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NOVA POSTAGEM !

Capítulo 2

Todos Olham Para Mim Como um Monstro

“Now they're screaming that they hate me” — Taylor Swift (Castles Crumbling)

Aquela garota era peculiar. A personalidade, a postura exageradamente confiante e as reclamações. Não estava acostumado a encontrar aquele tipo de gente, já que os esquisitos da cidade grande raramente perdiam tempo com caipiras como ele, pelo menos era o que diziam em Accumula. Ainda assim, depois de agir por puro impulso, lá estava ele observando a garota outra vez.

De cima do velho carvalho, Hilbert escolheu os galhos mais altos como assento enquanto olhava para baixo de tempos em tempos. A menina exigente da barraca de bebidas agora dormia encostada no tronco, largada ao relento. Era estranho. Algumas horas antes ela parecia o tipo de pessoa que reclamaria até da direção do vento, mas agora parecia… pequena.

Ele desviou o olhar para a cidade de Accumula a sua frente. Mesmo ao entardecer, a cidade ainda fervia em rumores sobre o grupo estranho que invadira o festival, seu discurso e o suposto assassinato que encerrara a Accumula Summer Market em caos.

O garoto não tinha entendido toda a sequência de eventos. Só lembrava de estar terminando de organizar algumas caixas quando ouviu gritos, viu fumaça e correria por todo os lados. Depois, no meio da multidão agitada, reconheceu o rosto da garota que mais cedo lhe dera uma quantidade absurda de dinheiro, algo que ele preferiu encarar como uma gorjeta muito generosa e não uma tentativa maluca de humilhação.

Quando conseguiu se aproximar, encontrou Hilda parada ao lado de um corpo, coberta de sague e medo, rodeada por uma população curiosa que exigia respostas, prontas para engolir a menina.

Então ele agiu.

Talvez porque Hilda tivesse lhe feito um favor, talvez porque, naquela situação, ninguém parecesse disposto a ouvir suas explicações ou talvez porque ela parecesse completamente perdida. No fim, Hilbert não precisava de uma grande justificativa para ajudá-la. Sua mãe costumava dizer que uma mão lava a outra.

— Putz, esqueci de pegar meu salário... — Hilbert estapeou de leve a própria testa.

— E, pra variar, esqueceu do meu almoço. — O murmúrio revoltado saiu de dentro da bolsa carteira azul acinzentada e surrada do adolescente.

Ele tratou a situação com normalidade, alcançando o zíper e abriu o acessório de moda, encarando a criatura lá dentro.

— O motivo de eu viver precisando de dinheiro é toda sua, Vic — retrucou Hilbert. Ele acompanhou com os olhos o Pokémon alçar voo e pousar em seu joelho. — Onde cabe tanta comida em um corpo desse tamanho?

Viver dentro da mochila de um adolescente que tinha uma rotina de banho questionável não era o esperado para um Pokémon Mítico. Vic era só um apelido curto que referenciava sua própria espécie: Victini.

O Pokémon, que se assemelhava a um esquisito coelho bípede tinha uma pelagem de cor creme que só servia para destacar seus enormes olhos azulados. Suas orelhas se assemelhavam a um formato de um V gigante laranja. Possuía asas atrofiadas no quadril que lhe permitiam voar — ou flutuar.

Victini
Arte por Mitsuhiro Arita

Nos livros de história e nas Pokédex, era dito que Victini traria vitória para quem o tivesse por perto. Coisa que a dupla não tinha há um bom tempo.

—Não posso me culpar pelos humanos terem uma variedade enorme de comidas gostosas — Vic deu de ombros.

— Da próxima vez, veste uma roupinha e faça umas gracinhas pras pessoas em troca de dinheiro — sugeriu Hilbert. — Ou sei lá, bota esse teu poder de vitória pra funcionar.

—Meu poder não é fazer brotar dinheiro. O nome que você tá procurando é Pay Day — apontou Vic. — E eu vi que você ganhou uma grana daora mais cedo. Não precisa me agradecer pela “boa sorte” que eu te trouxe. É só me comprar aqueles negócios gelados torcidos!

—Casteliacone fora de Castelia é absurdo de caro — respondeu o jovem. — Tenho que guardar esse dinheiro pra sobreviver até o ginásio de Striation. Ou seja, até lá, se acostume com ração.

—Mão de Miltank! — resmungou Vic.

Hilbert balançou a cabeça, rindo de inconformidade. Admirou um pouco o pôr-do-sol no horizonte quando seus instintos o alertaram de algo abaixo dele: Hilda estava acordando.

Vic notou a urgência do treinador e voltou para a bolsa. Hilbert agarrou a garrafa do chá da tenda que trabalhara mais cedo e, com habilidade, pulou do galho e caiu em pé, como um Purrloin.

Ele agachou-se na frente da modelo e a encarou com curiosidade. Mesmo naquele estado, ainda parecia alguém que pertencia a capas de revista e outdoors gigantes. A pele aparentava ser perfeita, as unhas eram decoradas até demais e ela tinha um cheiro doce que lembrava aquelas lojas caras de shopping.

Querendo acelerar o processo de despertar da garota, ele encostou o chá gelado no pescoço da modelo que despertou de vez num pulo.

— E aí, moça... — disse, estendendo a bebida. — Tá calor, né? Toma um Pecha Summer Tea pra refrescar.

Hilda encarou o garoto, confusa.

— O-o quê?!

Hilbert se pôs de pé.

— Uma multidão quase te engoliu lá fora — explicou. — Mas eu te salvei. Considere como uma retribuição pela gorjeta.

A modelo olhou em volta. Aos poucos sua memória foi lhe recordando dos fatos, ainda que confusos, e seus sentidos logo a contextualizaram do local que estava. O cheiro dos carvalhos a sua volta intensificados pela estação a deixavam enjoada, sempre odiou perfumes amadeirados por isso. O som de civilização estava um pouco distante, o que indicava que estava mais para fora da cidade. Ela procurou com os olhos alguma informação, mas terminou pousando-os em Hilbert.

O jovem tombou a cabeça, intrigado.

— Hã... — ele pensou. — Cê tem algum lugar seguro pra ir?

— Meu trailer, eu acho — ela respondeu, ainda que em dúvida.

— Certeza de que quer voltar pra lá? — questionou o garoto. — Tem um monte de gente naquela praça ainda. Sem querer ofender, mas sua aparência tá horrível e a polícia provavelmente vai querer falar contigo.

— P-Polícia? — Hilda sentiu o estômago gelar.

O garoto franziu a sobrancelha, finalmente percebendo o tamanho do choque dela.

— Você realmente não lembra de nada, né?

Hilbert estendeu a mão, oferecendo ajuda para colocar Hilda de pé. A modelo levantou uma das mãos para alcançar, mas quando viu o sangue seco com cascas de árvore e folhagens grudadas na palma de sua mão, sentiu seu coração acelerar.

Seu olhar se esvaziou, suas mãos gelaram e uma sensação de desconforto tomou conta se seu corpo, fazendo ela abraçar o próprio corpo. Agora se lembrava: Clara estava morta.

Hilbert sentou-se na sua frente, remexendo a bolsa. Ele tirou um cantil de alumínio e gentilmente pegou uma das mãos da modelo que ainda tremia de pavor. O treinador abriu o recipiente com a boca e inclinou suavemente, deixando que a água escorresse e levasse o sangue e a sujeira, junto do que provavelmente era o último resquício vivo de Clara. Ele fez o mesmo com a outra mão.

— Realmente não tem nenhum lugar que você possa ir? — ele voltou a perguntar, preocupado em ter que se responsabilizar pelos cuidados daquela garota. — Você não tá em condição de encarar uma multidão.

O menino guardou o cantil de volta na bolsa.

— Accumula não parece segura. E você também não pode passar a noite na estrada. — Ele analisou as possibilidades. — Tem o distrito de Nuvema, mas fica quase uma hora daqui andando.

Hilda pareceu lembrar de algo enquanto massageava as próprias mãos.

— ... Bianca.

— Quem?

— Minha amiga, Bianca. Ela mora em Nuvema.

Com um destino em mente, Hilbert ajudou Hilda a se levantar, fazendo modelo gemer baixo de dor. A bota country começava a apertar seus dedos e a sensação térmica dava sinais de que iria cair, mesmo no verão. Por fim, engoliu as reclamações e seguiu o treinador.

Hilbert chutou algumas pedrinhas do asfalto que aos poucos ia sumindo para dar lugar a uma estrada de terra de chão batido. Ali ele sabia que estavam na Rota 1. Uma estrada rural tranquila que atravessava fazendas familiares, bosques e campos, e que conectava a Accumula ao seu distrito costeiro, Nuvema.

Luzes dos postes espaçados começaram a se acender, banhando a estrada com brilho branco do LED. Os adolescentes resolveram apertar um pouco o passo. Apesar do horário, aquela região não era conhecida por Pokémon selvagens perigosos, já que maioria eram pequenos predadores inofensivos de hábitos diurnos que se arriscavam a aparecer nas beiras das estradas, como Lillipup e Patrat. O resto vivia no fundo dos bosques, bem longe do contato humano.

Hilbert caminhava na frente e logo já avistava as primeiras construções de Nuvema. Ele olhou por cima do ombro para garantir que Hilda o seguia, encontrando a adolescente em silêncio com os ombros encolhidos.

Ele parou e a modelo trombou em suas costas.

— Tá com frio? — Hilbert perguntou.

— Tô de boa — respondeu.

O jovem desamarrou de sua cintura uma jaqueta azul surrada e velha e a jogou por cima dos ombros da menina que fez uma careta, estranhando o gesto. Ela o encarou com as sobrancelhas arqueadas, Hilbert notou e deu de ombros. A modelo revirou os olhos e resolveu aceitar, pelo menos era quentinha.

— Estamos quase chegando — informou o garoto, tentando amenizar o clima.

E não demorou muito para que a estrada de terra voltasse a ser preenchia por pedregulhos, indicando o começo de uma nova área urbana.

Era por volta das sete da noite e o distrito de Nuvema já se demonstrava mais recluso, típico das cidades do interior. A principal e única avenida estava vazia e os postes de luz piscavam de vez em quando. Era quase um cenário pós apocalíptico, mas sem os mortos vivos, na verdade, Hilbert até teve sorte de localizar uma pessoa.

Um homem de meia idade que terminava de trancar a porta de um restaurante de beira de estrada que provavelmente lhe pertencia. O treinador segurou o pulso de Hilda e se aproximou.

O dono do estabelecimento estranhou a movimentação e chegou a levar a mão a uma Pokéball presa ao cinto, mas relaxou quando notou que eram apenas duas crianças perdidas.

Hilbert pediu instruções e o homem riu de forma exagerada quando Hilda lhe informou o sobrenome de Bianca.

