• Capítulo 27

     


    Adorava observar o jardim de inverno lotado de plantas pela manhã. Era um espetáculo de natureza numa cidade tão “morta”. Muitos Pokémon insetos desfrutavam daquele espaço, livres para irem e virem. Algumas Caterpies se sentiam confortáveis para se tornarem duros Metapods por ali, ansiosos para logo alcançarem os céus como Butterfrees, Sewaddles devoravam folhas, Burmys dormiam pendurados e até um solitário Dwebble completavam toda aquela obra de arte.

    Burgh sorriu e soprou seu café, para assim, tomar um gole. Despertou de seus pensamentos quando a porta de seu quarto abriu e de lá, Chansol, usando um roupão, saiu enquanto secava o cabelo.

    — Bom dia – disse o diretor do museu ao ver o líder. – Deixou café pra mim?

    — Bom dia, querido – respondeu. – Deixei uma xícara esfriando pra você.

    O marido riu, agarrou a xícara e se aproximou da mesa de jantar onde o líder do tipo inseto estava sentado, e se pôs na cadeira ao seu lado. Depositou um beijo tímido em seus lábios e começou a observar o jardim de inverno.

    — Aquilo é um Caterpie novo? – questionou, apontando.

    — É sim, mais um que vai fazer desse cantinho, sua morada.

    — Não te parece irônico? – começou Chansol. – Numa cidade como Castelia, esses Pokémon procuram nossa casa como abrigo. Enquanto nós usamos a mesma cidade como abrigo de outros lugares. Ao mesmo tempo que ser ignorado é uma coisa boa por aqui, é também ruim.

    — O que quer dizer?

    — Pensa bem. Viemos para Castelia porque sabemos que aqui, as pessoas são tão focadas em suas próprias vidas que ignoraram se somos um casal ou não, já que para eles, tanto faz – detalhou o Park. – Enquanto isso, na mesma linha de ignorância, temos seres que ignoram a existência de outros a ponto de criarem espaços que só servem para uma espécie.

    — Deixa eu ver se eu entendi – disse Burgh. Seu cérebro estava ainda raciocinando o começo de um novo dia para entender a filosofia do marido. – Odiamos a ignorância das pessoas, mas adoramos ela ao mesmo tempo, pois só assim podemos ter uma relação em paz?

    — Basicamente sim – riu o outro. – Não é irônico?

    — É uma linha de raciocínio complexa. Tão complexa quanto a determinação daquele garoto de ontem.

    — Eu gostei daquele jovem – confessou. – Ele me passou o mesmo ar que você quando começamos a namorar. Você odiava me ver triste por causa do preconceito da minha família, então teve um dia que você chutou o balde e enfrentou todos – Chansol olhou para o outro, completamente apaixonado. – Você é incrível, Burgh, só te falta um pouco mais de poesia para a vida. A mesma inspiração que teve quando falou de sua paixão por Insetos.

    — Eu só... – Burgh bebeu o último gole do seu café. – Eu só acho que não consigo enxergar coisas como antes.

    — Procure o artista dorminhoco dentro de você e o acorde. Estamos precisando.



    Na casa dos Foley, a agitação começou logo pela manhã. Hilbert estava sentado no chão da sala, analisando cada um dos seus Pokémon fora de suas Pokéball. Brianna ajeitava a folha em sua cauda, Wooby mantinha o foco no treinador, Mirsthy comia uma pequena Oran Berry e Mushi, o novo Venipede, permanecia silencioso e tímido.

    — É só levar o Wooby – sugeriu Hilda, por fim. – Burgh usa Pokémon do tipo Inseto, e o Wooby tem golpes aéreos.

    — Eu não arriscaria todas as chances só nele – disse Jackson. – O Burgh tem em seu time um Pokémon conhecido como Dwebble. Ele é do tipo Pedra e pode causar bons danos contra um tipo Voador.

    — Sem contar que o Wooby e a Mirsthy já batalharam recentemente – completou Hilbert. – Eu queria levar a Brianna. Sinto que ela pode ser uma boa aliada.

    — Leve a Brianna, o Wooby por prevenção e talvez seja melhor outro Pokémon com vantagem também.

    — E o Mushi? – questionou Hilda.

    — Ainda é muito cedo pra entrar com ele em campo, não temos tanta afinidade – o treinador acariciou a dura carapaça do inseto e sorriu. – Desculpe, carinha, fica pra próxima – disse para o Pokémon, todo atento. – Eu deveria ter um Pokémon do tipo Fogo. Me ajudaria tanto.

    Já vou avisando que não entro em batalha – respondeu Vic logo de cara. – Mas tem outros Pokémon de fogo nesse ambiente.

    — Já aviso que o Winston não pode entrar em batalha ou eu vou ter que voltar pra delegacia – riu Jack, com pesar.

    Hilbert então virou-se para Hilda e correu de joelhos até seus pés.

    — HILDA, EMPRESTA O KOIN!

    — O quê? – a garota recuou um pouco, assustada. – O Koin não batalha, a única função dele é ser mimado por mim!

    — Vamos Hilda, ele vai ficar bem! – implorou o amigo. – É só uma batalha, precisamos garantir a vitória.

    Hilda suspirou e entregou a Pokéball de Koin à Hilbert.

    — Cuide bem dele...

    — Você é um anjo! – Hilbert pegou o objeto e o olhou admirado.

    — Acho que com essa questão resolvida, deveríamos ir ou ficaremos atrasados – informou Jackson, se levantando. O trio preparava suas bolsas para tomarem o caminho até o ginásio quando a porta principal abriu e Havana adentrou o apartamento.

    — Cheguei – anunciou e olhou surpresa para o trio. – Oh, já estão de pé?

    — Estamos de saída, mãe – explicou a menina. – Vamos até o ginásio do Burgh.

    — Sair? Ah, não, não – a loira se aproximou. – Você tem um compromisso comigo agora. Temos que ir na joalheria para ver as joias para seu aniversário e provar seu vestido, temos um “sketch” pronto já.

    — M-mas mãe...

    Havana foi até a cozinha e cumprimentou Maisy.

    — Vem com a gente, irmã? – questionou a mais velha.

    — Vou ter que deixar pra outro dia, Havana – riu a mais nova, lavando a louça. – Oliver pegou um leve resfriado e está de cama.

    Putz – murmurou Vic, já sabendo o motivo.

    — Oh, que pena – lamentou a dançarina. – Será um dia de mãe e filha, não é, minha querida? – sorriu a mulher com um sorriso tão sincero e convincente que Hilda teve pena de dizer não.

    — P-Pois é – respondeu ela, sem graça. Ela se virou para o treinador: - Bem, vou perder essa batalha – riu a garota. – Mas boa sorte, Hilbert. Cuida bem do Koin.

    — Deixa comigo – sorriu o outro.

     

    Hilbert e Jackson adentraram o museu e o atravessaram com certa pressa. Naquela hora da manhã, não havia tantos visitantes, a maioria eram apenas funcionários limpando os quadros, esculturas e os corredores. O treinador se questionou se o palhaço mímico de ontem estava por lá, mas não tinha tempo para conferir. Após caminharem um pouco, finalmente adentraram no verdadeiro ginásio de Burgh, e lá estava ele, parado, aguardando seu desafiante. Chansol, por sua vez, estava à direita, posicionado com um pequeno apito no pescoço, indicando que ele faria o papel do juiz.

    Ansioso, o menino trocou apenas alguns olhares com o líder, que parecia bem confiante. Jack bateu de leve no ombro do amigo desejando-lhe um ‘boa sorte’ breve e indo para o lado do diretor do museu.

    — Achei que iria desistir – brincou Burgh.

