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quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Capítulo 2

Todos Olham Para Mim Como um Monstro

“Now they're screaming that they hate me” — Taylor Swift (Castles Crumbling)

Aquela garota era peculiar. A personalidade, a postura exageradamente confiante e as reclamações. Não estava acostumado a encontrar aquele tipo de gente, já que os esquisitos da cidade grande raramente perdiam tempo com caipiras como ele, pelo menos era o que diziam em Accumula. Ainda assim, depois de agir por puro impulso, lá estava ele observando a garota outra vez.

De cima do velho carvalho, Hilbert escolheu os galhos mais altos como assento enquanto olhava para baixo de tempos em tempos. A menina exigente da barraca de bebidas agora dormia encostada no tronco, largada ao relento. Era estranho. Algumas horas antes ela parecia o tipo de pessoa que reclamaria até da direção do vento, mas agora parecia… pequena.

Ele desviou o olhar para a cidade de Accumula a sua frente. Mesmo ao entardecer, a cidade ainda fervia em rumores sobre o grupo estranho que invadira o festival, seu discurso e o suposto assassinato que encerrara a Accumula Summer Market em caos.

O garoto não tinha entendido toda a sequência de eventos. Só lembrava de estar terminando de organizar algumas caixas quando ouviu gritos, viu fumaça e correria por todo os lados. Depois, no meio da multidão agitada, reconheceu o rosto da garota que mais cedo lhe dera uma quantidade absurda de dinheiro, algo que ele preferiu encarar como uma gorjeta muito generosa e não uma tentativa maluca de humilhação.

Quando conseguiu se aproximar, encontrou Hilda parada ao lado de um corpo, coberta de sague e medo, rodeada por uma população curiosa que exigia respostas, prontas para engolir a menina.

Então ele agiu.

Talvez porque Hilda tivesse lhe feito um favor, talvez porque, naquela situação, ninguém parecesse disposto a ouvir suas explicações ou talvez porque ela parecesse completamente perdida. No fim, Hilbert não precisava de uma grande justificativa para ajudá-la. Sua mãe costumava dizer que uma mão lava a outra.

— Putz, esqueci de pegar meu salário... — Hilbert estapeou de leve a própria testa.

— E, pra variar, esqueceu do meu almoço. — O murmúrio revoltado saiu de dentro da bolsa carteira azul acinzentada e surrada do adolescente.

Ele tratou a situação com normalidade, alcançando o zíper e abriu o acessório de moda, encarando a criatura lá dentro.

— O motivo de eu viver precisando de dinheiro é toda sua, Vic — retrucou Hilbert. Ele acompanhou com os olhos o Pokémon alçar voo e pousar em seu joelho. — Onde cabe tanta comida em um corpo desse tamanho?

Viver dentro da mochila de um adolescente que tinha uma rotina de banho questionável não era o esperado para um Pokémon Mítico. Vic era só um apelido curto que referenciava sua própria espécie: Victini.

O Pokémon, que se assemelhava a um esquisito coelho bípede tinha uma pelagem de cor creme que só servia para destacar seus enormes olhos azulados. Suas orelhas se assemelhavam a um formato de um V gigante laranja. Possuía asas atrofiadas no quadril que lhe permitiam voar — ou flutuar.

Victini
Arte por Mitsuhiro Arita

Nos livros de história e nas Pokédex, era dito que Victini traria vitória para quem o tivesse por perto. Coisa que a dupla não tinha há um bom tempo.

—Não posso me culpar pelos humanos terem uma variedade enorme de comidas gostosas — Vic deu de ombros.

— Da próxima vez, veste uma roupinha e faça umas gracinhas pras pessoas em troca de dinheiro — sugeriu Hilbert. — Ou sei lá, bota esse teu poder de vitória pra funcionar.

—Meu poder não é fazer brotar dinheiro. O nome que você tá procurando é Pay Day — apontou Vic. — E eu vi que você ganhou uma grana daora mais cedo. Não precisa me agradecer pela “boa sorte” que eu te trouxe. É só me comprar aqueles negócios gelados torcidos!

—Casteliacone fora de Castelia é absurdo de caro — respondeu o jovem. — Tenho que guardar esse dinheiro pra sobreviver até o ginásio de Striation. Ou seja, até lá, se acostume com ração.