— Os Rosewoods são meus vizinhos — ele informou, numa feliz coincidência. — Venham, eu dou uma carona para vocês.

Hilbert parecia confortável, mas era uma lógica estranha para Hilda: se alguém era confiável para um conhecido, então provavelmente era confiável para ele também.

O motor do velho carro era barulhento e os bancos desconfortáveis, mas com certeza melhor do que continuar andar com os pés estavam quase lhe matando de dor. Hilda olhou a paisagem da pacata cidade pela janela. Aquele cenário lhe era familiar, mas não parecia o mesmo devido a sua própria situação psicológica.

Bianca morava numa das últimas ruas perto das docas e da pequena praia. Era uma casa antiga de dois andares, não era única, já que as casas vizinhas eram praticamente iguais, sendo diferenciadas pelas decorações do jardim da frente.

Hilda acompanhou o homem que lhe oferecera carona pelo ladrilho de pedras até a porta da frente.

Após a campainha ser tocada, a porta não demorou muito para ser atendida. A mulher que apareceu tinha um olhar gentil e levemente cansado. Hilda a reconheceu como a mãe de Bianca, que logo também notou a presença da modelo e sorriu, surpresa.

— Bianca! — anunciou a mulher. — Tem visita pra você!

Hilda ouviu os passos desajeitados descendo as escadas, típicos de Bianca. A garota, da mesma idade da modelo, esboçou um sorriso exagerado enquanto suas bochechas esmagaram os olhos esmeraldas e seu cabelo loiro volumoso e curto esvoaçou quando ela correu para abraçar a amiga de infância.

— Hilda! — disse Bianca. Seu cabelo ainda cheirava ao shampoo de morango de sempre.

Hilda retribuiu.

— É bom te ver de novo, Bianca.

O homem que trouxera a modelo explicou em seguida:

— Essa daqui veio até mim lá perto do meu restaurante. Ela estava procurando pela Bianca e aí eu trouxe pra cá. Ela e um outro garoto.

Ele se virou para a rua e olhou em volta.

— Ué, cadê o menino?

Hilda ficou surpresa com a constatação e olhou para trás. Não havia sinal do boné vermelho, apenas uma rua vazia.

— Foi embora? — perguntou, só para confirmar.

Pensando bem, aquilo era exatamente o tipo de coisa que ele faria. O garoto aparecia do nada, a arrastava para longe de uma multidão furiosa, oferecia chá e limpava suas mãos como se aquilo resolvesse traumas e desaparecia sem se despedir. Ela deu uma risada com o nariz e só aceitou o destino.

— Obrigada por trazê-la. — A mãe de Bianca mudou o assunto.

O dono do restaurante sinalizou positivo com a mão e voltou para o seu carro e as anfitriãs guiaram Hilda para dentro.

A mãe de Bianca analisou a situação de Hilda e levou a mão ao queixo. É claro que as notícias já começavam a correr e a TV local já passava as primeiras informações sobre os acontecimentos em Accumula, porém, a modelo estava assustada, suja e cansada, ela não precisava de perguntas.

— Minha filha, que tal levar Hilda para um banho e trocar de roupa? — sugeriu a mais velha. — Vou terminar o jantar.

— Tudo bem, mamãe.

Bianca guiou a garota para o segundo andar, com euforia.

O quarto da menina continuava do mesmo jeito que Hilda se lembrava. Bonecas, laços e algumas plantas de fácil manutenção, além de tons de pastéis predominando o local como se fosse um sonho de princesa. A modelo logo fixou o olhar em um porta retrato com uma foto sua ao lado da dona do quarto e um outro amigo, Cheren.

Bianca entregou alguns itens essenciais para o banho junto de uma muda de roupa, onde Hilda logo identificou como um vestido florido, e deu instruções de como lidar com o banheiro da suíte, como mudar a temperatura do chuveiro, por exemplo.

Quando ela girou a tranca da porta do banheiro e virou-se, o ambiente parecia pequeno perto do tamanho da solidão que assolou ela.

Não havia maquiadores, só uma bancada de porcelanato frio. Não havia bastidores, só o som dos pingos da torneira da pia.

Também não havia Clara.

Hilda bateu nas bochechas com as duas mãos, procurando espantar os pensamentos ruins. Começou a se despir e pela primeira vez depois de tudo, conseguiu olhar seu estado. O cabelo estava opaco e embaraçado, a maquiagem escorrida e criando manchas abaixo dos olhos. Havia poeira, suor e arranhões espalhados pela pele.

"Que horror", pensou ela.

Com certa urgência, ela abriu o chuveiro e logo correu para dentro da água quente, focando no que importava naquele momento: Se limpar, pelo menos fisicamente.

Focou nos seus sentidos: No cheiro de morango do shampoo de Bianca, no toque da água escorrendo pelo seu corpo e até mesmo no padrão do azulejo da parede. Mas um banho não era capaz de levar as memórias junto da sujeira.

Primeiro o rosto de Clara, depois o sangue, a faca e o pedido de ajuda. Tão nítido que ela apertou os olhos.

— Não, não, não.

Ela estendeu os braços paralelos um ao outro e encostou as mãos no azulejo úmido da parede e abaixo a cabeça. A água fazia cócegas na sua nuca e arrepiava suas costas.

Tentou afastar aquilo do mesmo jeito que empurrava comentários maldosos na internet. Mas nem aquilo funcionou, até porque, comentários não morriam em seus braços.

Cedendo aos efeitos do trauma, ela mordeu os lábios com um pouco de força. Depois, como uma criança perdida no parque, ela agachou e cobriu a boca com as mãos quando o primeiro soluço veio.

Por fim, aceitou a pressão do seu próprio cérebro e chorou de forma descontrolada, daqueles que fazem o peito doer. Torceu para que o som do chuveiro abafasse o som, ainda que, naquele momento, Hilda não precisava sustentar uma imagem pública.

O pior de tudo era saber que Clara não estaria mais ali para dizer que tudo ficaria bem, como ela sempre fazia. E isso lhe dava medo.

~ ✧ ~

Hilbert espirrou pela terceira vez.

O vento do mar que soprava em direção à praia era gelado, nem mesmo a sua fogueira improvisada era capaz de esquentá-lo. Se ao menos ele estivesse com a sua blusa, mas ela provavelmente estava em uma situação melhor que ele junto de Hilda.

— É a segunda vez que você perde a oportunidade de arranjar comida pra gente — resmungou Vic, flutuando em volta do fogo para se esquentar.

O treinador esfregou as mãos para esquentá-las e não respondeu.

— Qualé, Hilbert, podia pelo menos ter ficado — o Victini continuou a argumentar. — Podia ter ganhado uma cama pra dormir. Ou um ‘obrigado’, pelo menos!

— Não ligo pra essas coisas, Vic — Hilbert finalmente respondeu, tirando algumas berries colhidas da bolsa para comer.

Vic o encarou com desgosto.

— Conta outra. Diga pelo menos que salvou a garota porque achou ela gatona — o Victini provocou. — É bem mais plausível.

O Pokémon notou que o garoto ruborizou um pouco, escondendo o rosto atrás dos joelhos e murmurou entre uma mordida e outra numa Oran Berry.

— Não é por isso — respondeu. — Ela é bonita, talvez mais que bonita. Mas não é por causa disso.

Seu olhar ficou distante enquanto ele encarava o oceano sumir no horizonte. Por um momento ele pensou no passado, mas Vic apenas esboçou curiosidade. O treinador concluiu:

— É apavorante ficar sozinho quando o que mais você precisa é de alguém pra dizer que vai ficar tudo bem.

~ ✧ ~

Hilda dormira bem.

O cansaço do dia anterior esgotara suas energias, tanto que no momento em que se deitara no colchão, apagou completamente, acordando logo pela manhã no dia seguinte.

Ela olhou para o relógio e viu que era um pouco mais de nove horas. Bianca já não estava mais no quarto e o sol banhava o cômodo atravessando a cortina ainda fechada.

Hilda se sentou, coçou os olhos para recobrar a visão e engatinhou em direção do celular que passara a noite carregando. Soltou um murmúrio de descontentamento quando notou que a tela estava trincada, mas ainda era possível ver o display.

Quando acendeu a tela, quase pulou pra trás. Rios de notificações preencheram o pequeno retângulo luminoso, a maioria vindo do aplicativo Pokégram, sua principal rede social, enquanto algumas eram do aplicativo de mensagens.

Ela tentou acessar uma das notificações, mas a foto de um homem em um terno com uma expressão séria e óculos de sol pulou em sua tela. Era Martin Brooks, seu empresário, que estava ligando.

— HILDA! — a modelo quase derrubou o celular com a voz urgente do homem. Se estivesse no viva-voz, o bairro teria escutado. — Finalmente me atendeu!

— Bom dia para você também, Martin — ironizou Hilda, criticando a falta de modos do homem. — Meu celular descarregou.

— Onde você está? — Martin era uma pessoa direta ao ponto. Sua voz não parecia realmente de preocupação, apenas queria garantir que sua cliente seria um problema a menos para resolver.

— Estou em Nuvema — informou Hilda. — Passei a noite na casa de uma amiga.

—Ótimo. Não saia daí.

Aquilo fez a sobrancelha de Hilda arquear.

— E desde quando você manda em mim?

— Eu não mando em você. — A resposta fez Hilda soltar um riso debochado, mas logo em seguida ele completou. — Mas a partir do momento que você assinou um contrato comigo, é minha obrigação impedir que você transforme um problema em três e arruíne sua carreira.

Hilda ficou em silêncio.

— Você virou assunto mais comentado de Unova.

A constatação a fez piscar, confusa. Era famosa, virar assunto não era nenhuma novidade.

— Por causa do que aconteceu ontem?

— Hilda — a voz do empresário se tornou rígida. — Escute com atenção.

A adolescente engoliu com dificuldade.

— Não dê entrevistas e não responda curiosos.

— Não pretendia fazer isso.

— Não grave vídeos ou publique nada. Absolutamente NA-DA!

— Martin, eu não sou nenhuma idiota.

Hilda sentiu como se estivesse sendo tratada como uma criança.

Não era a primeira vez que seu nome aparecia envolvido em alguma polêmica. Pessoas famosas viviam cercadas por rumores, críticas e manchetes exageradas, fazia parte do trabalho, bastava apenas deixar Martin fazer o que fazia de melhor: apagar incêndios.

— E fique longe das redes sociais — completou o homem.

Aquilo sim soou estranho.

— Tá exagerando um pouco, não? — ela arqueou a sobrancelha.

— Estou apenas sendo moderado.

Hilda ficou curiosa.

— O que estão falando?

Martin ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Prefiro discutir pessoalmente.

Hilda sentiu um incômodo subir pelo estômago. Martin era competente, sabia lidar com todas as burocracias, era por isso que tinha sido escolhido a dedo pela sua mãe, Havana Foley, mas agora ele parecia evasivo em suas respostas.