    — Eu não desisto dos meus objetivos – o treinador sacou uma Pokéball.

    — Será uma batalha 2x2. Ambos só poderão usar 2 Pokémon cada, o primeiro que perder ambos, recebe uma derrota – explicou Chansol. – O desafiante tem vantagem do primeiro ataque. Sem limite de tempo. Comecem!

    Com classe, o líder do ginásio arremessou sua esfera e assim, libertou seu primeiro Pokémon para o embate. O pequeno inseto parecia bem tímido em sua carapaça de pedra de formato circular. Mas fora toda a casa que carregava nas costas, a criatura era um exímio inseto alaranjada com diversas patas e olhos curiosos. A Pokédex, por fim, informou que aquela criatura era Dwebble, um Pokémon do tipo Bug/Rock-type, como previsto por Jackson.

    — Brianna, eu escolho você! – anunciou o menino, liberando a pequena Snivy que parecia ansiosa por mais uma batalha.

    — Uma escolha esperta. Vamos ver do que é capaz.

    — Vai se surpreender – Hilbert estendeu o braço para frente. – Bree, use Vine Whip!

    A inicial de grama liberou as vinhas e começou a ricochetear o inimigo à sua frente, mantendo certa distância já que não sabia como ele revidaria. Burgh refletiu, o golpe ordenado não surtia grande efeito, então tinha tempo de se planejar.

    A Snivy recuou seu golpe para se recuperar, então, o líder ordenou:

    — Vamos começar com Rock Polish.

    Dwebble se desfez de sua carapaça e começou a polir suas patas dianteiras, assumindo novamente a pose de batalha. Desconfiado, porém, sem muito pensar, o treinador ordenou um Tackle para sua companheira, que logo bateu em disparada em direção à criatura laranja.

    Mas o que talvez Hilbert não soubesse é que o ataque utilizado pelo adversário aumentasse a velocidade, e por consequência, o tempo de reação do pequeno inseto, que ordenado pelo seu mestre, se esquivou, correndo para trás de sua pedra.

    A Snivy encarou-o, um pouco irritada.

    — Use Smack Down!

    Apesar do tamanho, o Dwebble tinha uma grande força, agarrou sua pequena “casa” e arremessou com impacto contra a pobre criatura de grama que voou para longe. Era de se impressionar como aquela espécie carregava algo tão pesado em suas costas.

    Preocupado, Hilbert procurou a Pokéball de Brianna no bolso para fazê-la recuar, mas a Snivy soltou um grunhido de protesto, voltando para seu lugar no campo e encarando aquele maldito ser. Estava determinada a não perder mais nenhuma batalha sequer.

    Naturalmente, começou a rodar seu corpo e milhares de folhar começaram a surgir em volta, formando um pequeno redemoinho.

    Leaf Tornado – averiguou Jackson.

    — Um golpe novo? – sorriu o treinador da criatura. – Ok, Brianna, manda pra ele!

    Saltando, Bree lançou seu golpe que crescia conforme girava em direção ao pobre inseto, esse tentou fugir, mas logo foi tomado pela fúria do golpe, rodopiou e caiu com impacto no chão, fragilizado.

    — Foi uma reação divina – admitiu Burgh. – Mas essa batalha tá só começando. Sand Attack.

    Um golpe já conhecido por Hilbert não lhe trazia grande apreensão, mas sabia que aquele golpe, que foi usado para dificultar a visão dos participantes daquele embate, poderia virar completamente o jogo.

    — Vamos usar Leaf Tornado novamente – ordenou o garoto.

    O golpe foi utilizado na mais pura sorte já que não se enxergava muito bem a posição exata do Dwebble, e Burgh parecia satisfeito com isso, já que poderia preparar o seu ataque surpresa de novo.

    Smack Down!

    Com a velocidade aumentada graças ao poder do Rock Polish, o pequeno inseto laranja pode surgir da direita da serpente de grama e atingi-la em cheio, jogando-a contra o solo, o que a fez soltar um grunhido surdo.

    Vic espiou de dentro a bolsa do treinador para ver o que ocorria, viu Brianna caída no campo e se encheu de preocupação.

    Ei, Bree, não desiste não – disse, baixinho, onde só a inicial de grama poderia ouvir. – Tenta prestar atenção nos passos dele. Esse desgraçado tem várias patas, barulho é o que não falta.

    A Snivy se levantou e analisou o ambiente, o Dwebble tinha desaparecido novamente graças ao efeito do golpe de areia. Hilbert não ordenou nada além de silêncio e atenção para seu Pokémon. Burgh teve um pouco de receio, mas estava confiante.

    Smack Down!

    Brianna pode ouvir o barulho nervoso das patinhas do inseto correndo na esquerda, quando ele saltou e finalmente apareceu para arremessar sua pedra contra a adversária, a inicial de planta usou um Vine Whip para agarrar o golpe e impedir que o objeto a acertasse. O pequeno Pokémon laranja encarou aquilo com um gelo na alma.

    Vingativa, usou seus chicotes para destruir a pobre casa do adversário.

    — Finalize com Tackle!

    A serpente mais do que depressa investiu contra o corpo do inimigo e o arremessou para longe, sem tempo de reação e desprotegido, Burgh só viu o resultado daquele round quando a areia cessou e o seu primeiro Pokémon estava caído, desacordado.

    Com um sorriso de derrota, o líder retornou seu Pokémon e o ato foi repetido pelo treinador, que agradeceu o bom trabalho de Brianna.

    — Você lidou bem com meu Dwebble, mas o meu próximo Pokémon vai te dar um pouco de dor de cabeça – sacando uma segundo Pokéball, Burgh colocou seu segundo Pokémon em campo.

    A expressão gentil e serena da criatura verde e amarela só mostrava o quanto ela estava acostumada com batalhas. Um alto inseto bípede se apresentou, com olhos vermelhos, folhas cobrindo o corpo como roupa, pernas finas e braços que pareciam lâminas, esse era Leavanny, o Pokémon destaque do líder de Castelia.



    Hilbert sabia que aquele seria um desafio maior, mas ele também tinha um truque na manga.

    — Conto com você, Koin!

    O Tepig de Hilda foi liberado e ele olhou confuso para o ambiente. Onde estava os petiscos? Os cafunés de Hilda? O que estava acontecendo?

    — K-Koin, desculpa ser um pouco repentino. Mas a Hilda te emprestou para mim e eu preciso da sua ajuda – explicou o treinador. – A Hilda precisa da nossa ajuda. Vai me ajudar?

    O pequeno porco analisou os movimentos ansiosos do garoto e reconheceu o nome de sua tão amável mestra, então sabia que estava em boas mãos e tinha uma missão a cumprir. Se posicionou com as quatro patas abertas e fez uma expressão confiante.

    — Comecem – anunciou Chansol.

    — Koin, ataque com Ember!

    Apostando em golpes efetivos, o inicial de fogo lançou poderosas brasas em direção do inseto, mas Burgh parecia pronto para os espertinhos de plantão que achavam que ganhariam facilmente.

    — Use Protect.

    O Leavanny uniu os braços em um X contra o peito e criou uma bolha em volta do seu corpo, que bloqueou completamente as chamas do adversário. Refletindo, Hilbert sentiu que teria que abaixar a defesa primeiro, então ordenou um Tail Whip. O porco se aproximou do adversário, a bolinha na ponta do seu rabinho torcido emitiu um brilho avermelhado fraco e ele começou a balançar de um lado para o outro, distraindo o inseto gigante.

    Tackle agora! – ordenou o treinador de Tepig, logo em seguida.

    — Contra-ataque com Cut! – comandou Burgh.