—Mão de Miltank! — resmungou Vic.

Hilbert balançou a cabeça, rindo de inconformidade. Admirou um pouco o pôr-do-sol no horizonte quando seus instintos o alertaram de algo abaixo dele: Hilda estava acordando.

Vic notou a urgência do treinador e voltou para a bolsa. Hilbert agarrou a garrafa do chá da tenda que trabalhara mais cedo e, com habilidade, pulou do galho e caiu em pé, como um Purrloin.

Ele agachou-se na frente da modelo e a encarou com curiosidade. Mesmo naquele estado, ainda parecia alguém que pertencia a capas de revista e outdoors gigantes. A pele aparentava ser perfeita, as unhas eram decoradas até demais e ela tinha um cheiro doce que lembrava aquelas lojas caras de shopping.

Querendo acelerar o processo de despertar da garota, ele encostou o chá gelado no pescoço da modelo que despertou de vez num pulo.

— E aí, moça... — disse, estendendo a bebida. — Tá calor, né? Toma um Pecha Summer Tea pra refrescar.

Hilda encarou o garoto, confusa.

— O-o quê?!

Hilbert se pôs de pé.

— Uma multidão quase te engoliu lá fora — explicou. — Mas eu te salvei. Considere como uma retribuição pela gorjeta.

A modelo olhou em volta. Aos poucos sua memória foi lhe recordando dos fatos, ainda que confusos, e seus sentidos logo a contextualizaram do local que estava. O cheiro dos carvalhos a sua volta intensificados pela estação a deixavam enjoada, sempre odiou perfumes amadeirados por isso. O som de civilização estava um pouco distante, o que indicava que estava mais para fora da cidade. Ela procurou com os olhos alguma informação, mas terminou pousando-os em Hilbert.

O jovem tombou a cabeça, intrigado.

— Hã... — ele pensou. — Cê tem algum lugar seguro pra ir?

— Meu trailer, eu acho — ela respondeu, ainda que em dúvida.

— Certeza de que quer voltar pra lá? — questionou o garoto. — Tem um monte de gente naquela praça ainda. Sem querer ofender, mas sua aparência tá horrível e a polícia provavelmente vai querer falar contigo.

— P-Polícia? — Hilda sentiu o estômago gelar.

O garoto franziu a sobrancelha, finalmente percebendo o tamanho do choque dela.

— Você realmente não lembra de nada, né?

Hilbert estendeu a mão, oferecendo ajuda para colocar Hilda de pé. A modelo levantou uma das mãos para alcançar, mas quando viu o sangue seco com cascas de árvore e folhagens grudadas na palma de sua mão, sentiu seu coração acelerar.

Seu olhar se esvaziou, suas mãos gelaram e uma sensação de desconforto tomou conta se seu corpo, fazendo ela abraçar o próprio corpo. Agora se lembrava: Clara estava morta.

Hilbert sentou-se na sua frente, remexendo a bolsa. Ele tirou um cantil de alumínio e gentilmente pegou uma das mãos da modelo que ainda tremia de pavor. O treinador abriu o recipiente com a boca e inclinou suavemente, deixando que a água escorresse e levasse o sangue e a sujeira, junto do que provavelmente era o último resquício vivo de Clara. Ele fez o mesmo com a outra mão.

— Realmente não tem nenhum lugar que você possa ir? — ele voltou a perguntar, preocupado em ter que se responsabilizar pelos cuidados daquela garota. — Você não tá em condição de encarar uma multidão.

O menino guardou o cantil de volta na bolsa.

— Accumula não parece segura. E você também não pode passar a noite na estrada. — Ele analisou as possibilidades. — Tem o distrito de Nuvema, mas fica quase uma hora daqui andando.

Hilda pareceu lembrar de algo enquanto massageava as próprias mãos.

— ... Bianca.

— Quem?

— Minha amiga, Bianca. Ela mora em Nuvema.

Com um destino em mente, Hilbert ajudou Hilda a se levantar, fazendo modelo gemer baixo de dor. A bota country começava a apertar seus dedos e a sensação térmica dava sinais de que iria cair, mesmo no verão. Por fim, engoliu as reclamações e seguiu o treinador.