— Você tá me assustando com esse mistério todo — argumentou Hilda.

— Não vale a pena discutir por telefone. Eu-

Hilda interrompeu.

— Martin! — A modelo comprimiu a boca e mordeu o lábio inferior. Precisava perguntar, ainda que não quisesse falar sobre. — A Clara... O corpo dela. — Hilda prendeu a respiração pra não chorar. — O que fizeram com ele? E-Ela não tinha família aqui em Unova, então...

A voz de Martin soou empática pela primeira vez.

— Me certifiquei de que todas as cerimônias fossem realizadas e que ela fosse enterrada no Memorial Histórico de Nimbasa.

— ...Obrigada, Martin.

O empresário ficou em silêncio por alguns segundos. Hilda não era do tipo que agradecia.

— D-De qualquer forma — ele seguiu a conversa. — Vou te enviar o local do nosso encontro em breve. Então, por favor, fique atenta as minhas mensagens.

— O que eu faço até lá?

— Nada. Apenas nada.

A ligação se encerrou.

Hilda sentiu um gosto amargo da curiosidade na boca, ainda que o conselho de Martin berrava em sua orelha como uma buzina de navio. Ela deitou o celular com a tela virada pra baixo, mordeu a língua levemente, remoendo a tentação. Era tão grave assim? E se Martin só estivesse exagerando?

Talvez Martin só quisesse que ela evitasse as redes com receio de que algum jornalista curioso tentasse arrancar alguma informação exclusiva antes que ele próprio resolvesse tudo.

“Besteira!”, Hilda pensou. Não era nenhuma boba, era só ignorar e não responder.

A modelo agarrou o celular novamente com mais confiança e desbloqueou a tela, em segundos, já estava dentro do feed de seu PokéGram. Entre as postagens recomendadas baseadas no algoritmo de Hilda, ela chegou nos primeiros vislumbres do evento do dia anterior, um deles sendo do perfil oficial da prefeitura de Accumula.

Prefeitura de Accumula Town ✓
@AccumulaTownOficial
A 50ª edição do Acummula Summer Festival acontece hoje!
Teremos a presença da jovem modelo e influenciadora @HildaFoley.
Confira a programação abaixo.
❤️ 10.230 Curtidas | 💬 26.700 Comentários

Hilda a princípio estranhou a discrepância entre a quantidade de comentários e de curtidas. A ponta do seu indicador vacilou um pouco antes dela acessar a sessão de respostas. No começo, notou apenas comentários de moradores elogiando o evento, enquanto outros resmungavam sobre a cidade precisar de investimentos além de festas, até mesmo o Prefeito Walker marcou presença exaltando sua gestão.

Não demorou muito para que o primeiro comentário fora dessa curva aparecesse. Seu tópico era o discurso de Ghetsis e ganhava mais notoriedade do que a própria postagem oficial. Hilda se atreveu a olhar a discussão.

Prefeitura de Accumula Town ✓
@AccumulaTownOficial
A 50ª edição do Acummula Summer Festival acontece hoje!
Teremos a presença da jovem modelo e influenciadora @HildaFoley.
Confira a programação abaixo.
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▼ ROLE PARA VER OS COMENTÁRIOS ▼
a VERDADE prevalecerá
@TruthForPokemon
A pior coisa foi ter trazido a @HildaFoley.
Eu estava lá quando ouvi ela dizer que "não era problema dela" quando viu um monte de Pokémon sofrendo.
É sério isso? Ela quer se isentar?
❤️ 38.211 Curtidas | 🗨️ 15.630 Comentários
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
Calma aí, poxa. Não é como se ela tivesse falado que apoia maus-tratos. Vocês estão distorcendo tudo.
❤️ 20.992
LIBERTEM OS POKÉMON!
@PlasmaAwakens
Ela não ficou chocada com os abusos. Ficou chocada por ter sido exposta.
❤️ 54.803
Wendy, a Growlithe
@GrowlitheMom
"Não controlo o que acontece nos bastidores." Mas continua recebendo milhões por causa deles.
❤️ 81.940
HF Nation ✓
@HildaNation
Vocês estão tratando uma adolescente como se fosse responsável por toda uma indústria.
❤️ 18.301
Fashion Leaks ✓
@FashionLeaks
Engraçado. Quando o assunto é publicidade ela adora ser o rosto da campanha.
Quando aparece sujeira ela não tem responsabilidade nenhuma.
❤️ 96.312

Hilda sentiu um calafrio que fez seu corpo tremer, daqueles que se parece como uma premonição de algo ruim, mas que não sabe se confia na sua intuição. A modelo balançou a cabeça e voltou para as postagens principais.

Uma atualização do feed e dessa vez a adolescente sentiu o coração pular no peito.

Hayley | Ex-PA
@FormerStudioPA
Para todos que estão surpresos com as declarações de @HildaFoley:
Trabalhei em produções onde a participou. Nada do que está aparecendo me surpreende.
❤️ 122.091 Curtidas | 🗨️ 20.563 Comentários
▼ ROLE PARA VER OS COMENTÁRIOS ▼
Gengar Anônimo
@AnonymousCrew94
Ela tratava figurantes como lixo. Assistentes tinham medo dela. Até mesmo os próprios diretores evitavam contraria ela.
Agora todo mundo tá fingindo surpresa.
❤️ 159.882 Curtidas | 🗨️ 30.897 Comentários
Will | 📖 The Solrock and The Starmie
@CinemaUnova
De repente várias pessoas da indústria estão contando histórias parecidas sobre a "Queridinha de Unova".
Isso não parece coincidência.
❤️ 108.420 | 🗨️ 10.357 Comentários
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
E tem alguém verificando essas histórias? Porque qualquer pessoa pode inventar qualquer coisa.
Todo mundo faz isso quando alguém se destaca um pouco mais que os outros.
❤️ 22.772 Curtidas | 🗨️30.412 Comentários
Nick✨|Escrevendo Honedge de Madeira
@BeautyInsider
Não quero colocar lenha na fogueira, mas lembram quando uma maquiadora "abandonou" uma campanha depois de discutir com ela?
Na época chamaram de boato, mas depois de hoje, não seria absurdo falar que @HildaFoley demitiu a coitada ou esgotou ela mentalmente.
❤️ 304.119 Curtidas | 🗨️ 105.363 Comentários
Mulher de Muito Chá
@NimbasaTea
Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que trabalhou com Hilda e nenhuma história é boa.
❤️ 187.003 Curtidas | 🗨️ 35.986 Comentários
HF Nation ✓
@HildaNation
Vou evitar dor de cabeça tentando discutir com esse povo.
❤️ 241.882 Curtidas | Comentários Desativados

Hilda sentiu seu coração na boca. Além de postagens e comentários, havia vídeos com trechos do discurso da Team Plasma e das respostas da garota. Não só estavam a massacrando pelas respostas, como estavam aproveitando a oportunidade para cavar mais fundo.

Um pop-up pulou na parte superior de sua tela que pertencia a um perfil de notícias. Seu estômago embrulhou de ansiedade quando ela leu o nome de Clara.

Unova Breaking News ✓
@BreakingUnova
Assessora da modelo e influenciadora Hilda Foley, Clara Laurent, morre durante incidente em Accumula.

Segundo testemunhas, Hilda foi uma das últimas pessoas vistas com Clara antes de desaparecer.
A jovem discutiu com populares momentos antes, após o discurso público de um grupo de defesa dos Pokémon denunciar maus tratos da mídia e utilizar Hilda como exemplo.
A investigação segue em andamento.
Ative as notificações para receber mais atualizações sobre o caso.
❤️ 615.281 Curtidas | 🗨️ 215.360 Comentários
▼ ROLE PARA VER OS COMENTÁRIOS ▼
Apenas um CAMINHANTE
@AccumulaResident
Eu estava lá. Ela estava gritando com o próprio segurança minutos antes de tudo acontecer.
❤️ 117.009
Chatot Fofoqueira
@ConspiracyCast
Não estou dizendo que ela fez alguma coisa. Só acho estranho ela desaparecer logo depois.
❤️️ 305.882
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
O que você estão fazendo é doentio! Estão transformando uma tragédia em entretenimento.
Tenho certeza de que ela logo vai aparecer e contar a verdade.
❤️ 19.223
Quero um cargo fantasma na prefeitura
@UnovaLeaks
Primeiro uma declaração polêmica, depois um monte de gente expondo ela, agora, ela "casualmente sumiu" de uma cena de um crime?
Péssimo dia para a ser a @HildaFoley
❤️ 1.004.332
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
O silêncio dela é triste.
Apaguei meus posts defendendo ela. Não consigo mais acompanhar isso.
❤️ 388.901
#JustiçaPorClara | NEW USER!
@ClaraDeservedBetter
Talvez ela seja inocente.
Mas se até os próprios fãs estão indo embora, o que exatamente eles enxergaram que nós não vimos?
❤️ 2.011.228
Apenas um Unoviano
@UnovaCitizen
A investigação vai descobrir a verdade e talvez Hilda Foley seja inocente e todas as acusações estejam erradas.
Mas uma nunca mais vai mudar: hoje ela descobriu o que as pessoas realmente pensavam dela.
Ninguém se surpreendeu com as atitudes e ninguém se deu o benefício da dúvida sobre as reações dela.
Você pode passar a vida inteira construindo uma imagem, mas, quando a crise chega, não existem explicações, você terá apenas a sua reputação.
❤️ 3.194.558

Hilda não foi capaz de reagir mais. A tela do celular desligou e tudo que ela viu foi o reflexo de si mesma no vidro trincado, o defeito fazia com que parecesse que o próprio rosto da garota estivesse fragmentado.

Triste coincidência. Se tivesse ouvido o conselho de Martin, talvez agora não estivesse manchando a tela com pingos de lágrimas que escapavam sem pedir permissão. Pela primeira vez, desde que se tornara famosa, sentiu medo de ligar o próprio celular.

Alguém bateu na porta.

— Hilda?

A modelo pulou de susto quando a voz de Bianca veio da porta. Jogou o celular de lado e se levantou, ajeitando o pijama emprestado, depois, usou o espelho da escrivaninha para verificar se estava apresentável e secou as lágrimas na bochecha.

— Pode entrar.

A loira abriu a porta do quarto. Ela usava um vestido branco com um colete tricotado de um tom laranja saturado por cima, sinal de que já estava há um tempo acordada. Ela entrou e sorriu:

— Te acordei?

— D-De jeito nenhum. — Hilda precisou de alguns segundos para fingir naturalidade. — Acordei faz um tempo, mas estava com preguiça de levantar.

Bianca riu docemente.

— Quer tomar café da manhã? — convidou a loira. — Tem alguém te esperando lá embaixo, louco para te ver.