    O suíno foi o primeiro a disparar, ele era meio lento apesar de não ser muito grande, mas estava ganhando boa velocidade para impactar o adversário, que por sua vez, logo se livrou do efeito do golpe anterior e partiu para cima.

    O movimento do Leavanny foi tão rápido e preciso que quase ninguém viu exatamente o que aconteceu, o que deixou até mesmo o Tepig confuso. Ele só percebeu que tinha sido atingido quando uma dor súbita em seu corpo o fez ceder um pouco. Rápido como uma lâmina, os braços do Pokémon de Burgh chegaram a brilhar de tão afiados.

    — Você não é o primeiro e nem o último a trazer um Tepig para batalhar contra meu Leavanny, Hilbert – disse o líder, um pouco debochado. – Não ache que simples brasas e golpes baratos vão me derrubar.

    — Está bem confiante pra quem está perdendo, Burgh – retrucou Hilbert. – Eu vou conseguir o brinco de você. Está comigo, Koin?

    O pequeno inicial se levantou e grunhiu animado, pronto para mais uma rodada.

    — Ataque com Ember!

    — Use Cut para cessar as chamas e ataque! – ordenou o líder.

    O porco obedeceu ao seu comando e não economizou em disparar dezenas de brasas enquanto o Leavanny quebrava uma por uma até o momento em que voltou a fazer um novo golpe transversal e derrubar o Tepig novamente.

    Aquela disputa não parecia ter fim, ainda que Koin estivesse sofrendo mais e mais danos graças ao simples golpe do Cut, ele parecia determinado em continuar, lançando cada vez mais do seu Ember que algumas vezes conseguia atingir o corpo magro do Leavanny. Foi na quinta recaída que Hilbert, desesperado, pegou a Pokéball do pequeno mamífero para trazê-lo de volta. Talvez Brianna pudesse dar conta daquele inseto.

    Mas o grunhido de negação do Tepig o impediu. O inicial de fogo se levantou mais uma vez, iria até o fim de sua missão para ajudar Hilda e seus amigos. Ofegante, ele soltou um grunhido mais alto, como um grito de guerra e logo em seguida, o que ninguém esperava era que um brilho acometeria o corpo de Koin.

    Aquele brilho era de evolução. De quadrupede para bípede, o corpo de Koin se assumiu oval, suas pernas eram curtas e seus braços, fortes, o padrão de cores se mantinha, com detalhes novos, como a substituição da esfera vermelha em sua cauda para um emaranhado de pelos desajustados. Uma expressão de confiança e duas presas inferiores amostras completavam o que era aquela criatura: Um legítimo Pignite.


    — MEU ARCEUS, O PORCO EVOLUIU! – exclamou Hilbert, eufórico. Mas logo sua felicidade passou quando ele se lembrou de Hilda, então sua expressão mudou para desespero e medo: - Meu Arceus, o porco evoluiu...

    Mas Koin não parecia se importar com a aflição do garoto. Seu corpo logo se encobriu de chamas mais poderosas num ataque conhecido como Flame Charge e partiu em direção do Leavanny, que parecia interessado em ter um oponente a altura, literalmente.

    O porco atacou, mas o inseto revidou com um Protect, que não pareceu ter a mesma força de proteção como antes, o desespero tomou conta até mesmo de Burgh quando aquela bolha trincou, prestes a explodir.

    — Fuja daí, Leavanny! – gritou o líder do ginásio.

    Velocidade ainda era o ponto forte daquele Pokémon, com agilidade e precisão ele cessou seu golpe e começou a fugir daquela criatura enfurecida. Foi quando Burgh logo em seguida ordenou que o Pignite fosse interrompido com um golpe conhecido como Sting Shot.

    Da boca do inseto, um fio de seda foi arremessado como uma corda e acertou a perna esquerda do adversário e o derrubou de cara.

    — Koin! – exclamou Hilbert. – Consegue se levantar? Usa aquele golpe de novo!

    Struggle Bug! – ordenou Burgh.

    Uma aura vermelha cobriu o corpo de Leavanny e a mesma atacou diversas vezes o Pignite que lutava pra se libertar. Era incrível como mesmo com a evolução recente, o Pokémon do líder continuava a dar trabalho. Burgh estava se sentindo tão vivo que poderia fazer um quadro sobre aquela batalha.

    — Meu Arceus, garoto, acho que nem ligo para quem vai ganhar – comentou, eufórico. – Eu com certeza vou querer registrar esse momento naquela parede – e ele apontou para a tela em branco que tinha comentado no dia anterior.

    Hilbert olhou em direção ao que estava sendo apontado e seus olhos passearam para cada figura desenhada naquela parede até a figura de um Combee, Pokémon original da região de Sinnoh, lhe chamar a atenção, e por algum motivo, sua memória o levou para a conversa que tivera com o palhaço mímico no dia anterior. “Parede”, “Mel”, “Combee”, essas eram as palavras ditas pelo artista. Com um sorriso de canto de boca, o garoto disse:

    — É hora do Detetive Hilbert entrar em ação – e se virou para seu Pokémon. – Koin, use toda sua força para acertar uma investida naquela parede!

    Todos os outros presentes olharam atônitos para o comando do treinador, mas o Pignite estava disposto a obedecer a tudo e como um touro enfurecido, usou uma investida pesada contra a parede, que apesar da aparência robusta, não passava de uma drywall, paredes de gesso finas que podiam ser facilmente derrubadas para mudanças futuras em um ambiente, e é claro, graças a sua facilidade em derrubá-las, não demorou para que viesse tudo abaixo. Mas o que mais surpreendeu foi que se revelou logo atrás.

    Potes e mais potes de mel estavam empilhados como se estivessem armazenados por anos ali.

    — Mas o que é isso? – questionou Burgh, intrigado.

    — Bem, esse prédio foi uma fábrica de mel no passado – comentou Chansol. – Mas eu nem podia imaginar que havia mel estocado ainda. Isso explica o cheiro de mel que se alastra pelo museu as vezes.

    — Como sabia disso, Hilbert? – questionou Jackson.

    — Um palhaço mímico me contou ontem sobre uma parede com um Combee e mel – respondeu o treinador, ainda meio surpreso. – Mas não sabia que era real...

    — E achou que seria uma boa ideia testar justamente na parede que eu estava pintando? – questionou Burgh, irônico.

    — Foi mal...

    Uma quinta pessoa adentrou para interromper pela segunda vez aquela batalha. A roupa social o deixava diferente, mas aquele rosto era reconhecível por Hilbert.

    — O palhaço! – apontou ele. – É você!

    — Desculpe interromper vocês – começou ele, sem graça. – Mas eu devo explicações.

    — Quem é você? – questionou Chansol.

    — Eu fui o último diretor da fábrica de mel que era instalada nesse museu – disse.

    O homem começou a explicar sobre a falência de sua fábrica com termos que o treinador não entendia e nem queria, até que ele chegou a explicar que guardava um estoque de mel escondido para alguma emergência, mas o próprio tinha esquecido dele quando a mudança foi feita.

    — E porque não veio falar comigo? – questionou Chansol.

    — Porque eu sou extremamente tímido – o empresário coçou a garganta. – Tá sendo um sacrifício falar com vocês agora – ele riu sem graça. – Aí me disfarcei de palhaço e esse jovem treinador foi o único a me dar atenção.

    — Foi bem trabalhoso desvendar esse mistério – Hilbert se gabou. – Mas eu consegui.

    — Eu irei tirar todo esse mel se me permitirem.

    — Claro – respondeu Burgh. – Mas só precisamos terminar essa batalha.