Hilbert chutou algumas pedrinhas do asfalto que aos poucos ia sumindo para dar lugar a uma estrada de terra de chão batido. Ali ele sabia que estavam na Rota 1. Uma estrada rural tranquila que atravessava fazendas familiares, bosques e campos, e que conectava a Accumula ao seu distrito costeiro, Nuvema.

Luzes dos postes espaçados começaram a se acender, banhando a estrada com brilho branco do LED. Os adolescentes resolveram apertar um pouco o passo. Apesar do horário, aquela região não era conhecida por Pokémon selvagens perigosos, já que maioria eram pequenos predadores inofensivos de hábitos diurnos que se arriscavam a aparecer nas beiras das estradas, como Lillipup e Patrat. O resto vivia no fundo dos bosques, bem longe do contato humano.

Hilbert caminhava na frente e logo já avistava as primeiras construções de Nuvema. Ele olhou por cima do ombro para garantir que Hilda o seguia, encontrando a adolescente em silêncio com os ombros encolhidos.

Ele parou e a modelo trombou em suas costas.

— Tá com frio? — Hilbert perguntou.

— Tô de boa — respondeu.

O jovem desamarrou de sua cintura uma jaqueta azul surrada e velha e a jogou por cima dos ombros da menina que fez uma careta, estranhando o gesto. Ela o encarou com as sobrancelhas arqueadas, Hilbert notou e deu de ombros. A modelo revirou os olhos e resolveu aceitar, pelo menos era quentinha.

— Estamos quase chegando — informou o garoto, tentando amenizar o clima.

E não demorou muito para que a estrada de terra voltasse a ser preenchia por pedregulhos, indicando o começo de uma nova área urbana.

Era por volta das sete da noite e o distrito de Nuvema já se demonstrava mais recluso, típico das cidades do interior. A principal e única avenida estava vazia e os postes de luz piscavam de vez em quando. Era quase um cenário pós apocalíptico, mas sem os mortos vivos, na verdade, Hilbert até teve sorte de localizar uma pessoa.

Um homem de meia idade que terminava de trancar a porta de um restaurante de beira de estrada que provavelmente lhe pertencia. O treinador segurou o pulso de Hilda e se aproximou.

O dono do estabelecimento estranhou a movimentação e chegou a levar a mão a uma Pokéball presa ao cinto, mas relaxou quando notou que eram apenas duas crianças perdidas.

Hilbert pediu instruções e o homem riu de forma exagerada quando Hilda lhe informou o sobrenome de Bianca.

— Os Rosewoods são meus vizinhos — ele informou, numa feliz coincidência. — Venham, eu dou uma carona para vocês.

Hilbert parecia confortável, mas era uma lógica estranha para Hilda: se alguém era confiável para um conhecido, então provavelmente era confiável para ele também.

O motor do velho carro era barulhento e os bancos desconfortáveis, mas com certeza melhor do que continuar andar com os pés estavam quase lhe matando de dor. Hilda olhou a paisagem da pacata cidade pela janela. Aquele cenário lhe era familiar, mas não parecia o mesmo devido a sua própria situação psicológica.

Bianca morava numa das últimas ruas perto das docas e da pequena praia. Era uma casa antiga de dois andares, não era única, já que as casas vizinhas eram praticamente iguais, sendo diferenciadas pelas decorações do jardim da frente.

Hilda acompanhou o homem que lhe oferecera carona pelo ladrilho de pedras até a porta da frente.

Após a campainha ser tocada, a porta não demorou muito para ser atendida. A mulher que apareceu tinha um olhar gentil e levemente cansado. Hilda a reconheceu como a mãe de Bianca, que logo também notou a presença da modelo e sorriu, surpresa.

— Bianca! — anunciou a mulher. — Tem visita pra você!

Hilda ouviu os passos desajeitados descendo as escadas, típicos de Bianca. A garota, da mesma idade da modelo, esboçou um sorriso exagerado enquanto suas bochechas esmagaram os olhos esmeraldas e seu cabelo loiro volumoso e curto esvoaçou quando ela correu para abraçar a amiga de infância.

— Hilda! — disse Bianca. Seu cabelo ainda cheirava ao shampoo de morango de sempre.