Hilda quase se engasgou, visivelmente preocupada.

Depois de uma higiene rápida e uma troca de roupa, Hilda desceu eufórica, seja lá quem fosse, ia encarar de frente. Desceu os últimos dois degraus da escada num pulo e entrou na sala de jantar.

Próximo a janela, observando a paisagem através de seus óculos, como se a analisasse, estava um adolescente também da idade de Hilda e Bianca. Ele logo percebeu a presença da modelo e se virou. Seu corpo esguio e pálido parecia um pouco ansioso já que coçou os cabelos negros azulados com um corte na altura do queixo. Seus olhos acinzentados quase não conseguiam encarar Hilda.

A modelo suspirou aliviada, se curvando pra frente e apoiando as mãos no joelho. Era apenas seu outro amigo de infância.

— Ufa, é só você Cheren — ela riu.

Cheren estranhou e ajeitou os óculos, um pouco constrangido, um pouco decepcionado.

— Sim?

Bianca parou ao lado de Hilda.

— Mandei mensagem para o Cheren ontem à noite contando que você estava aqui — explicou. — E ele ficou ansioso para te ver. — A menina cobriu a boca num risinho zombeteiro.

Cheren tossiu de nervoso, as pontas de suas orelhas esquentaram.

— B-Bianca! — ele resmungou, constrangido.

A mãe de Bianca surgiu no ambiente enxugando as mãos com um guardanapo de pano. Ela sorriu, nostálgica ao ver os três amigos juntos após um longo tempo. Como boa anfitriã, garantiu que seus convidados e sua filha desfrutassem de um belo café da manhã na mesa de jantar.

A TV, em volume baixo, só fazia som de fundo. Cheren percebeu que Hilda ignorava o aparelho propositalmente, ainda que o canal local estivesse passando um programa de variedades para donas de casa. O menino ousou perguntar, entre uma golada de café ou outra.

— Você está bem? Você sabe...

Hilda encarou o amigo, visivelmente irritada, fazendo o garoto se calar na hora.

— Não quero falar sobre isso.

Bianca trocou olhares com Cheren. Ela tombou um pouco a cabeça, sinalizando para que ele evitasse o assunto enquanto o menino assentiu, captando o recado, alcançando uma torrada e trocou de assunto.

— Seu pai está viajando, né, Bianca? — questionou o garoto de óculos.

— Uhum — ela respondeu. — Ele está de férias do trabalho e está passando uns dias na fazenda de um amigo aqui perto.

— Então você vai tentar aquilo?

O tom de mistério deixou fez Hilda levantar os olhos, curiosa.

— Tentar o quê?

Bianca encolheu os ombros, um pouco ansiosa, se sentia prestes a fazer uma revelação chocante.

— Eu vou fazer a prova para tentar obter a Licença de Treinadora. — Ela brincou com os dedos.

Hilda não era muito familiarizada com o mundo dos Treinadores de Pokémon, mas sabia de alguns detalhes pois já fora o rosto de algumas propagandas convocando os jovens para as provas de admissão.

Com o incentivo do governo de Unova e as bolsas especiais, praticamente todo pré-adolescente e adolescente via numa jornada Pokémon a oportunidade de crescer na vida e se descobrir. Era um mundo distante para Hilda.

— Isso é... bom, eu acho — respondeu a modelo. — Estou meio surpresa, admito. Nunca te imaginei batalhando por insígnias ou explorando o mundo.

Bianca riu um pouco, envergonhada e concordou.

— Meu pai surtaria só com a ideia, mas acho que vai ser legal.

Bianca olhou para a mãe como se precisasse de um empurrão. A mulher retribuiu com um sorriso tão doce quanto o da filha, recarregando a coragem que a menina precisava.

— Eu gosto muito da minha cidade. — A loira esfregava as mãos, acanhada. — Papai disse que pagaria minha faculdade em Accumula e isso é legal. Mas eu sinto que não é aqui que eu vou encontrar a minha vocação. Quero explorar Unova, ver paisagens, viver novas experiências e conhecer pessoas.

— Então você vai fazer a prova enquanto seu pai estiver fora? — Hilda questionou, conectando os fatos.

— Vai evitar a fadiga de ter que dar explicações — respondeu Bianca, olhando para a modelo ao seu lado. — Eu espero que eu encontre o que eu quero pra mim assim como você encontrou, Hilda. Eu te admiro porque dá pra ver o quanto você ama aquilo que faz. Você é minha inspiração.

Hilda não escondeu a surpresa, mas também não escondeu o sorriso.

— B-bem — ela quase não conseguia controlar a autoestima inflada. — Espero que dê tudo certo. Ah, é mesmo. — Ela se virou para Cheren, como se estivesse com energia restaurada. Depois, deu um sorriso sugestivo. — Você vai fazer a prova também, Cheren?

O garoto de óculos negou com a cabeça.

— Estou focado em entrar na faculdade.

Hilda fez um biquinho. O trio se surpreendeu com a risada da mãe de Bianca ao fundo, que parou quando notou os olhares curiosos.

— Ouvir vocês falando sobre jornada, carreira e faculdade me fez me sentir nostalgia — ela explicou. — Vocês eram inseparáveis quando crianças e agora vão para caminhos tão diferentes. Por que não aproveitam para fazer algo especial?

Bianca refletiu.

— A praia! — disse ela, empolgada. — Podemos ir lá hoje à tarde!

— Eu topo! — Hilda se animou. Depois, estalou os dedos, como se lembrasse de algo e fez uma careta. — Ah, droga... Esqueci que tenho uma reunião com o Martin hoje à tarde. Assim que eu me livrar dele, encontro vocês lá.

— Não se preocupe — disse Bianca. — A praia não vai sair do lugar, então a gente te espera. Pode ser assim, Cheren?

O garoto assentiu e as meninas sorriram, satisfeitas. Em seguida, Bianca tagarelou sobre as ideias que tivera e sugeriu atividades para o trio no encontro e que iria preparar tudo, também contou que a prova seria em dois dias e em como Cheren estava ajudando com os estudos. Cheren compartilhou suas opções para a faculdade.

Aquele curto café da manhã fez Hilda esquecer um pouco do caos de sua vida profissional. Se sentia aliviada em saber, que, pelo menos, seus amigos ainda estavam lá e sabiam quem era ela de verdade.

A mãe de Bianca deixou a casa para ir até o mercado local em busca de ingredientes para o almoço. Cheren logo se despediu também, alegando alguns compromissos com os pais.

Enquanto Bianca lavava as louças do café, Hilda ficou por perto, resmungando algo sobre suas unhas estarem danificadas. Ela balançou as pernas no ar enquanto estava sentada na bancada, logo atrás da amiga.

— Agora que eu parei pra pensar. — A modelo puxou assunto. — Não vai ser difícil pro Cheren e pra você ficarem distantes?

Bianca olhou por cima do ombro, confusa.

— Você sabe, amiga. — Hilda balançou o corpo, sugestiva. — Relacionamento a distância.

Hilda percebeu que o rosto de Bianca praticamente brilhou de tão corado, não só de vergonha, mas um pouco de frustração. O silêncio de segundos deixou a modelo indignada.

— Você ainda gosta do Cheren, né?

Bianca deixou um prato escorregar dentro da pia, que, apesar do barulho alto, não quebrou. Hilda pulou do local em que estava e se aproximou, parando do lado da amiga, procurando o olhar dela. A loira olhou para a modelo e assentiu.

— Você AINDA não contou pra ele?! — indagou a adolescente.

— HILDA! — Bianca reagiu, interrompendo a atividade que fazia. — N-não.

— Pelo menos beijou ele? Segurou as mãos? Já transaram?

— NÃO!

Bianca sentiu o rosto explodir, fazendo Hilda piscar algumas vezes, em choque.

A novela entre Bianca e Cheren já durava alguns anos. Ela se lembrou da madrugada em que a amiga lhe mandou mensagens surtando sobre o que sentia pelo garoto e Hilda a incentivou a ser honesta e direta diversas vezes, mas Bianca não criava coragem o bastante.

Parte desse nervosismo tinha um motivo. Hilda não era de se gabar quanto a isso, mas sabia quando um homem estava gostando dela. Não que Cheren fosse um livro aberto, mas ele não sabia disfarçar, principalmente naquela vez que ele entregou o presente de quinze anos da menina junto de uma cartinha, na qual dava pra ler um ‘Gosto de você’ rabiscado furiosamente no fim da carta.

Infelizmente, para a desilusão de Cheren, Hilda não compartilhava o mesmo sentimento. A modelo vivia tão ocupada que nem se preocupava em resolver esse impasse, para ela, Cheren era um bom amigo e nada mais. Mas, para Bianca, é como se acontecesse uma competição, ainda que a adversária já tivesse abandonada a disputa antes dela começar.

— Ainda preocupada com aquilo? — questionou Hilda, com uma voz mais empática e tranquilizadora.

— Ele já admitiu algumas vezes qual era o “tipo” dele. — Bianca fez o sinal de aspas com os dedos. Seus olhos ainda não conseguiam encarar Hilda. — Comecei a desconfiar quando o tipo era “alta, morena, inteligente e decidida”.

Hilda deixou uma risada fraca escapar pelo nariz. Adorava ouvir elogios sobre si.

— Bianca, você tá inventando uma competição que não existe e ainda por cima já está se colocando como perdedora.

Bianca voltou ao seu afazer, secando alguns talheres com o pano de prato, tremendo levemente.

— Amiga, é sério. A vida muda rápido demais.

Doce ironia de quem falou sem pensar. Hilda por um momento teve lapsos de memória do dia anterior, e, dessa vez, foi a vez da modelo desviar o olhar.

— Você deveria falar logo para ele — concluiu, focando no problema atual.

— E se... — Bianca não desviou o olhar da sua função. — E se ele não sentir o mesmo?

Hilda deu de ombros e sorriu confortante.

— Pode acontecer, essa é a vida. Pelo menos você vai saber.

— E se o clima ficar estranho? E se ele não quiser mais ser meu amigo?

Chegava a ser cômico como Bianca perguntava coisas que Hilda provavelmente a ouviria falando com a mãe.

— Você disse pra gente mais cedo que queria explorar Unova para conhecer novos horizontes e viver novas experiências. — Hilda explicou. — Talvez você precise cortar todos os nós que ainda te prendem aqui em Nuvema, seja sair de casa ou o próprio Cheren. Se ele for um babaca com você, é só dar um pé na bunda dele, Unova tá cheia de homens gostosos pra você escolher.

Bianca riu pela primeira vez com o jeito descontraído da outra, sentindo um peso sair dos ombros.

— Às vezes você parece mais velha que eu com toda essa experiência — brincou a loira.

Hilda fez uma careta.

— Eu? Velha? Arceus me livre! — ela levantou as mãos pra cima, num gesto de brincadeira. — Quero que descubram logo a fonte da juventude eterna para que eu fique com essa pele lisinha e sem rugas para sempre.