    — Putz, tinha quase me esquecido – riu o treinador. – Koin, volta aqui, vamos voltar e-

    Aquele estoque de potes de mel tinha deixado Koin completamente maravilhado e faminto, seus olhos brilhavam. Sem muita noção de física, o Pignite puxou um dos potes de mel e o abriu para comer, mas aquilo acabou por derrubar uma fileira de pelo menos vinte potes, que se partiram e mancharam o campo de batalha.

    — Koin! – exclamou o garoto.

    Leavanny, que até o momento observava tudo, começou a se sentir enjoado com o cheiro exagerado daquele doce, tentou cobrir as narinas para evitar o pior, mas logo caiu nocauteado no chão.

    — Leavanny! – gritou o líder, preocupado.

    Chansol, que estava completamente confuso, anunciou.

    — O Leavanny de Burgh está... fora de combate? O vencedor é o desafiante Hilbert!

    O treinador olhou surpreso para o líder e para o juiz, ainda incrédulo, fora a vitória mais diferente de toda a sua curta carreira.

    — Pelo menos foi uma doce vitória – comentou o garoto.

     

    Já fora daquele ambiente que estava sendo devidamente limpado e os potes de mel que tinha sobrado sendo levados embora, Burgh, Chansol, Jackson e Hilbert conversando na sala do diretor do museu.

    — Primeiramente, parabéns pela vitória, Hilbert – começou o líder. – Você merece isso – ele estendeu a mão aberta onde além do fragmento da Light Stone, estava também uma pequena insígnia com detalhes em dourado que remetia a uma folha. – Acho que essa foi a Insect Badge que eu mais tive orgulho de entregar. Você despertou uma inspiração em mim que há muito tempo não tinha. Esbanjou criatividade e nem se importou muito com tipagem – sorriu. – Estou ansioso para fazer quadros e mais quadros sobre nossa batalha e expor por todos os cantos.

    — Muito obrigado, senhor Burgh – orgulhoso de si e do seu time, o menino pegou os objetos, guardando cada um em seu devido lugar. – Desculpe pela parede.

    — Não se preocupe, existem muitas paredes brancas por aí precisando de cores – sorriu o líder. – Mas agora, acho que vocês querem ouvir informações sobre a Light Stone.

    Jackson assumiu a conversa:

    — Na verdade, minha tia, Lenora, nos disse que você poderia nos informar sobre Junsei Kurosawa. Ele parece ter sido alguém completamente ligado às duas esferas.

    E Chansol entrou na conversa também.

    — Nesse caso, sou eu que devo explicações – sorriu o diretor, por fim. – É uma longa história, então peço que sentem e prestem atenção.

     

    A conversa durou um pouco mais de duas horas, e já passara pouco mais da hora do almoço quando Jack e Hibert tomaram o caminho de casa para contar tudo à Hilda, que provavelmente deveria estar nos nervos.

    A dupla adentrou o apartamento da família Foley e se dirigiu até a sala, lá, se encontraram com uma Hilda sentada no sofá com a mãe, Havana e ambas usavam uma máscara de aparência cremosa no rosto. A menina se levantou aos ver os amigos:

    — Ah, finalmente chegaram! – disse ela, se aproximando. – C-Conseguiram?

    Os dois se entreolharam e Hilbert mostrou suas conquistas para amiga. Ela não conteve a empolgação e abraçou os dois.

    — Vocês são incríveis! – sorriu, animada. – Como o Koin foi?

    — Ele foi o destaque da batalha! – empolgou o treinador. – Ele levou a Leavanny do Burgh sozinho e-

    Quando o garoto buscou a Pokéball do bolso, lembrou-se do infeliz fato da evolução de Koin, engoliu seco e entregou para a amiga.

    — Erm, Hilda, eu preciso te contar algo.

    Mas a garota ignorou, abraçando a esfera com orgulho.

    — Ah, meu Arceus, você é meu orgulho! – sorriu, pressionando o botão para liberar a criatura. – Vou te encher de beijos e abraços – abrindo os braços pronta para receber um pequeno Tepig em seus braços, ela com certeza não estava fisicamente preparada para um peso de um Pignite que caiu como três sacos de arroz em cima da garota, derrubando-a.

    — Então, Hilda – Hilbert começou. – Sobre o Koin... Ele... meio que evoluiu...

    Hilda encarou o menino, séria.

    — Hilbert, cadê o meu porco?

    — O-O Koin agora é um Pignite – ele respondeu, meio recuando.

    — CADÊ O MEU PORCO, HILBERT?! – a primeira reação dela foi agarrar as orelhas do amigo, claramente possessa e irritada com a maravilhosa surpresa do menor.

    — FOI MAL, HILDA! AI! AI!

    — Filha, a ideia de usar uma máscara relaxante era justamente para te manter calma – ironizou Havana, fechando uma revista.

    — Além do mais, nós conseguimos informações – disse Jackson, calmo, mas que chamou a atenção de Hilda.

    — Sobre a Light Stone? – ela questionou, curiosa.

    — Chansol nos explicou tudo – respondeu o arqueólogo. – E tem um lugar onde podemos conseguir mais respostas.

    — E qual é?

    Jack olhou para os dois mais novos, Hilbert assentiu com a cabeça, confiante. Logo depois, o mais velho do trio olhou para a menina:

    — Nós vamos para Johto.

       

  • Notas da Autora (Capítulo 26 e 27)

     


    O terceiro ginásio está entre nós!

    É bizarro pensar que a maioria das minhas fanfics não saiam do primeiro ginásio, e agora estou no terceiro e morrendo de medo dessa evolução rs 
    Mas, estou muito satisfeita com o meu trabalho até aqui :3 

    Apresentar o Burgh é sempre uma obra de arte, até pq ele acaba por se apresentar sozinho. Mas, como aqui eu ignoro as aparências, temos um BURGH NÃO TÃO POÉTICO ASSIM kk 
    Eu vi que muitas pessoas odiaram o líder de ginásio de Castelia, e isso abre uma discussão legal sobre como nem sempre os mocinhos ou os que não são vilões são pessoas amáveis, e eu gosto de pensar que esses fragmentos nunca serão entregues de mão beijada. 
    Se bem que... APOSTAR INSIGNIAS POR UM MÍSERO FRAGMENTO É MUITA OUSADIA. Mas eu adoro essa cena, chegou num ponto que Hilda e Hilbert fazem coisas um pelo outro e eu não quero que esse laço se corte nunca haha

    Sobre a batalha. 
    PUTA MERDA QUE TRABALHO EU TENHO PRA FAZER QUALQUER BATALHA! 
    Eu realmente não sou boa, eu fico com várias abas abertas estudando golpes, tipos, efeitos, como descrever, como encaixar estratégias, etc. E eu fico muito feliz quando vejo um comentário de alguém que gostou. 
    Esse finalzinho com o lance do mel é meio improvisada, meio planejada. Eu realmente queria trabalhar o mel do ginásio, mas a única coisa que me vinha na cabeça é literalmente o mel, mas estou contente com o resultado e em como essa batalha terminou. 

    KOIN EVOLUIU! Gostaram? A Hilda não, já que agora ela não consegue carregar Koin no colo rs Essa evolução é inspiração do próprio mangá, sempre achei hilário como a White fica possessa das ideias quando o Black aparece com o Tep evoluído. 

    De toda forma, ARRUMEM SUAS MALAS E VAMOS PARA JOHTO

    Um beijo e um abraço
    StarChan

  • Capítulo 26

    Vic guiava Oliver pelas ruas de Castelia, despreocupado com os olhares das pessoas, mesmo numa cidade grande como aquela, nenhuma pessoa realmente olhava para o lado para prestar atenção. O menino caminhava convencido após seu encontro com Yasmin, que foi buscada pelos seus pais minutos antes.