Hilda retribuiu.

— É bom te ver de novo, Bianca.

O homem que trouxera a modelo explicou em seguida:

— Essa daqui veio até mim lá perto do meu restaurante. Ela estava procurando pela Bianca e aí eu trouxe pra cá. Ela e um outro garoto.

Ele se virou para a rua e olhou em volta.

— Ué, cadê o menino?

Hilda ficou surpresa com a constatação e olhou para trás. Não havia sinal do boné vermelho, apenas uma rua vazia.

— Foi embora? — perguntou, só para confirmar.

Pensando bem, aquilo era exatamente o tipo de coisa que ele faria. O garoto aparecia do nada, a arrastava para longe de uma multidão furiosa, oferecia chá e limpava suas mãos como se aquilo resolvesse traumas e desaparecia sem se despedir. Ela deu uma risada com o nariz e só aceitou o destino.

— Obrigada por trazê-la. — A mãe de Bianca mudou o assunto.

O dono do restaurante sinalizou positivo com a mão e voltou para o seu carro e as anfitriãs guiaram Hilda para dentro.

A mãe de Bianca analisou a situação de Hilda e levou a mão ao queixo. É claro que as notícias já começavam a correr e a TV local já passava as primeiras informações sobre os acontecimentos em Accumula, porém, a modelo estava assustada, suja e cansada, ela não precisava de perguntas.

— Minha filha, que tal levar Hilda para um banho e trocar de roupa? — sugeriu a mais velha. — Vou terminar o jantar.

— Tudo bem, mamãe.

Bianca guiou a garota para o segundo andar, com euforia.

O quarto da menina continuava do mesmo jeito que Hilda se lembrava. Bonecas, laços e algumas plantas de fácil manutenção, além de tons de pastéis predominando o local como se fosse um sonho de princesa. A modelo logo fixou o olhar em um porta retrato com uma foto sua ao lado da dona do quarto e um outro amigo, Cheren.

Bianca entregou alguns itens essenciais para o banho junto de uma muda de roupa, onde Hilda logo identificou como um vestido florido, e deu instruções de como lidar com o banheiro da suíte, como mudar a temperatura do chuveiro, por exemplo.

Quando ela girou a tranca da porta do banheiro e virou-se, o ambiente parecia pequeno perto do tamanho da solidão que assolou ela.

Não havia maquiadores, só uma bancada de porcelanato frio. Não havia bastidores, só o som dos pingos da torneira da pia.

Também não havia Clara.

Hilda bateu nas bochechas com as duas mãos, procurando espantar os pensamentos ruins. Começou a se despir e pela primeira vez depois de tudo, conseguiu olhar seu estado. O cabelo estava opaco e embaraçado, a maquiagem escorrida e criando manchas abaixo dos olhos. Havia poeira, suor e arranhões espalhados pela pele.

"Que horror", pensou ela.

Com certa urgência, ela abriu o chuveiro e logo correu para dentro da água quente, focando no que importava naquele momento: Se limpar, pelo menos fisicamente.

Focou nos seus sentidos: No cheiro de morango do shampoo de Bianca, no toque da água escorrendo pelo seu corpo e até mesmo no padrão do azulejo da parede. Mas um banho não era capaz de levar as memórias junto da sujeira.

Primeiro o rosto de Clara, depois o sangue, a faca e o pedido de ajuda. Tão nítido que ela apertou os olhos.

— Não, não, não.

Ela estendeu os braços paralelos um ao outro e encostou as mãos no azulejo úmido da parede e abaixo a cabeça. A água fazia cócegas na sua nuca e arrepiava suas costas.

Tentou afastar aquilo do mesmo jeito que empurrava comentários maldosos na internet. Mas nem aquilo funcionou, até porque, comentários não morriam em seus braços.

Cedendo aos efeitos do trauma, ela mordeu os lábios com um pouco de força. Depois, como uma criança perdida no parque, ela agachou e cobriu a boca com as mãos quando o primeiro soluço veio.

Por fim, aceitou a pressão do seu próprio cérebro e chorou de forma descontrolada, daqueles que fazem o peito doer. Torceu para que o som do chuveiro abafasse o som, ainda que, naquele momento, Hilda não precisava sustentar uma imagem pública.