Bianca gargalhou, mas logo em seguida parou. Hilda percebeu que a amiga a encarava com um pouco de aflição, até que ela perguntou:

— Se fosse você no meu lugar, você realmente faria isso?

A modelo piscou algumas vezes, um pouco confusa.

— Sobre o Cheren. Se fosse você, você contaria pra ele?

Hilda parou por alguns segundos para refletir e sorriu:

— Eu nunca deixo as coisas importantes para depois, Bianca.

A resposta saiu automática, mas Bianca sorriu, como se aquela fosse exatamente a confiança que precisava ouvir, mas, por um instante, a frase pareceu estranha para a própria Hilda, como se ela estivesse sendo hipócrita, adiando seus próprios assuntos.

O celular tocou uma notificação no bolso e atravessou o silêncio. Era Martin, provavelmente encaminhando o local do encontro.

— Enfim. — Ela bateu as mãos nas pernas e forçou um sorriso. — Vai lá e conquista aquele nerd antes que alguma outra garota faça isso.

Bianca arregalou os olhos.

— Hilda!

— O quê? Estou sendo sincera.

— Você é impossível.

— E você é lenta.

Bianca revirou os olhos, mas acabou rindo, fazendo Hilda imitar o gesto, logo trocando de ambiente para verificar a mensagem. Pela primeira vez naquela manhã, o peso dos últimos acontecimentos pareceu um pouco mais distante, mas só um pouco, porque assim que a tela acendeu com a mensagem de Martin, Hilda lembrou que algumas coisas não podiam ser deixadas para depois.

Capítulo 1

Vejo Pessoas Pela Janela

“I’ve been the archer, I’ve been the prey.” — Taylor Swift (The Archer)

O primeiro farfalhar de asas de um Pidove solitário nos galhos escuros de um carvalho anunciou o início de um verão ensolarado e quente na pacata cidade de Accumula.

Sua localização no sudoeste do grande Estados Unidos de Unova era como um tesouro escondido que contemplava os poucos visitantes que se aventuravam por lá. Os que foram diziam parecer uma utopia, quase como uma hipocrisia daquele país. Enquanto as grandes metrópoles ostentavam arranha-céus de ferro fundido e estruturas metálicas, Accumula Town carregava nas madeiras dos seus bangalôs e casarões a história de um povo que viu na arquitetura vernacular um meio de preservar momentos do passado.

E quando se falava da população, a maioria era composta por idosos ou famílias jovens com três filhos ou mais. Poucos realmente escolhiam Accumula para viver; quase todos haviam nascido ali e permanecido por gerações. E mesmo aqueles que partiam acabavam retornando de tempos em tempos para festividades e reuniões da comunidade. Não por acaso, Accumula Town registrava, no último censo realizado, pouco menos de sete mil habitantes.

Accumula Town

Havia menos pessoas em Accumula do que seguidores no Pokégram de Hilda.

Provavelmente era isso que ela pensou quando passou pela placa de boas-vindas da cidade com a informação do número de habitantes.

— Ugh! Que calor insuportável. Odeio essa estação. — Ela assoprou as unhas recém esmaltadas e voltou a resmungar. — Minha pele fica um caos. Minha zona ‘T’ fica brilhando igual a cabeça de Tadbulb, não tem skin care que aguente. E nem são nove da manhã.

Sentada a sua frente, em um banco desconfortável naquele trailer apertado, estava a manicure que finalizava as unhas da adolescente. Não era a primeira vez que ela trabalhava para a garota, então os resmungos já não a surpreendiam tanto. Seu olho apenas se direcionou para o ultramoderno ar-condicionado ligado na temperatura exigida pela própria menina: 16°C.

Essa era a modelo e jovem influenciadora Hilda Taylor Foley. Filha da top model e atriz Havana Foley, a adolescente, no auge dos 16 anos colecionava um portfólio admirável de trabalhos para revistas de moda e maquiagem. Assídua com suas rotinas de cuidados com pele e corpo, Hilda conseguia ostentar um dos rostos e medidas mais bonitos da região de Unova. Não importava o horário, se tinha que estar bem apresentada, Hilda passaria horas para garantir que sua imagem nunca fosse esquecida por onde passasse.

— Estão prontas, senhorita — disse a manicure, se ajeitando em seu assento após algumas horas encurvada. — O que achou?

Hilda estendeu as mãos e encarou com precisão de uma cirurgiã. Boa cobertura, sem manchas ou borrados. Ela deu de ombros e respondeu:

— Dá pro gasto.

Infelizmente, a modelo era impontual quando o requisito era ter boa personalidade. Mimada, mesquinha, fútil e dramática eram só um dos poucos adjetivos que corriam pelos corredores das agências para descrever Hilda Foley. E com razão, ela era capaz de tratar uma unha quebrada como tragédia nacional.

A manicure apenas suspirou e resolveu ignorar, seu mísero salário não incluía argumentar com uma pessoa que brigaria até com uma placa de trânsito.

Hilda se levantou do sofá compacto, porém confortável, e se dirigiu até um espelho de corpo inteiro. Ela ajeitou as mechas castanhas tão escuras quanto os troncos dos carvalhos que rodeavam Accumula. Mechas volumosas, brilhantes e saudáveis. Ela simulou alguns penteados, insatisfeita com todos.

— Clara, eu sei que você é uma diva, mas achei non-sense você me trazer pra esse fim de mundo.

Leve com uma pluma, a mulher, cujo nome fora anunciado por Hilda, surgiu de um cômodo ao lado. Clara, a assessora pessoal da modelo adolescente, muitas vezes era apelidada como ‘anjo’ ou ‘enviada de Arceus’ por ser praticamente a única pessoa que conseguia aguentar e lidar com os esperneios dramáticos da sua superior. Era uma figura hipnotizante e misteriosa. Por volta dos seus 30 anos, Hilda admitia as vezes que sentia inveja dos cabelos loiros quase platinados e dos olhos azuis piscina. Carregava consigo uma cicatriz na bochecha direita parecida com queimadura cuja história nunca foi contada, apenas teorizada.

Com um sorriso usando apenas os lábios, ela se dirigiu até a menina e gesticulou, colocando a mãos em seus ombros, para que se sentasse na cadeira em frente as espelho. Hilda obedeceu, seus olhos azuis opalinos encararam Clara através do reflexo, esperando uma resposta.

— Seu portfólio precisa de mais eventos culturais — disse ela, com a voz aveludada. Ela alcançou uma escova próximo e começou a pentear o cabelo da adolescente. — Seus últimos trabalhos foram sessões de fotos e comerciais. Não se cansa de tanto flash?

— Não — disse Hilda, sem pensar muito. Clara riu.

— Eu imaginei que responderia isso. — A assessora juntou as mechas em um rabo de cavalo alto. — Mas, como minha função é cuidar da sua agenda e da sua imagem, eu acho que um evento rural tradicional aqui no interior de Unova vai ser perfeito para você. Eu conversei com algumas pessoas e descobri que você já frequentou alguns anos da Accumula Summer Market quando criança. Não é nostálgico?

Hilda revirou os olhos. Clara finalizou penteado com um elástico de cabelo e olhou para o espelho, esperando uma resposta sobre o penteado. A adolescente assentiu de leve.

— De qualquer forma, esse ano, o evento completa 50 anos — explicou a assessora. — É ano de eleições e o prefeito investiu uma boa verba para te trazer para cá. Tente sorrir um pouco lá fora, que tal?

Hilda se levantou, ajeitou sua regata branca e seu jeans desbotado de cintura baixa, arrumou as botas de estilo country, escolhida pela estilista da própria para agradar os habitantes e recebida de cara torta pela mesma, e virou-se para Clara.

— Não precisa me ensinar como eu devo fazer meu trabalho.

Hilda desceu o pequeno degrau do trailer num leve pulo e se arrepiou quando a sola de seu calçado bateu na terra batida e seca e levantou um pouco de poeira. Clara veio logo atrás, iria guiar a jovem para os compromissos no evento.

Ao lado da porta do trailer, seu segurança particular se mantinha atento como um Watchog. Hilda estalou os dedos para chamar a atenção dele e disse:

— Tenta fazer o mínimo hoje e não saia da minha cola, ok? — a frase saiu tão seca quanto o terreno que pisara. Ela sequer encarou o funcionário. — Não estou com paciência para fã inconveniente.

O homem era quase um gigante perto daquela mísera criança, ele apenas a encarou com os olhos e não abriu a boca. Clara sinalizou para que ele tivesse calma sem que Hilda notasse. Por fim, com as duas mulheres na frente, o trio desceu a pequena ladeira em direção a praça central, local onde o evento acontecia.

A primeira coisa que Hilda sentiu foi o aroma doce entrando por suas narinas. Lá no fundo, havia algo nostálgico naquilo.

A Accumula Summer Market daquele ano tingia o ar com cheiros das frutas frescas, especiarias, das tortas e das geleias, todas colhidas e produzidas pelos próprios moradores. As tendas montadas seguiam o mesmo padrão, mas cada vendedor fazia questão de decorá-las à sua maneira, deixando ali sua própria marca. Em Accumula, tratar a comunidade bem era uma troca recíproca.

Pokémon e humanos trabalhavam juntos. Os moradores que vinham de áreas afastadas chegavam em caminhonetes antigas herdadas da família, cobertas de barro, descarregando mercadorias com a ajuda de Timburr e Blitzle. Lilligant ajeitavam flores nos expositores e até mesmo Pansages faziam a frente oferecendo frutas de amostras para os visitantes.

Naquele ano, o evento arrecadava fundos para o Corpo de Bombeiros que prestava serviço voluntário para a cidade. Por isso, Herdier e Frillish apareciam aos montes, inclusive em um estande da própria instituição, cheio de brincadeiras, exposições e pequenos prêmios. Era quase um mundo à parte. Todos se conheciam; olhares eram trocados com familiaridade, e o tempo parecia não ser inimigo de ninguém.

Hilda parou alguns metros de distância do evento.

— Sabe...

Clara olhou para ela. Criou expectativas que a nostalgia tinha atingido a garota.

— Aquela manicure que você contratou — continuou a modelo. — Muito amadora para o meu gosto. Ela demorou mais de uma hora, me fez acordar cedo, errou o tom e ainda teve a AU-DÁ-CIA de usar uma marca horrível. Ela foi muito bem orientada e sabia que eu só uso Hermès e teve a ousadia de aparecer com aquela porcaria da Dior. — Logo em seguida ela levantou as mãos como se tivesse genuinamente ofendida e concluiu. — Pode demitir.

Clara se deu por derrotada, mas continuou positiva. Balançou a cabeça e assentiu.

— Como quiser, senhorita.

