses arrepios? – disse Hilda para a sacerdotisa.

    — Talvez esses arrepios sejam por causa DAQUELA COISA – Jackson se aproximou e apontou para um dos toris, onde uma solitária corda resistia ao tempo e brincava com o ar quente que era gerado no corredor.

    De um clima bizarro para um clima melancólico, o último flashback foi exibido. Kirie caminhava no meio de vários monges mascarados com a mesma máscara de Yamask, sua fronte estava baixa e seu olhar perdido. Seu quimono branco estava sujo de terra e suas mãos, amarradas, estavam sujas de sangue.

    Como numa narrativa de uma história que estava destinada a ter sempre um final trise, o grupo conseguiu a voz de Kirie ecoar.

    “Estou com medo...

    ...

    Me prometeram que eu iria ver o mundo. ELE prometeu. Tomie me deixou.

    ...

    Eu só queria ver mais uma vez minha mãe. E a árvore de cerejeira do jardim. Tem tanta coisa que eu queria vez.”

    Nas mãos, ela segurava um galho seco da cerejeira, o único resquício de um mundo que ela desconhecia. Sua única companhia, para o resto da eternidade.

    “Eu quero ver o mundo.”

    A cena sumiu. Inari não conteve o choro e enterrou o rosto na manga de sua blusa, Jackson abaixou a cabeça em respeito, Vic respirou fundo. Hilda começou a descer o lance de escada logo a frente e encontrou o galho de cerejeira carregado por Kirie, ela agachou e o pegou. Apesar de morta, a natureza era poética. O galho retorcido e preto contrastava com as flores mortas roseadas.

    Um ar quente balançou as mechas do cabelo de Hilda e ela olhou para baixo. Seu destino estava lá.

    — Gente, por aqui! – a adolescente se levantou e correu, sendo seguida pelos amigos.

    Enfim, o tão esperando encontro. O grupo chegou em um espaço enorme que tinha como principal figura um abismo de formato retangular. O famoso Hellish Abbys soltava um ar quente como se fosse a própria boca do inferno. Kirie estava do outro lado do abismo, encarando-os com o espírito atormentador em suas costas.

    O sarcófago de Cofagrigus com o corpo de Hilbert estava do lado dela.

    — Você pretende negociar ou o quê? – questionou Hilda.

    “Não é justo vocês levarem mais ele de mim!”, disse Kirie.

    — Ele não é seu, Kirie – argumentou. – Não pode manter uma pessoa assim como se ela fosse sua propriedade! Você só está trazendo mais sofrimento pra você e para os outros.

    “O QUE VOCÊ SABE SOBRE SOFRER?!”

    — TALVEZ NEM A METADE DO QUE VOCÊ SOFREU! MAS EU SEI O QUE ESTOU SOFRENDO! – gritou Hilda de volta. – VOCÊ ESTÁ COM ALGUÉM IMPORTANTE PARA NÓS!

    “Ele prometeu que ia me ajudar!”, o espírito demoníaco de Kirie se agitou. “Ele disse que eu iria ver o mundo!”

    — Você fala disso?! – a garota levantou o galho de cerejeira.

    “M-Meu galhinho...”

     — Todos nós vimos o que aconteceu nesse lugar – contou. – Vimos que todos sofreram, principalmente você. Vocês sofreram por causa da Light Stone, esse objeto atrai muita coisa ruim. Mas nós estávamos levando isso para longe, para que vocês possam descansar.

    Kirie permaneceu em silêncio, mas logo disse.

    “E-Eu estou destinada a ficar aqui, não é mesmo?”, conformada, ela estendeu o braço até o sarcófago e levitou o objeto até o grupo. Hilda reprimiu os lábios, satisfeita em ter Hilbert perto, mas incomodada por ver que no final, não ajudara ninguém além dela mesma.

    Jackson tomou a frente e o abriu, segurando o corpo do garoto que pendeu pra frente. Ele ajoelhou e deitou o treinador no chão. Inari, Vic e Hilda se aproximaram, preocupados. Até mesmo Brianna começou a rodeá-lo, nervosa.

    — Ele está respirando – apontou Jack.

    — A gente deveria ir? – questionou Inari.

    — Mas como saímos daqui?

    Hilbert tossiu, dando sinais de que acordaria. Ele se revirou um pouco e abriu os olhos, cobrindo-os rapidamente, incomodado com a fraca luz. Aparentemente bem, ele se sentou enquanto seus amigos olhavam cada movimento dele.

    — Hilbert? – perguntou Hilda, com a voz baixa.

    — M-Meu Arceus, eu nunca mais durmo numa cama como essa – disse, irônico. – Tô destruído.

    A garota não segurou o choro e abraçou o treinador com carinho.

    — Como tem coragem de fazer piadas numa situação como essa, seu idiota?!

    Inari, Jack e Vic riram, igualmente aliviados em saber que o grupo estava junto novamente. Apenas restava encontrar a saída daquele lugar.

    Hilbert acariciava o cabelo de Hilda e notou Kirie do outro lado. A expressão do fantasma era de solidão, era possível ver que seus olhos encaram o grupo com certa inveja. Inveja da liberdade.