    — Você viu como ela sorriu? – disse para o Pokémon na sua frente. – Eu acertei demais no presente.

    Você quase fez xixi nas calças, isso sim, garoto – Victini se virou para o jovem. – “Esse presente é pra mim?”, “Não!” – debochou a criatura, imitando as vozes.

    — Aquilo foi um pequeno imprevisto. Eu fui incrível – Oliver colocou as mãos na cintura, presunçoso.

    Pois saiba que eu mereço crédito pelo seu ato, já que parte do seu charme veio desse meu lindo rostinho naquela estátua – não querendo perder uma guerra de egos, Vic parou e imitou o gesto de seu adversário, observando-o.

    — Você é literalmente igual a todos os Victinis – retrucou. – O talento foi meu.

    Se eu nem existisse, você nunca teria conquistado a garota.

    — Posso provar que sou mais incrível que você.

    Com uma corrida até sua casa?

    — Quem perder, paga Casteliacones para o outro.

    Fechado!

     


    Hilbert corria na frente dos amigos, tentando não perder o carro de vista. Lá dentro, o homem não parecia muito preocupado com a perseguição, estava mais atento e imerso com os afazeres de seu celular do que com o mundo externo.

    O treinador desacelerou um pouco o passo, cansado. Hilda e Jackson o alcançaram, correndo em um ritmo mais lento.

    — Por que isso parece quando fugimos da polícia naquela vez? – questionou a garota.

    — Fugir da polícia por causa de Casteliacones é menos ridículo do que perseguir um carro por causa de uma lasca de pedra – retrucou o menino de boné, rindo ofegante.

    — Falando desse jeito, parece que estamos envolvidos com tráfico – brincou Jack, rindo.

    Após perseguirem o veículo por várias quadras e atravessarem perigosamente algumas ruas, o alívio ao ver o carro finalmente parar foi automático. Hilda colocou as mãos no joelho, recuperando o ar.

    — Está tão quente que eu tenho certeza que vou virar um Fire-type – comentou, ofegante.

    — Eu descobri que sou mais sedentário do que pensava – comentou o arqueólogo, enxugando o suor na testa.

    Do táxi, enfim, desceu o alvo da operação. Agora era mais fácil de vê-lo. Seus traços orientais denunciavam sua origem, provavelmente de Johto, sua pele era clara e lisa como de uma boneca, o que denunciava sua vaidade em usar muitos produtos para a pele. Seus cabelos castanhos quase pretos eram lisos e bem penteados com um corte moderno. Suas roupas demonstravam que ele era atento a moda, mas que precisava manter uma postura mais séria, então preferia roupas escuras. Por fim, após checar algumas notificações em seu celular, ele entrou em um dos prédios.

    — Atrás dele! – berrou Hilbert, recuperando o fôlego rapidamente (algum privilégio de ser meio Pokémon) e voltando a correr.

    Nem pararam pra perceber em qual era o tipo de construção que estavam adentrando, mas o cheiro de mel surgiu em suas narinas que eles se questionaram qual produto de limpeza teria um cheiro tão bom. Depois da sensação do olfato, a visão os privilegiou diversas pinturas protegidas por quadros, e estátuas expostas em longos corredores com iluminação clara e extremamente brilhante, os pilares de uma arquitetura antiga dava a aparência de clássico e bancos estofados permitiam que visitantes pudessem se sentar e admirar com conforto. Estavam em um museu de arte.

    — Oh, o Museu de Arte de Unova – comentou Hilda, que já frequentara o local antes. – Nem reconheci quando entramos.

    — Ele pode ter ido para qualquer lugar, vamos nos separar e procurar por pistas – disse o treinador, atento. – Jackson na direita, Hilda na esquerda e eu no meio.

    — Você ainda assistindo muito Houndoom-Doo em casa – ironizou a garota.

    O trio se separou.

     

    Hilda caminhava pelo corredor prestando atenção em alguns quadros, curiosa como o mesmo mundo era visto de forma diferente por diversos olhos de artistas de várias épocas. Quadros que contavam indiretamente a história de Unova com acontecimentos marcantes e pessoas importantes. Um dos que mais chamou a sua atenção foi uma pintura de Clara, a Princesa Branca. Era diferente da pintura da biblioteca de Striaton e mais parecida com a figura de seus sonhos.

    O artista era muito bom, já que conseguia transmitir a seriedade e a intensidade do olhar da monarca com perfeição que até deixou a garota intimidada. A pose ereta sentada em um trono de ouro refletia toda a realeza que um dia governara a terra de Unova com orgulho.

    — Sempre me chamaram de carrancuda por causa do meu jeito de governar – comentou Clara, surgindo depois de muito tempo. – Mas muita gente me achava mais atraente e bonita por causa disso – ela suspirou, como se quisesse desabafar. – Um bando de mentirosos.

    — Bom te ouvir de volta – Hilda comentou baixinho. – Achamos um fragmento e estamos à procura de outro agora.

    — Eu sei – disse, meio convencida. – Eu sempre estou aqui, só não tenho paciência pra ficar falando.

    — Poderia nos ajudar a encontrar.

    — Eu ajudo, se você consegue sentir a presença dos fragmentos é por minha causa.

    — Sempre bom falar com você – ironizou a menina.

    Clara suspirou.

    — Desculpa, eu não sou boa pra lidar com pessoas. E não é por mal – continuou a princesa. – Vocês são sortudos de viver numa época onde é fácil mostrar a verdade.

    — As pessoas ainda mentem muito, Clara – refletiu a jovem. – Elas usam o que chamamos de internet para se esconderem atrás de fotos editadas e atacarem outras pessoas.

    — Ainda assim, vocês conseguem desmascarar em poucos minutos. Na minha época, uma mentira podia ser levada por anos, e isso destrói a sua vida – e suspirou. – É por isso que eu sigo fielmente o princípio da verdade, não quero pessoas iludidas.

    — Fala como se já tivesse sido iludida por algo ou alguém.

    A princesa permaneceu alguns minutos em silêncio.

    — Você lê mentes?

    — Bom, você vive dentro de mim, eu logo acabaria adivinhando – riu a menina.

    — É uma história de um triângulo amoroso. Eu, meu irmão e um homem – começou Clara. – Esse homem, um lorde, era o amor da minha vida. Como um conto de fadas, eu queria o meu felizes para sempre num casamento. Mas ele sempre pareceu distante, como se nunca tivesse satisfeito, mas para mim, aquilo era só uma insegurança boba – ela riu, pela primeira vez.

    Hilda se questionou como conseguiam achar Clara uma pessoa tão séria. Chegava a ser fofo o modo como ela contava sobre sua história de amor.

    — E o que aconteceu?

    — Uma semana antes de nosso casamento, ele simplesmente sumiu e foi dado como morto.

    — Quando foi que essa história ficou tão trágica? – questionou, assustada.

    — Acho que dois anos se passaram e eu me casei com outra pessoa. Dias depois, como se surgisse dos mortos, o meu amado retorna e com uma confissão que me deixou furiosa. Eric e ele tinham forjado tudo aquilo com a desculpa de que queriam ficar juntos. O meu primeiro amor foi o primeiro amor do meu irmão.

    — Isso parece uma novela – comentou Hilda, ainda sem saber como opinar. A voz de Clara tinha assumido um tom mais sério e ela não parecia lamentar.

    — Depois desse dia, eu percebi que a verdade sempre deve ser dita, e tornei isso minha bandeira.

    — Transformou seu conflito amoroso com o seu irmão em uma bandeira política? – a jovem franziu a testa.