Quando adentraram oficialmente o evento, Hilda foi prontamente instruída a trocar algumas palavras com o prefeito da cidade, que estufava o peito por estar perto de uma celebridade. Uma câmera já estava sendo posicionada para registrar o encontro.

Clara, como uma boa representante e mediadora, iniciou a formalidade.

— Senhorita Hilda, este é o prefeito Walker.

Walker transpirava quase de forma desagradável. Não sabia se era pela ansiedade ou pela péssima escolha de vestir roupa social numa temperatura elevada daquelas. Apesar de ser uma figura política, portava-se de forma patética. Sua primeira reação foi se aproximar de Hilda quase como um Snorlax desengonçado para lhe dar um abraço.

Ágil, a modelo recuou com uma expressão imediata de desgosto, levantando as mãos em defesa.

— Ew! Não — disse ela. — O senhor está suado.

— Ah... Hã... — ele riu, nervoso e constrangido. — Peço mil desculpas. O calor está impossível hoje. Mas agradeço muito a sua presença e espero que aproveite o evento. Poderia dizer algumas palavras para a câmera? Tenho certeza de que sua mensagem vai atrair muitas pessoas para os nossos festivais futuros.

— ... Claro. — Assentiu a garota, recompondo a postura.

O prefeito Walker e Hilda se posicionaram no enquadramento da câmera, e com uma distância segura um do outro. O jovem cameraman acenou positivamente, declarando o início da filmagem.

— Estamos aqui no nosso tradicional festival de verão na nossa linda e próspera Accumula. — O prefeito iniciou sua apresentação, usando de seu dom de oratório político para exaltar o evento. — Na 50ª edição da Accumula Summer Market nosso foco é arrecadar fundos para nossos homens, mulheres e Pokémon do Corpo de Bombeiros. Além disso, temos a honra de ter como presença ilustre de uma das modelos em ascensão mais famosas da nossa linda Unova, Hilda Foley.

Walker se virou para Hilda com um sorriso.

— Primeiramente, é um prazer tê-la conosco. Poderia nos dar suas primeiras impressões do festival?

Hilda respirou fundo e finalmente assumiu sua forma favorita: A figura pública.

— Olá, pessoal. Hilda Foley aqui. — Ela acenou para a câmera com um charme irresistível. O tom da sua voz até mudou, como se mudasse de configuração. — O prazer é todo meu de poder prestigiar um evento tão importante para a comunidade local. Accumula Town é conhecida pelo lema de “A cidade que cresce rápido” e tudo isso é graças aos moradores que se esforçam todas as estações para alimentar o comércio regional.

Walker e até mesmo o operador de câmera se surpreenderam com a atenção detalhista e inteligência de comunicação de Hilda. Apesar de parecer um texto pronto e decorado, era possível sentir que ela passou alguns minutos se dedicando em simplesmente aprender.

— Estou encantada com a magnitude da Accumula Summer Market — a modelo continuou o discurso, olhando em volta. — Estou mega curiosa para aproveitar tudo que vocês têm para oferecer. Eu agradeço o convite do prefeito Walker e convido as pessoas para participarem do evento.

Hilda Foley finalizou com uma piscada leve e uma jogada de ombro charmosa que fez o cameraman corar. Ele encerrou a gravação e acenou com um sinal de joia para confirmar. Em seguida, o prefeito, ainda atônito, direcionou a palavra para a modelo:

— E-Espero que aproveite, de verdade. Suas palavras foram incríveis.

A adolescente abandonou aquela personalidade em frente às câmeras e deu de ombros enquanto usava o celular para conferir a aparência novamente.

— Eu sei. — Ela sorriu, um pouco debochada. — Agora, se me der licença.

Dramaticamente, ela se virou e jogou os cabelos, convencida. Clara apenas balançou a cabeça e riu com o nariz, tão acostumada com aquelas atitudes que já se tornava cômico.

Apesar de controversa, Hilda sabia que o segredo para uma carreira longa e próspera estava no profissionalismo e na comunicação. Se adaptar a diversas situações não era só a regra principal da biologia, mas também do mundo da fama. Por isso, sempre estava pronta para vestir sua máscara e atuar conforme o roteiro pedia. Era capaz de ignorar suas crenças e criar a imagem perfeita. Esse era o seu lema.

Hilda foi abordada por algumas pessoas que pediam fotos e vídeos. Sorria e esbanjava carisma, adorava atenção e holofotes.

Quando não era abordada por fãs, aproveitava para passear pelas barracas. Apesar de focado na agricultura familiar, a feirinha contava com atrações como barracas de jogos, de pinturas faciais para as crianças, artesanato e até mesmo uma área de splash comandado por Panpour e Simipour para refrescar e entreter os menores.

Algumas traziam boas memórias, ainda que Hilda jamais admitisse. O calor a deixava mal-humorada, então não demorou para que seu corpo pedisse alguma coisa refrescante. Para sua sorte, estava bem em frente a uma tenda que vendia sucos e batidas naturais de frutas e berries.

Sobre a mesa que separava o público dos vendedores, três caixas térmicas mantinham as garrafas individuais devidamente geladas. Na frente de cada uma delas, pequenas placas escritas à mão exibiam os sabores disponíveis: uma bebida cítrica feita com Sitrus Berry, laranja, limão e água gaseificada; uma vitamina cremosa preparada com Lum Berry, blueberry e leite MooMoo; e, por fim, um chá gelado de Pecha Berry com pêssego e hibisco.

Depois de analisar por alguns segundos, Hilda levantou a cabeça e seu olhar cruzou com um garoto da sua idade. Ele tinha um olhar curioso, daqueles que sempre pareciam implorar algo. Seus olhos amendoados tinham uma certa inocência que combinava com seus cabelos castanhos igualmente claros com cachos densos. Era uma pena que ele escondia mechas tão bonitas por baixo de um boné velho carmesim. A princípio, ele passou um certo tempo fitando Hilda que ela jurou que ele era algum fã tímido. Mas pelo estilo desajeitado com algumas bandagens adesivas espalhadas pelo corpo, concluiu que ele provavelmente não era seu público-alvo.

— Vamos aproveitar pra se refrescar, moça? — o menino questionou, gentilmente. Parecia um pouco ensaiado e não combinava muito com o jeito dele.

— Estou em dúvida em qual escolher. — Hilda levou o indicador ao lábio inferior, pensativa. — São todos naturais, né?

— Todos feitos com as frutas e berries colhidas na nossa fazenda. — de novo, a mesma fala ensaiada. — Que tal levar o Lum Freeze Shake? — ele gesticulou com a mão e apontou para a caixa térmica do meio, de líquido lilás.

— Com MooMoo Milk, né? — questionou a menina, logo em seguida acrescentando. — É leite integral?

— Hã... — o adolescente tentou manter a postura. — Sim...? Compramos de fazendeiros vizinhos que trabalham com ordenha de Miltanks.

— É pasteurizado? Teria a versão sem lactose? Sou alérgica a lactose. E com leite de amêndoas? — ela continuou a despejar perguntas.

O menino perdeu um pouco da pose.

— Moça, é leite. Apenas leite. Não faço ideia do que é pasteurizado. É um Pokémon? — ele percebeu que Hilda o encarou um pouco descontente e tentou amenizar. — Se não tem certeza, experimenta o Peach Summer Tea. — ele apontou para a caixa ao lado, com garrafas de um líquido transparente alaranjado. — É chá. Sem nenhum tipo de leite.

Hilda pegou uma das garrafas. Analisou o rótulo com informações simples sobre sabor e validade. Minuciosa, parecia uma sommelier averiguando cada característica de um vinho. O vendedor se questionou se ela sabia que aquela custava apenas míseros 5 PokéDólares.

— Foi feito hoje? É muito enjoativo? — e a cachoeira de questionamentos retornou. — Tem açúcar adicional? É feito com qual tipo de chá? Tem alguma tabela nutricional?

O adolescente levou a mão ao rosto. De que cidade grande aquela insuportável tinha vindo? Só estava fazendo um trabalho temporário e não ganharia o suficiente para ter que responder perguntas nutricionais o sei lá mais o que aquela garota fosse inventar. Ele olhou para o lado e notou que uma fila de clientes já começava a ficar grande. Com um sorriso, ainda que sarcástico, ele resolveu se livrar do problema.

— Moça, a fila está ficando grande — explicou, com um sorriso leve e olhos fechados. — Se está inventando esse tanto de perguntas porque não tem dinheiro para comprar e está com vergonha de pedir, leva esse como cortesia da casa. Todo mundo está com calor e temos vendas para fazer.

Pronto. Assim estaria tudo resolvido. Certo?

Quando o jovem vendedor abriu os olhos sentiu seu corpo inteiro se arrepiar. Hilda o encarava com superioridade e soberba, mas, acima de tudo, com uma raiva quase infantil. Havia cutucado o ego explosivo da pessoa mais dramática daquele evento, e, provavelmente de toda Unova. A modelo abriu os lábios para dizer algo, mas alguém foi mais rápido.

— GAROTO! — era o dono da tenda, um homem mais velho que usava um avental manchado de suco. Ele se aproximou às pressas e agarrou os ombros do adolescente. — Está maluco em falar assim com os clientes? Ainda mais com ela?

— O que tem ela? — o jovem perguntou, genuinamente confuso.

— N-não sabe quem é ela?

O menino balançou a cabeça em negativa.

Hilda soltou uma pequena risada nasal, debochada. Era quase como se tivesse expelido o desconforto do próprio ego ferido. Cruzou os braços e encarou o garoto de cima abaixo.

— Imaginei que não me conhecesse. Hilda Taylor Foley não é exatamente alguém para qualquer um.

O proprietário engoliu seco.

— P-Peço desculpas pela atitude do Hilbert, senhorita Hilda. — Ele juntou as mãos, nervoso. — E-ele é só um garoto que veio me pedir um emprego para conseguir algum dinheiro.

O sorriso da modelo ficou estranho, quase perigoso.

— "Conseguir algum dinheiro” então? — ela riu de forma curta, debochada. — Pois bem. Vamos resolver isso.

A modelo estendeu a mão para trás, em direção de Clara. A assessora suspirou, desaprovando a atitude, mas sem interferir. Ela alcançou a carteira de tons rosados adornada com laços de dentro de sua bolsa e a entregou para a sua dona. Hilda abriu o acessório e começou a revirar o compartimento de notas de dinheiro. Ela fez questão de contar em voz alta.

— Vejamos… 100, 200, 300, 400, 500… — o olhar dela nunca saia de Hilbert. — 800, 900… 1000.

Hilda tirou o bolo de notas da carteira e estendeu bem na direção do adolescente. Hilbert alternou olhares entre as notas e a garota. Um sorriso enorme surgiu em seu rosto, simples e genuíno como o de um Darumaka feliz.