    — Kirie – chamou o menino, recebendo ajuda de Hilda para levantar-se. – Eu não sou o Autevielle que você procura. Você procura Athos Autevielle, o meu pai.

    A fantasma olhou para o garoto, surpresa. O treinador se manteve firme ao falar sobre algo que lhe causava tanta dor, mas no momento, aquilo era necessário.

    — Eu não sei onde está meu pai, assim como você, eu também fui abandonado por ele – sério, Hilbert demonstrava uma força que fez Hilda se admirar. – E eu sei o quanto dói você não poder contar com a pessoa que supostamente deveria estar ali. Eu não posso chamar meu pai, mas eu espero, em nome dele... Ou melhor, no meu nome, poder dizer o que você precisa ouvir.

    “A-Autevielle”

    — Desculpa, Kirie. Desculpa por te deixarem sozinha. Desculpa pelo seu sofrimento. Desculpa pela promessa não cumprida. Desculpa por tudo.

    Kirie se encolheu e começou a chorar. Aquelas palavras sinceras tiraram um peso de seu corpo, seu espírito deixou de carregar uma atmosfera sombria, transformando-a, aos poucos, em um espírito puro. A figura demoníaca em suas costas desapareceu. Inari ficou impressionada, estava acostumada com histórias de espíritos que se purificavam, ainda mais sobre a força do perdão, mas era a primeira vez que ela conseguia testemunhar tal coisa.

    — Me disseram uma vez que para que possamos te ajudar, você precisa contar onde dói – o treinador sorriu levemente e sentiu que Hilda segurou sua mão. – Você disse que queria ver o mundo? Eu não posso fazer muita coisa, mas talvez possamos dar um jeito.

    — O galho de cerejeira – disse Inari, apontando para a mão de Hilda.

    — Levaremos esse galhinho em nossa jornada, e ele vai ver o mundo – sorriu Hilbert. – Dessa vez, é uma promessa. Vou cuidar dele como se fosse minha vida.

    Kirie assentiu, choramingando.

    “Obrigada, Autevielle. Obrigada”

    Tomie surgiu ao lado da irmã.

    “Nee-chan”, chamou, docilmente.

    “Nee-sama!”, Kirie abraçou sua irmã sem discrição. As duas tentavam sentir o calor uma da outra, um calor que já não mais existia, mas que só o reencontro já era o suficiente. Gêmeas predestinadas a um destino cruel que só conseguiram se ver novamente em um outro plano astral. Pelo menos agora, o grupo de protagonistas sentiu seus corações leves.

    Jackson passou o braço em volta do ombro de Inari enquanto Hilda e Hilbert continuavam de mãos dadas. Tomie olhou para sua irmã com um sorriso terno.

    “Vamos cumprir nosso destino, Nee-chan”, disse. “Dessa vez, juntas. Vamos poder descansar num lugar sem culpa e sem solidão. Você vai ver o mundo de modo diferente”

    Kirie assentiu, confiante. As duas gêmeas uniram as mãos e se viraram para o abismo, fazendo o grupo de amigos ficarem assustados.

    — E-Elas vão se jogar? – perguntou Hilda.

    Respondendo a dúvida da menina, as duas penderam o corpo pra frente e caíram no abismo, leves como pena, desaparecendo na escuridão. A visão seguinte foi ainda mais relaxante para os olhos. Semelhante a borboletas, pequenas partículas brancas saíram do abismo em direção ao céu, o grupo contemplou aquilo com os olhos marejados.

    Aqueles eram as almas de todos as vítimas, que finalmente teriam um descanso.

    De repente, uma luz engoliu os jovens.



    Hilda acordou com areia no corpo, mas não ficou irritada. Olhou em volta e se aliviou ao ver que estava de volta a Route 4, e também, ficou feliz em ver que todos seus amigos estavam lá. Jackson ajudou Inari a se levantar.

    Ninguém queria comentar sobre, apesar da missão cumprida e do final supostamente feliz, todos estavam psicologicamente abalados e modificados. Aquela fora uma aventura nada convencional e nem se comparava com a brincadeira de coletar insígnias e procurar fragmentos. Hilda guardou os espólios da Light Stone em sua bolsa e se aproximou de Hilbert para devolver a mala do garoto.

    Hilbert estava ajoelhado em frente a uma esfera docilmente encostada em um galhinho de cerejeira. A Heal Ball, igual a de Mercuria, a Vaporeon, curava os danos do Pokémon dentro dela.

    — Tem um Pokémon aí dentro? – perguntou Hilda.

    — É a Kirie – respondeu o garoto. – Bem, não é exatamente ela. Mas você entendeu.

    Jackson e Inari se aproximaram, junto de Vic.

    — Provavelmente foi o Cofagrigus que nos atacou – o arqueólogo riu. – Irônico, não é?

    — Vai ficar com ela? – perguntou a sacerdotisa.

    Hilbert pegou a esfera e o galhinho de cerejeira.

    — Eu prometi levar ela para ver o mundo. Está pronta, Kirie?


       

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