    — Você não entenderia, garota, são outros tempos! – enfezou-se a princesa. – Não era tão fácil...

    — Olha, eu entendo que não foi legal da parte do seu irmão roubar o seu futuro marido – começou Hilda. – Eu até compreendo que ele devia ter te confessado a real e vocês se ajeitassem sem muitos teatros. Mas não acho que tornar tudo tão extremo seja o correto.

    Clara suspirou. Não se sabia se era de decepção ou de alívio.

    — Você é tão nova pra entender...

    — Obrigada por me contar mais sobre você. Isso foi incrível – consolou a garota, com sinceridade. – De verdade, mas a gente realmente precisa procurar aquele fragmento, e eu tô morrendo de medo de alguém aparecer e me taxar de louca.

    — Eu não iria te defender, já aviso – riu a princesa.

    — Ah, muito obrigada pela amizade – ironizou a outra, retomando seu caminho pelo longo corredor.

     

    Hilbert se sentia um verdadeiro detetive, olhando em cada canto possível, ainda que o que procurasse não fosse exatamente algo que poderia se esconder facilmente em qualquer espaço, ainda assim, não queria perder a diversão do momento. Notou a presença de uma figura curiosa em um dos corredores vazios. Um palhaço. Completamente uniformizado com as roupas típicas da profissão, largas e coloridas. Ele não esquecera nenhum detalhe, isso incluía a clássica peruca e a exagerada maquiagem, ele notou Hilbert também e arqueou dramaticamente as sobrancelhas.

    — Oh, olá – o treinador se aproximou, estranhando um pouco a presença do rapaz, talvez ele estivesse em busca de alguma inspiração. – Pode me ajudar? Tô procurando um homem de blusa preta, ele usava um brinco e uma das orelhas, cabelos escuros.

    Mas não houve resposta, o palhaço só inclinou a cabeça levemente para o lado, se fingindo de desentendido.

    — Ué, você é surdo? – questionou o garoto. Em inocência, ele tentou mudar a forma de se comunicar, falando mais alto. – VOCÊ VIU UM HOMEM DE BLUSA PRETA? COM BRINCO!

    O palhaço cobriu as orelhas, incomodado com o barulho alto. Hilbert tentava decifrar qual era a daquela figura misteriosa, mas percebeu que não conseguiria arrancar nada daquele sujeito e resolveu seguir seu caminho. Porém, apesar dos desentendimentos, o palhaço bloqueou seu caminho, como se pedisse para o garoto ficar.

    — Cara, qual é a sua, hein? – o treinador começou a perder a paciência, mas logo notou que o artista tentava se comunicar com ele através de mímicas, fazendo gestos exagerados como se tentasse contar algo para o treinador. Como um verdadeiro artista profissional, seus movimentos pareciam dizer palavras como “mel”, “Combee” e “parede”, essa última palavra, sendo praticamente desenhada no ar com os braços e mãos. O jeito que ele encenou era tão real que o homem tratava aquela parede imaginária como sólida.

    Hilbert continuava a observar tudo completamente confuso. Apesar de ter entendido, não conseguia achar conexão entre tudo. Tentou contornar a situação se despedindo do rapaz, pois estava perdendo seu tempo e se desviando do seu objetivo inicial.

    — M-moço, eu preciso ir – disse o garoto, acenando de leve. – O-Obrigado pela ajuda.

    Mas o mímico parecia insistir em contar sua história para o garoto, inclusive lhe alertando de sua parede imaginária. O treinador acenou de leve, estava perdendo a paciência, a gota d’água foi quando o palhaço lhe agarrou o braço.

    — Cara! Já disse que não tenho tempo pra isso! – ele se desvencilhou com certa brutalidade do artista e resolveu correr, mas deu de cara com algo.

    Naquela hora, Hilbert aprendeu o poder que a parede imaginária de um mímico tem. “Convidado” a ficar, ele se atentou a história do rapaz.

     

    Jackson parecia estar com um pouco mais de sorte que seus colegas, não passara cinco minutos quando encontrou seu alvo de procura. O jovem adulto estava prestes a entrar em uma sala que advertia ser do Staff, o que indicava que provavelmente não estava apenas para uma simples visita para admirar obras. Seria ele apenas um simples funcionário ou algum gerente?

    Quando ele girou a maçaneta, o arqueólogo correu para impedir, chamando mais atenção do que deveria, e isso o deixou um pouco envergonhado.

    — Espera! – ele correu em direção ao de brinco. – Senhor, p-posso falar com você?

    O rapaz parou, um pouco assustado e olhou para o jovem. Antes que pudesse responder, Jack continuou a falar, reconhecendo a figura que perseguiam.

    — Chansol? – começou. – Chansol Park? – ele pareceu admirado.

    — Por favor, use apenas Park – respondeu o rapaz, incomodado com tanta intimidade, como se fosse cultural que seu nome fosse apenas dito por pessoas extremamente próximas.

    — Sinto muito – o de cabelos escuros corrigiu sua postura. – É que, nos encontramos algumas vezes antes. Meu nome é Jackson Petrie, sou sobrinho da líder de ginásio de Nacrene, Lenora. Fomos aos mesmos eventos, mas não tive a oportunidade de conversar com você.

    — Oh, entendo – respondeu Chansol, observando o garoto. – De toda forma, como posso te ajudar?

    — É sobre o brinco que está usando – explicou Jackson. – No caso, o pingente dele.

    Nesse momento, Hilda apareceu, apesar de sua sensibilidade perante a presença dos fragmentos da Light Stone ainda ser inconsistente, ela estava começando a aprender como identifica-la com mais precisão. Viu Jack e seu alvo conversando e logo se aproximou correndo para ajudar.

    — Que bom que achou ele, Jack – disse a garota, observando aquele minúsculo fragmento. Como algo tão pequeno podia dar tanto trabalho?

    — Desculpe, não estou entendo o que está acontecendo – disse o de blusa preta. – Qual o problema com o pingente do meu brinco?

    — Antes de tudo – o arqueólogo tomou a palavra. – Hilda, esse é Chansol Park, ele é o diretor do Museu de Arte de Castelia City.

    — Oh – admirou-se a garota. Já tinha ouvido falar sobre, mas em sua mente, sempre achou se tratar de uma pessoa mais velha. – É um prazer. Não queremos incomodar, é só que... – ela precisou refletir um pouco antes de explicar. – Precisamos do pingente no seu brinco.

    Recuando, Park cobriu seu objeto precioso, receoso em achar que se tratava de um assalto. Voltou a colocar a mão na maçaneta, pronto para correr, mas Jackson foi o primeiro a notar.

    — Espere! Não nos entenda mal, é que esse pingente é algo do nosso interesse, podemos negociar – disse, com calma.

    — Eu realmente preciso ir – intimidado, Chansol abriu a porta do Staff, mas dessa vez, Hilbert finalmente apareceu. Completamente desinformado da situação, não perdeu tempo em fazer alarde.

    — PEGA ELE! ELE VAI FUGIR! – berrou o treinador, correndo em direção do rapaz.

    — HILBERT, PARA! – Hilda foi a primeira a reagir, agarrando o garoto pela gola da blusa e fazendo-o parar de forma abrupta. – Dá pra colaborar?!

    A gritaria pareceu chamar a atenção dentro da sala, logo, um homem trajado com uniforme de segurança surgiu do ambiente, com uma expressão impaciente.

    — Em que posso ajudar, senhor Park? – questionou ele para o diretor. – Essas crianças estão te incomodando?

    — Apenas me assustando – respondeu.

    — Devo tirar eles daqui?

    — Não! Pera aí! – Jackson estendeu a mão, pedindo uma chance para falar. – Como conseguiu esse pingente no seu brinco, senhor?