— Pra mim? Que foda! — ele aceitou o dinheiro. — Tu é daora, moça. Cê é tipo aquelas pessoas famosas que ganham dinheiro com TV?

O dono interferiu imediatamente.

— Ei! Vai dar dinheiro para esse incompetente? — o homem parecia indignado.

— Vou levar uma caixa fechada dessa coisinha. — Hilda apontou para a garrafa de chá em sua mão.

— Tá vendo? O “incompetente” aqui converteu o cliente — Hilbert se gabou enquanto protestava o adjetivo, mas recebeu um beliscão do proprietário. — Ei!

— Como quiser, s-senhorita Hilda. Muito obrigado pela compra! — o proprietário se virou imediatamente para o garoto. — E você, faça o favor de ir buscar o pedido da moça no carro!

— Pra já, senhor! — energético, ele fez uma continência exagerada. — Valeu pela gorjeta, moça!

O adolescente saiu praticamente saltitando.

Hilda o observou se afastar com crescente insatisfação. Seu plano havia fracassado miseravelmente. Como alguém podia ser tão limitado a ponto de não perceber o insulto por trás daquilo? No fim, só havia jogado dinheiro fora, ainda que, para ela, não fizesse a menor diferença.

Arte de Chinatsu
Arte por Chinatsu

Resmungava baixo enquanto pagava pela quantidade exagerada de chá que havia comprado no impulso. Definitivamente não tomaria aquilo. Só fez aquilo pois percebeu que as pessoas atrás de si na fila começaram a observar muito. Não queria manchar sua imagem.

Quando finalizou a venda, quase deu um pulo no lugar.

Um som agudo e estridente próximo dali reverberou pela feira com um anúncio de mal presságio. A reação generalizada foi de cobrir os ouvidos, algumas crianças gritavam rindo, como se fosse uma brincadeira e outras já se colocavam em prantos nos colos de seus responsáveis.

Clara se aproximou da garota, preocupada em descobrir a origem do som. Ela colocou a mão sobre o ombro da mais nova, que logo parou com seu surto interno para prestar atenção. Séria, a mais velha apontou.

Com a visão bloqueada pelas pessoas que começaram a se agrupar, Hilda se esgueirou até alcançar a frente e arqueou a sobrancelha. Era um grupo pequeno de cerca de cinco pessoas que tinham um péssimo gosto para moda. A modelo procurou referências em sua mente até perceber que eles se vestiam com trajes inspirados em tabardos medievais. Era um grupo de teatro?

Eles não se preocupavam com os olhares curiosos. Terminavam de montar um pequeno palco e ajeitavam a caixa de som e o maldito microfone que atormentara as pessoas segundos atrás. Era difícil dizer as idades ou a aparência deles graças ao capuz do tal uniforme. O último ato que finalizou seja lá o que estavam fazendo, foi quando um deles fincou um mastro de madeira no chão. Os curiosos que levaram a cabeça para procurar o que estava na outra extremidade perceberam que se tratava de um estandarte.

O tecido balançou com um leve vento e triunfou acima dos moradores de Accumula. Estampado, estava um símbolo que também era carregado no peitoral dos uniformes daquele grupo estranho. Um escudo meio a meio com as cores preto e branco e no meio, a letra P em azul cruzada com um ziguezague.

Por fim, um sexto membro ingressou e assumiu o palco. Esse usava roupas diferentes e Hilda definiu aquilo como um dos maiores atentados à moda no último século. Não dava pra definir qual fora a intenção do estilista, mas o homem, que alcançava fácil seus sessenta anos, trajava aquela espécie de manto com muito orgulho. A pose impecável fez Hilda imaginar que ele fosse algum líder religioso ou político. Tanto sua postura quanto os símbolos semelhantes a olhos estampados em sua roupa hipnotizam até quem não tinha interesse.

Após levantar diversas dúvidas, o que parecia ser o líder começou a falar no microfone.

— Saudações, cidade de Accumula. — A voz dele reverberou como um trovão distante e Hilda sentiu as pernas tremerem. — Meu nome é Ghetsis. Represento a Team Plasma. Peço mil perdões por interromper subitamente o evento de vocês. Prometo ser breve.

A curiosidade venceu o desconforto. Moradores e comerciantes permaneceram atentos enquanto o homem observava a multidão como alguém analisando um experimento.

— Nós, humanos, crescemos acreditando em uma mentira confortável — continuou ele. — Acreditamos que pessoas e Pokémon compartilham um sentimento mútuo de quererem estar próximos. Desde nosso nascimento, compartilhamos nossas rotinas com eles. No trabalho, no lazer, nos momentos triste e felizes. Porém...

Ele apontou discretamente para um Herdier sentado ao lado de seu treinador.

— Digam-me... Isso é realmente verdade? Alguém aqui já chegou a questionar isso para os próprios Pokémon?

O dono do Herdier engoliu seco e olhou para seu Pokémon, sentindo uma espécie de culpa. O cachorro por sua vez, como uma verdadeira incógnita, balançou o rabo, esperando algum comando.

— Sujeitamos os Pokémon aos nossos comandos egoístas — Ghetsis continuou. — Alguns são obrigados a batalharem até que um caiam exaustos. Outros carregam nossos pesos. Forçamo-los a serem presentes e dispostos o tempo todo para que possamos usá-los como conforto emocional.

A voz de Ghetsis endureceu.

— E então, existe a indústria da mídia.

O olhar dele atravessou a multidão até encontrar Hilda.

— Senhorita Hilda Foley.

A praça inteira virou o rosto quase ao mesmo tempo. Hilda sentiu o peito apertar, mas sustentou a postura com o orgulho de alguém acostumada a viver sob julgamento público.

Ghetsis desceu de seu palanque e se aproximou da adolescente, parando ao seu lado.

— Eu devo ter empurrado Giratina pro Distortion World pessoalmente pra merecer uma coisa dessas — resmungou a modelo, com a mão no rosto.

— Uma das figuras mais influentes de Unova — apontou Ghetsis. — Modelo e influenciadora. Filha de Havana Foley, provavelmente a atriz e modelo mais famosa dessa região. Sobrinha de Benjamin Beaumont, CEO do grupo Beaumont, uma das maiores multinacionais de fragrâncias do mundo.

Hilda não se impressionou com a ficha que o homem lhe dera sobre sua vida. Até achou divertido os minutos de dedicação para pesquisar tais informações.

— Símbolo de luxo, beleza e entretenimento. Milhões acompanham sua rotina diariamente. Milhares consomem os produtos que ela recomenda. Alguns até ousam dizer que querem ser como ela.

Hilda olhou para Ghetsis. Com a testa franzida e um ar de deboche, ela cruzou os braços.

— Você quer um autógrafo ou vai continuar com essa apresentação de vilão de teatro?

Algumas pessoas riram baixo. Ghetsis sorriu com escárnio, mas sem perder sua pose sofista.

— Interessante, senhorita Foley. Mesmo uma situação como essa você consegue transformar em um espetáculo. Deve ser uma habilidade bem desenvolvida por alguém criada na mídia.

O comentário cerrou algumas risadas e se transformaram em cochichos.

Ghetsis se posicionou logo atrás da adolescente, um pouco para o lado, olhando para a mesma direção que ela. Ficou parado ali como uma assombração, um encosto, pronto para sugar sua alma.

— Responda-me, senhorita. Quantos Pokémon exaustos foram necessários para sustentar sua imagem perfeita? Quantos foram tratados como acessórios descartáveis em campanhas publicitárias? E quantos bastidores foram abafados para que celebridades como você continuassem vendendo felicidade para o povo de Unova?

Hilda arqueou uma das sobrancelhas e respondeu:

— Não faço ideia do que você tá falando.

— Imaginei que não — rebateu Ghetsis. — Pessoas privilegiadas raramente sabem de onde vêm as coisas que consomem. Esse é o conforto do luxo, outros limpam a sujeira por você.

O palestrante estalou os dedos. Em resposta, um Beheeyem se aproximou. O Pokémon tinha uma aura cósmica desconfortável. Ele se posicionou e seus olhos verdes brilharam e mudaram para uma coloração azulada. Com seu poder psíquico, ele projetou um holograma semelhante a um telão. Grande o suficiente para que até os mais afastados pudessem ver.

As primeiras imagens mostravam comerciais famosos. Sessões fotográficas luxuosas. Celebridades sorrindo ao lado de Pokémon maquiados e vestidos para campanhas milionárias. Entre elas, a própria Hilda aparecia em algumas tomadas rápidas, sempre impecável diante das câmeras.

Então, as imagens mudaram.

Um Minccino apareceu tremendo sob luzes intensas de estúdio.

Um Emolga preso em cabos durante gravações aéreas repetidas inúmeras vezes.

Pokémon assustados em camarins apertados.

Um Growlithe sendo contido por sedativos para permanecer dócil durante entrevistas ao vivo.

Um Cinccino claramente esgotado tentando repetir movimentos coreografados enquanto produtores gritavam irritados ao fundo.

As imagens passavam rápido demais. Não havia contexto, não havia datas. Apenas choque. E aquilo funcionava.

Os murmúrios aumentaram e Hilda sentiu diversos olhares caindo sobre ela.

— Isso é... ridículo — por falta de palavra melhor, a modelo retrucou.

— Ridículo? — Ghetsis inclinou levemente a cabeça, desconfortavelmente próxima do ouvido da modelo que comprimiu os lábios. — Essas imagens existem. Esses Pokémon existem e o sofrimento deles é real. Ou a senhorita pretende dizer que tudo isso é mentira?

Os olhares se intensificaram, cobrando uma resposta. Mas ela não respondeu, sentindo o estômago pesar, como se seu orgulho estivesse apertando seus órgãos internos, tentando sobreviver.

Ela conhecia aquele mundo. Sabia dos bastidores cruéis, dos produtores agressivos, das gravações intermináveis e das marcas que tratavam Pokémon como objetos cenográficos.

Só que aquilo não importava. Não era problema dela e não a afetava.

— A mídia transformou criaturas vivas em ferramentas de consumo — continuou Ghetsis, retornando ao seu palco — E figuras como Hilda Foley são o rosto perfeito desse sistema. Belas e carismáticas, porém, vazias o suficiente para vender qualquer fantasia ao público.

Aquilo sim era problema dela.

— Você não sabe nada sobre mim! — ela levantou a voz um pouco mais do que gostaria.

— Então prove.

Silêncio.

— Diga para essas pessoas que estou mentindo. Diga que sua indústria não explora Pokémon até a exaustão. Diga que nunca fechou os olhos para abusos porque era mais conveniente continuar famosa.

Hilda tentou rebater, mas nenhuma palavra saiu. Não porque ele estivesse completamente certo, mas porque havia verdade suficiente naquelas acusações para fazê-la hesitar. E a hesitação foi tudo que a multidão precisou.