O pior de tudo era saber que Clara não estaria mais ali para dizer que tudo ficaria bem, como ela sempre fazia. E isso lhe dava medo.

~ ✧ ~

Hilbert espirrou pela terceira vez.

O vento do mar que soprava em direção à praia era gelado, nem mesmo a sua fogueira improvisada era capaz de esquentá-lo. Se ao menos ele estivesse com a sua blusa, mas ela provavelmente estava em uma situação melhor que ele junto de Hilda.

— É a segunda vez que você perde a oportunidade de arranjar comida pra gente — resmungou Vic, flutuando em volta do fogo para se esquentar.

O treinador esfregou as mãos para esquentá-las e não respondeu.

— Qualé, Hilbert, podia pelo menos ter ficado — o Victini continuou a argumentar. — Podia ter ganhado uma cama pra dormir. Ou um ‘obrigado’, pelo menos!

— Não ligo pra essas coisas, Vic — Hilbert finalmente respondeu, tirando algumas berries colhidas da bolsa para comer.

Vic o encarou com desgosto.

— Conta outra. Diga pelo menos que salvou a garota porque achou ela gatona — o Victini provocou. — É bem mais plausível.

O Pokémon notou que o garoto ruborizou um pouco, escondendo o rosto atrás dos joelhos e murmurou entre uma mordida e outra numa Oran Berry.

— Não é por isso — respondeu. — Ela é bonita, talvez mais que bonita. Mas não é por causa disso.

Seu olhar ficou distante enquanto ele encarava o oceano sumir no horizonte. Por um momento ele pensou no passado, mas Vic apenas esboçou curiosidade. O treinador concluiu:

— É apavorante ficar sozinho quando o que mais você precisa é de alguém pra dizer que vai ficar tudo bem.

~ ✧ ~

Hilda dormira bem.

O cansaço do dia anterior esgotara suas energias, tanto que no momento em que se deitara no colchão, apagou completamente, acordando logo pela manhã no dia seguinte.

Ela olhou para o relógio e viu que era um pouco mais de nove horas. Bianca já não estava mais no quarto e o sol banhava o cômodo atravessando a cortina ainda fechada.

Hilda se sentou, coçou os olhos para recobrar a visão e engatinhou em direção do celular que passara a noite carregando. Soltou um murmúrio de descontentamento quando notou que a tela estava trincada, mas ainda era possível ver o display.

Quando acendeu a tela, quase pulou pra trás. Rios de notificações preencheram o pequeno retângulo luminoso, a maioria vindo do aplicativo Pokégram, sua principal rede social, enquanto algumas eram do aplicativo de mensagens.

Ela tentou acessar uma das notificações, mas a foto de um homem em um terno com uma expressão séria e óculos de sol pulou em sua tela. Era Martin Brooks, seu empresário, que estava ligando.

— HILDA! — a modelo quase derrubou o celular com a voz urgente do homem. Se estivesse no viva-voz, o bairro teria escutado. — Finalmente me atendeu!

— Bom dia para você também, Martin — ironizou Hilda, criticando a falta de modos do homem. — Meu celular descarregou.

— Onde você está? — Martin era uma pessoa direta ao ponto. Sua voz não parecia realmente de preocupação, apenas queria garantir que sua cliente seria um problema a menos para resolver.

— Estou em Nuvema — informou Hilda. — Passei a noite na casa de uma amiga.

—Ótimo. Não saia daí.

Aquilo fez a sobrancelha de Hilda arquear.

— E desde quando você manda em mim?

— Eu não mando em você. — A resposta fez Hilda soltar um riso debochado, mas logo em seguida ele completou. — Mas a partir do momento que você assinou um contrato comigo, é minha obrigação impedir que você transforme um problema em três e arruíne sua carreira.

Hilda ficou em silêncio.

— Você virou assunto mais comentado de Unova.

A constatação a fez piscar, confusa. Era famosa, virar assunto não era nenhuma novidade.

— Por causa do que aconteceu ontem?

— Hilda — a voz do empresário se tornou rígida. — Escute com atenção.

A adolescente engoliu com dificuldade.

— Não dê entrevistas e não responda curiosos.