    — Se queriam saber isso, podiam ter me perguntado antes – suspirou o homem, um pouco mais confiante. – Mas infelizmente, não sei se vão conseguir adquirir um. Eu ganhei do meu marido, e ele disse ser uma peça única.

    — Marido? Tá querendo dizer...? – o arqueólogo não conseguiu completar sua frase quando mais uma pessoa saiu da sala do Staff, dessa vez, alguém que realmente chamava a atenção.

    Alto e esguio, o homem que apareceu andava com naipe de artista, e não era por menos, suas roupas denunciavam um estilo alternativo, seus cabelos volumosos castanhos claros trajavam com uma pele clara e olhos verdes. Um cachecol estiloso de cor rosa enfeitava seu pescoço, uma camisa em gola V bem decotada preenchia o torso, nas pernas, uma calça listrada com tons de verde, rosa e preto, e por fim, um par de mule masculino completava o estilo do homem. Estavam de frente daquele que era o objetivo de Hilbert naquela cidade.



    — Burgh – apresentou-se, por fim, mesmo que a maioria dos presentes já sabia. – Líder de Ginásio de Castelia City e, perdoem a modéstia, um excelente artista e pintor.

    — Uau! – o treinador não conteve sua admiração. – Que sorte! Meu nome é Hilbert e eu estou em busca da minha terceira insígnia! – anunciou, como de costume.

    — Um treinador? – sorriu o líder, com as mãos na cintura. – Mas tenho certeza que a gritaria não foi exatamente por isso.

    Hilda deu um passo à frente.

    — P-pedimos desculpas – disse. – É que... Temos perguntas sobre o pingente do brinco do seu marido.

    Burgh olhou para Chansol. Era notável que o rapaz era mais novo que o líder. Arqueando as sobrancelhas, ele observou seu marido dar de ombros, como se também não estivesse entendendo nada. Cruzou os braços, analisou as três figuras e indicou com o cabeça para que o seguissem.

    — Vamos para minha sala – disse, tomando a frente.

    A sala de Burgh tinha multifunções. Ela conseguia compartilhar tudo que o líder era. Em um conceito aberto e pé direito alto, as paredes pareciam enormes folhas de sulfite prontas para serem pintadas e rabiscadas. Coisa que o artista parecia ter começado a fazer, já que na direita, as ilustrações de diversos Pokémon do tipo inseto preenchiam os olhos dos visitantes com tamanho talento. No chão de madeira brilhante, linhas indicavam o campo de batalha e ao redor de tudo, armários de madeira maciça com todos os materiais possíveis de pintura estavam organizados, ainda que alguns potes de tinta que tinham um cheiro marcante, estivessem abertos próximos a um cavalete onde provavelmente Burgh estava trabalhando em um novo projeto de pintura.

    — Caraca, esse lugar é enorme! – comentou Hilbert, olhando para todos os detalhes como uma criança em um parque de diversão. – Foi você que fez tudo isso? – questionou, apontando para a parede pintada.

    — É um projeto trabalhoso que comecei – respondeu o homem, parando ao lado do garoto. – Estou indo aos poucos. Basicamente quero tentar retratar todos os Pokémon do tipo Inseto que eu já vi pessoalmente e um dia lotar essa parede experiências.

    — Por que os insetos? – questionou novamente o menino, ainda curioso.

    — Todos os insetos são pequenos artistas – Burgh procurou em sua mente algo poético para responder. – Assim como na pintura, tudo é um aglomerado de pequenos detalhes que formam algo maior. Os fios de seda de uma Spinarak tecendo sua enorme teia com linhas e formatos geométricos, os buracos deixados nas folhas por Sewaddle, a forma como um Caterpie molda seu casulo para virar um Metapod, e como esse se abre lentamente para se tornar uma bela Butterfree – o líder continuou a sorrir, deixando os outros reflexivos.

    — Isso foi... inspirador – comentou Hilbert por fim. Apesar de tantas desvantagens em questões competitivas, tinha que admitir que aquela tipagem podia dar dor de cabeça nas mãos certas. Pensou também se Mushi, seu recém capturado Venipede, seria um desses poderosos Pokémon.

    — Mas vamos parar de falar de mim – continuou, voltando-se para Hilda e Jackson também. – Agora quero entender a história da gritaria e qual é o interesse no brinco de Chansol.

    — Provavelmente já deve ter ouvido falar da Light Stone e da Dark Stone, certo? – questionou o arqueólogo.

    — Chegou os boatos de que as existências das duas tinham sido comprovadas – respondeu o líder, pensativo. – O que tem elas?

    — A Dark foi roubada por uma equipe conhecida como Team Plasma. Já a Light Stone veio parar em minhas mãos.

    Jack foi íntegro e sério com suas explicações, relatou como encontrou tal objeto, os motivos dele manter em segredo, o encontro com Hilbert e Hilda, o roubo, o resgate e por fim, a destruição. A garota contou também sobre sua habilidade de sentir a presença dos fragmentos e toda sua relação com a Princesa Branca. Durante a explicação, o líder de Castelia e o diretor do museu trocaram vários olhares, desconfiados.

    — E assim chegamos no dia de hoje – disse Hilda. – O pingente no seu brinco é um fragmento da Light Stone.

    — E estamos extremamente curiosos em saber como conseguiu esse fragmento – completou Jackson. – Chansol – ele pigarreou. – Digo... O senhor Park disse que deu a ele de presente. Isso foi comprado?

    — E também queremos o fragmento! – complementou Hilbert, determinado.

    Burgh ergueu as mãos, pedindo um tempo para raciocinar tantos pedidos.

    — É muita informação... Inacreditável – comentou. – Não sei se consigo processar. Podemos fingir que vocês estão brincando com isso?

    — Mas é verdade! – exclamou Hilda, desesperada.

    Jack colocou a mão sobre o ombro da amiga.

    — Fica calma, Hilda. Eles estão no direito de não acreditar. Desespero não vai ajudar em nada – acalmou o arqueólogo. – Sobre o pingente? Como conseguiu ele?

    — Eu comprei de uma artesã há uns dias atrás em Driftveil – respondeu. – Ela me disse que era só uma pedra de positividade. Já que Chansol é bem conectado à essas coisas, achei que seria um bom presente.

    — E-Ela tinha mais desses pra vender?

    — Era uma peça única que ela vendeu por um preço bem alto – continuou a responder, fazendo uma certa careta ao se lembrar do preço.

    — Então a gente compra de você! – ofereceu Hilbert.

    Os outros quatro olharam incrédulos para o treinador.

    — Vamos? – questionou Jack, confuso.

    — No caso, a Hilda vai – o menino colocou as mãos nas costas da amiga. – É só dar o seu valor e ela paga tudinho.

    — Que história é essa, Hilbert Autevielle? – a garota encarou o outro ao seu lado, com certa raiva. – Tô com cara de banco?

    — Sim – respondeu, direto. – Ah, qual é, você tem dinheiro.

    — Eu teria mais se alguém não tivesse torrado minha grana em Accumula!

    — ... Você não tem mais?

    — É claro que não!

    — Aff. Ninguém mandou gastar tudo feito uma louca.

    A paciência da garota estourou e ela agarrou as duas orelhas do menino.

    — EU VOU TE VENDER PARA O CIRCO E USAR O DINHEIRO QUE GANHAR PRA COMPRAR ESSE BRINCO! – berrou. – SE BEM QUE NÃO PAGARIAM MAIS DE DOIS POKÉDÓLARES POR VOCÊ!