Os comentários se intensificaram, celulares começaram a gravar vídeos. Todos esperando um colapso de Hilda Foley.

Ghetsis sorriu, satisfeito.

Ele sinalizou para que o Beheeyem parasse e levantou as mãos, pedindo silêncio da população. E assim foi obedecido.

— Apesar de necessário, não sou nenhum sádico, mas faço isso para que entendam o que estou prestes a dizer. Senhoras e senhores, Pokémon e humanos são diferentes. Essas criaturas possuem poderes ilimitados e muito deles são desconhecidos. Nós, humanos, somos inferiores e mesmo assim, Pokémon nos acompanham com bel-prazer.

Ghetsis levantou os braços em direção a multidão.

— A Team Plasma acredita que existe apenas uma maneira de romper esse ciclo de mentiras. — Sua voz se levantou. — LIBERTEM VOSSOS POKÉMON!

Ghetsis-Speech

A multidão ficou estática. A dúvida havia sido plantada.

Hilda sentiu uma onda de choque percorrer seu corpo a ponto de agarrar seu braço para que ele não agisse involuntariamente. Havia lógica nas palavras daquele homem, sua solução também parecia plausível, mas a modelo não se preocupava o suficiente com o assunto.

— Com esse pedido, eu encerro meu discurso. Agradeço a atenção de todos. Estamos de braços abertos caso queiram entender mais sobre nossas crenças e como podem ajudar. Sei que é muito para digerir em um pequeno discurso, por isso, estaremos distribuindo panfletos com informações. Tenham um ótimo evento.

Um desses caiu na mão de Hilda, que o analisou rapidamente. A ilustração estampava um membro da Team Plasma apontando para o leitor, com uma expressão séria e quase hipnotizante. Era desconfortável e propositalmente provocativo. Hilda reconheceu aquela estratégia de marketing inspirada em antigos governos que chamava as pessoas para o dever e as colocavam como peças importantes para algo grandioso. Os dizerem “A Team Plasma precisa de você para Libertar os Pokémon” só reforçavam a autoestima do leitor, como se o tornasse indispensável.

Antes que a garota pudesse amassar o papel e voltar para seus afazeres, o primeiro golpe de rebeldia chamou a sua atenção.

— Você tá certo! — berrou uma pessoa. Se tratava do dono do Herdier que antes fora praticamente “desafiado” por Ghetsis.

Uma mulher ao seu lado, provavelmente sua companheira, agarrou o ombro dele com uma feição de preocupação. O Herdier em seus pés se agitou, preocupado.

— Querido, d-deixe disso... — confortou ela, com a voz um pouco assustada. — O Cooper adora você.

— E eu o amo! — retrucou o homem. — É por isso que ele precisa ser livre. Não é o que dizem? “Quem ama, deixa livre”? — trêmulo, ele alcançou a Pokéball do Herdier no bolso e a encarou. — Desculpa por tudo, carinha.

A mulher tentou conter, o Herdier encarava tudo confuso. Em um movimento carregado de dor, ele arremessou o objeto no chão e o destruiu com o calcanhar. Depois, mordeu o lábio, contendo o choro.

Hilda esboçou uma reação de quem havia presenciado uma insanidade tão absurda quanto às peças de roupa no setor de moda do Walmart e seu desrespeito pelo bom gosto. Ela olhou em volta. A Team Plasma havia deixado o ambiente como um fantasma, mas não sem deixar suas assombrações para trás.

— V-você é maluco?! — quem direcionou a palavra para a situação era um vendedor de uma tenda próxima. — É seu Pokémon. Acha que ele vai conseguir sobreviver na natureza? Vai se deixar levar por um discurso idiota de um desconhecido?!

— Não deveria me julgar quando você utiliza os Pokémon para carregar seus fardos como se fossem objetos — argumentou o ex-dono do Herdier, apontando para um Zebstrika amarrado contra uma carroça.

Hilda não conseguiu presenciar o resto da confusão. Clara tocou seu ombro com delicadeza e acenou para que elas deixassem o lugar, preocupada com a possível evolução da confusão.

Quando a modelo concordou, uma terceira pessoa interrompeu, agarrando um dos braços da modelo. Era outro homem, ele tinha quase o dobro da altura de Hilda e não tinha uma expressão de quem ia pedir um autógrafo.

— Você sabia de tudo aquilo? — questionou, se referindo as imagens transmitidas. — Tem coragem ainda de ganhar dinheiro em cima do sofrimento de tantos Pokémon.

— Eu não controlo o que acontece nos bastidores — respondeu Hilda. Clara agarrou seu pulso, preocupada. — Agora tire essa sua mão de mim antes que eu chame meu segurança!

A veia no pescoço do gigante pulsou e ele agarrou o outro braço de Hilda e aproximou o rosto. A modelo esboçou nojo quando o hálito de bebida alcóolica invadiu suas narinas.

— Tem sangue inocente nas suas mãos!

— Você não está nem lúcido o suficiente para estar afirmando isso — debochou Hilda, cuspindo na cara dele e conseguindo se livrar. — Onde está o inútil do meu segurança?

O homem atingido limpou o rosto e encarou a menina furioso. Clara a puxava para trás com movimentos leves. Ela sussurrou para Hilda, reafirmando a urgência de deixar o local.

De repente, o ex-dono do Herdier foi empurrado contra o gigante e ambos foram arremessados contra a mesa de uma venda de produtos artesanais, incluindo velas aromáticas. Deu pra ouvir o vendedor que o empurrara proferir xingamentos, assim como o dono da tenda destruída.

Algumas velas aromáticas acesas entraram em contato com panos e enfeites inflamáveis e não demorou segundos para que um pequeno incêndio se iniciasse, o suficiente para pessoas gritarem e uma correria começasse.

Hilda sentiu o tempo parar quando seus olhos pousaram nas chamas.

Os vultos passavam lentamente em volta de si.

Os sons estavam abafados.

Aquele fogo crepitando em um degradê bonito prendiam seu olhar como se fosse magnético. Por fim, sentiu uma nostalgia inexplicável, parecida com memórias de guerra.

Só foi despertar quando Clara a puxou com um solavanco. Ambas correram por entre as pessoas. A assessora tentava procurar o caminho para o trailer para ficarem seguras antes de, efetivamente, entrarem em contato com alguém. Hilda a seguia quase arrastada, já que a loira insistia em não soltar seu pulso.

De repente, num único impulso, alguém as puxou por entre duas tendas. Pararam em uma área mais afastada, cercada por caixas e estoques de mercadorias do evento. Clara soltou o ar em alívio ao reconhecer o homem que as guiara até ali: o segurança pessoal de Hilda.

A modelo, no entanto, não parecia nem um pouco aliviada. Seu cabelo estava bagunçado pelo tumulto e o calor fazia suor escorrer por sua testa.

— Onde você estava, seu imprestável?! — berrou Hilda. — Um brutamonte bêbado quase me agrediu! — ela apontou para o braço cuja marca da agarrada já começava a desaparecer. — Por pouco não arrancou meu braço! Você é um incompetente! Quando voltarmos, iremos rever esse seu contrato. Pode dar adeus as suas férias!

— ...Cala a boca.

A voz saiu baixa, mas foi suficiente para que fosse escutada. Hilda arregalou os olhos, ofendida.

— Você tá me mandando calar a boca?! Sabe qual é sua posição aqui?!

— Hilda... — Clara tentou intervir, nervosa ao perceber que o tumulto do festival começava a diminuir ao longe.

Os bombeiros voluntários já controlavam parte da situação, e os sons desesperados do evento aos poucos se transformavam em murmúrios dispersos.

O segurança deu um passo à frente.

— É só isso que você sabe fazer — rebateu. — Fica reafirmando essa merda de status para se sentir superior. Você sabe que nada acontece, pois é uma mimada protegida!

Irracional, ele avançou na direção dela, mas Clara entrou no meio.

— Para com isso! — a assessora gritou.

— Inventa um discurso diferente. Eu ouço essa toda semana! — Hilda retrucou, avançando também. — E quer saber? Não me afeta. Eu continuo sendo superior.

— Pelo amor de Arceus, não é hora pra-

A frase morreu.

Clara travou no meio do movimento e Hilda demorou um segundo para entender. Então viu.

A mancha vermelha começou pequena, espalhando-se lentamente pela roupa da assessora. A faca tática estava cravada em seu abdômen. O segurança arregalou os olhos. Parecia assustado tanto quanto elas. Por reflexo ou puro pânico, ele puxou a lâmina de volta.

Clara perdeu o ar. O sangue escorreu rápido entre seus dedos quando ela tentou pressionar o ferimento. Cambaleou alguns passos na direção de Hilda, como se ainda tentasse protegê-la, as seus joelhos cederam antes e ela caiu aos pés da modelo.

— Clara?!

Hilda se ajoelhou imediatamente, pressionando as mãos contra o ferimento numa tentativa desesperada de conter o sangue.

O segurança encarava a faca manchada, tremendo.

— O que você fez?! — Hilda gritou, desesperada. — Chama ajuda! AGORA!

Ele soltou a arma no chão. O horror em seu rosto parecia genuíno.

— D-desculpa...

E fugiu, como um covarde.

Hilda tentou ir atrás dele, mas parou ao notar as próprias mãos, virando-a para si, se deparando com a palma suja de sangue.

O sangue de Clara.

Sua respiração falhou. Os sons se abafavam, a confusão do festival ao fundo parecia distante, seu tato parecia não existir, seus pés não sentiam o chão e sua vista estava embaçada.

Então ouviu vozes.

Primeiro distantes, depois, próximas demais. Um flash quase a despertou do transe, as pessoas haviam encontrado a cena: uma adolescente coberta de sangue junto de um corpo caído e uma faca, o objeto do crime, no chão. A conclusão parecia óbvia.

Alguns começaram a filmar, enquanto outros tentavam se aproximar, exigindo respostas, já que Accumula não estava acostumada àquele tipo de violência. Hilda tentou recuar, mas o corpo não respondia. Ela arfava, presa entre o choque e a hiperventilação, enquanto a multidão parecia crescer ao seu redor como uma onda prestes a engoli-la.

Então sentiu alguém puxando seu braço. Tudo aconteceu rápido demais.

Num instante estava sob o sol sufocante do festival e, no outro, à sombra fresca de um grande carvalho na rota ao lado de Accumula. Hilda se assustou ao sentir algo gelado tocar seu pescoço.

Piscou algumas vezes até perceber que era uma garrafa com um líquido alaranjado. Quando ergueu os olhos, encontrou Hilbert, o garoto da barraca de bebidas de mais cedo.Ele parecia ofegante de tanto correr, mas ainda assim sorriu de maneira estranhamente tranquila, tentando aliviar a situação.

— E aí, moça... — disse, estendendo a bebida. — Tá calor, né? Toma um Pecha Summer Tea pra refrescar.

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