    Aos prantos, o pobre jovem respondeu:

    — Se você vender o Vic junto talvez consiga uns quatro – choramingou. – Por favor, tenha piedade das minhas orelhas!

    — Isso vai dar namoro ainda – debochou Jackson, com as mãos no quadril.

    Hilda encarou o arqueólogo e ele jurou ver uma aura demoníaca saindo do corpo da garota pronta para dominar a sua alma.

    — Isso, Hilda, puxa a orelha dele também! – exclamou Hilbert, se livrando da amiga.

    — Pera aí! Foi só uma brincadeira! – o jovem recuou drasticamente que mal teve tempo de impedir a colisão das suas costas com umas das estantes que comportavam alguns livros que acabaram caindo, fazendo um barulho estrondoso que ecoou pela enorme sala. – Ah, meu Arceus, desculpa.

    — Ok, ok, ok! – Burgh se aproximou e encerrou a discussão. – Chega! – ele elevou a voz, quase tendo um ataque em ver a bagunça. Extremamente organizado e perfeccionista com suas coisas, ver algo fora do lugar era quase com um tapa em sua cara. – Se querem brincar, brigar ou sei lá o quê, façam isso fora do meu ginásio – ele usou seu indicador para apontar em direção a saída, como um gesto de expulsão.

    — Senhor Burgh, por favor, nos dê mais uma chance – implorou Hilda. – É importante para a gente esse objeto.

    — Eu não vou tolerar nem mais cinco minutos de histórias mirabolantes – bronqueou o mais velho. – Não terão o brinco! Por favor, saiam!

    A garota abaixou a cabeça. Jackson se aproximou dela e a convenceu com um toque leve nas costas a saírem. Hilbert observou a expressão triste da amiga em absoluto silêncio, sentiu certa pena e até mesmo indignação em vê-la daquele jeito, mas seguiu sem maiores alardes. Os três atravessaram a porta principal que levava ao museu e desapareceram corredores afora.

    O líder de ginásio recolhia alguns livros quando Chansol se aproximou.

    — Eu já te contei sobre Junsei Kurosawa, né? – questionou para o marido.

    — É impossível não conhecer ele, Chansol – respondeu o outro, guardando os objetos de volta em seus lugares. – As ilustrações dele estão em todos os lugares. Principalmente nos livros de fantasia.

    — Ele fazia parte de uma família que há muito tempo atrás saíram de Unova para morarem em Johto – continuou o diretor, como se não se importasse muito com a resposta ríspida do outro. – Coincidentemente, os Kurosawa e os Park são parentes distantes, então eu ouvi muitas histórias sobre as duas esferas. Eu posso ser meio intuitivo e acreditar em besteiras, Burgh, mas de uma certeza eu tenho: Dark e Light Stone nunca foram apenas ilustrações ou história de um novelista.

    — Vai entregar o seu brinco e se deixar levar na história de crianças? – questionou Burgh.

    — Acho que a atmosfera séria de Castelia está fazendo mal para o seu espírito de artista – riu Chansol. – Não vou entregar de mão beijada, mas também não desacredito.

    Antes que a conversa continuasse, Hilbert voltou correndo, levemente ofegante. Ele encarou o líder do tipo inseto e apontou com o indicador para ele.

    — Eu não quero nem saber se você acredita na gente ou não – começou o treinador. – Mas você deixou a Hilda triste e eu vou conseguir esse brinco queiram vocês ou não!

    — O que vai fazer? Roubar da gente?

    — Se fosse Casteliacones, talvez – refletiu, colocando a mão no queixo. Logo, ele sacudiu a cabeça e voltou a falar: - Mas não! Eu tenho uma proposta. Teremos uma batalha de ginásio, se eu ganhar, você me dá a insígnia e o fragmento da Light Stone.

    — E se eu ganhar?

    O treinador parou por alguns minutos para refletir. O que tinha para oferecer? Pensou na coisa mais preciosa que tinha para ele naquele momento.

    — Minhas insígnias. Se você ganhar, eu te dou as duas insígnias que tenho – o garoto exibiu a case onde suas conquistas em Striaton e Nacrene estavam depositadas.

    Burgh analisou a proposta inocente daquele treinador e sorriu, sem deboche.

    — Amanhã de manhã?

    — Combinado!

     


    — VOCÊ O QUÊ?! – exclamou Hilda, no caminho de casa.

    — Minhas insígnias. Foi a primeira coisa que consegui pensar pra oferecer – explicou Hilbert. – Mas olha, pelo menos ele aceitou nos dar o brinco e a minha insígnia se eu ganhar.

    A garota, que caminhava ao lado dele, encarou o menino com certa desconfiança.

    — E você já tem uma estratégia de batalha pronta?

    — Nenhuma.

    Ela retirou o celular de seu bolso do short e começou a pesquisar algo.

    — O que tá fazendo? – questionou o amigo, curioso.

    — Pesquisando quanto custa uma passagem pra Striaton. Parece que vamos ter que colocar saia em você de novo e pegar insígnias do zero.

    Hilbert fez bico.

    — Que falta de confiança é essa, Hilda?!

    — COMO VOCÊ ME APOSTA DUAS COISAS QUE FORAM DÍFICEIS DE CONSEGUIR E IMPORTANTES PARA VOCÊ POR CAUSA DE UM BRINCO?!

    — PORQUE AQUILO É IMPORTANTE PRA VOCÊ! – berrou o garoto de volta, encarando a outra de perto.

    Ela, por sua vez, fez silêncio. E corou. Sentiu-se envergonhada por duvidar do amigo, mas também feliz em ver tamanha dedicação. Lotada de timidez, ela apenas segurou a manga da jaqueta azul do garoto e disse, baixinho:

    — Obrigada.

    Jackson, que andava logo atrás dos dois, observava a cena.

    — Acho que tô segurando vela – murmurou.


    Enquanto isso, Vic e Oliver pareciam estar com problemas alheios.

    O Pokémon vitória se deliciava de um Casteliacone ao lado de uma caixa cheia deles enquanto encarava com certo deboche o garoto sentado na poltrona próxima.

    Que cara é essa, Oliver, querido? – perguntou o Pokémon, em provocação.

    — Cara, eu não sei onde eu tava com a cabeça quando topei apostar uma corrida com um Pokémon que VOA! – respondeu o menino. – Acabei com toda a minha mesada.

    Se você admitir que eu sou incrível, eu até divido eles com você.

    No auge de inocência com seus oito anos, Oliver sorriu e se aproximou da criatura, faminto por um sorvete.

    — Você é o melhor, Vic! – exclamou.

    O Victini começou a gargalhar, mas sentiu pena do garoto.

    Não precisa de tudo isso, cara – o Pokémon pegou uma das sobremesas geladas e deu para seu amigo humano. – Obrigado pelos Casteliacones, dá até um alivio comer eles sem ter que roubar.

    — Pra falar a verdade – começou o menino, comendo. – A gente comprou muito, não?

    Nunca é demais.

    — É que eu não sei se dá pra esconder no congelador, e fora de lá, isso daqui vai derreter tudo.

    E quem disse que vai sobrar? Estamos em dois, é só comer tudo.

    — Tá falando sério? – os olhos de Oliver brilharam, era um sonho de infância.

    Tu tá recebendo a autorização de um adulto aqui para acabar com tudo isso! ­– brincou Vic.

    — OBA! – comemorou o garoto. – Obrigado, tio Vic, você é o melhor! Nunca que papai e mamãe deixariam eu comer tanto sorvete assim.

    O Victini riu com certo medo, coçou o nariz de leve e deu de ombros. Depois, só soltou com voz baixa enquanto alcançava outro Casteliacone.

    Não repitam isso em casa, crianças. 

       


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