— Não pretendia fazer isso.

— Não grave vídeos ou publique nada. Absolutamente NA-DA!

— Martin, eu não sou nenhuma idiota.

Hilda sentiu como se estivesse sendo tratada como uma criança.

Não era a primeira vez que seu nome aparecia envolvido em alguma polêmica. Pessoas famosas viviam cercadas por rumores, críticas e manchetes exageradas, fazia parte do trabalho, bastava apenas deixar Martin fazer o que fazia de melhor: apagar incêndios.

— E fique longe das redes sociais — completou o homem.

Aquilo sim soou estranho.

— Tá exagerando um pouco, não? — ela arqueou a sobrancelha.

— Estou apenas sendo moderado.

Hilda ficou curiosa.

— O que estão falando?

Martin ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Prefiro discutir pessoalmente.

Hilda sentiu um incômodo subir pelo estômago. Martin era competente, sabia lidar com todas as burocracias, era por isso que tinha sido escolhido a dedo pela sua mãe, Havana Foley, mas agora ele parecia evasivo em suas respostas.

— Você tá me assustando com esse mistério todo — argumentou Hilda.

— Não vale a pena discutir por telefone. Eu-

Hilda interrompeu.

— Martin! — A modelo comprimiu a boca e mordeu o lábio inferior. Precisava perguntar, ainda que não quisesse falar sobre. — A Clara... O corpo dela. — Hilda prendeu a respiração pra não chorar. — O que fizeram com ele? E-Ela não tinha família aqui em Unova, então...

A voz de Martin soou empática pela primeira vez.

— Me certifiquei de que todas as cerimônias fossem realizadas e que ela fosse enterrada no Memorial Histórico de Nimbasa.

— ...Obrigada, Martin.

O empresário ficou em silêncio por alguns segundos. Hilda não era do tipo que agradecia.

— D-De qualquer forma — ele seguiu a conversa. — Vou te enviar o local do nosso encontro em breve. Então, por favor, fique atenta as minhas mensagens.

— O que eu faço até lá?

— Nada. Apenas nada.

A ligação se encerrou.

Hilda sentiu um gosto amargo da curiosidade na boca, ainda que o conselho de Martin berrava em sua orelha como uma buzina de navio. Ela deitou o celular com a tela virada pra baixo, mordeu a língua levemente, remoendo a tentação. Era tão grave assim? E se Martin só estivesse exagerando?

Talvez Martin só quisesse que ela evitasse as redes com receio de que algum jornalista curioso tentasse arrancar alguma informação exclusiva antes que ele próprio resolvesse tudo.

“Besteira!”, Hilda pensou. Não era nenhuma boba, era só ignorar e não responder.

A modelo agarrou o celular novamente com mais confiança e desbloqueou a tela, em segundos, já estava dentro do feed de seu PokéGram. Entre as postagens recomendadas baseadas no algoritmo de Hilda, ela chegou nos primeiros vislumbres do evento do dia anterior, um deles sendo do perfil oficial da prefeitura de Accumula.

Prefeitura de Accumula Town ✓
@AccumulaTownOficial
A 50ª edição do Acummula Summer Festival acontece hoje!
Teremos a presença da jovem modelo e influenciadora @HildaFoley.
Confira a programação abaixo.
❤️ 10.230 Curtidas | 💬 26.700 Comentários

Hilda a princípio estranhou a discrepância entre a quantidade de comentários e de curtidas. A ponta do seu indicador vacilou um pouco antes dela acessar a sessão de respostas. No começo, notou apenas comentários de moradores elogiando o evento, enquanto outros resmungavam sobre a cidade precisar de investimentos além de festas, até mesmo o Prefeito Walker marcou presença exaltando sua gestão.

Não demorou muito para que o primeiro comentário fora dessa curva aparecesse. Seu tópico era o discurso de Ghetsis e ganhava mais notoriedade do que a própria postagem oficial. Hilda se atreveu a olhar a discussão.

Prefeitura de Accumula Town ✓
@AccumulaTownOficial
A 50ª edição do Acummula Summer Festival acontece hoje!
Teremos a presença da jovem modelo e influenciadora @HildaFoley.
Confira a programação abaixo.
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▼ ROLE PARA VER OS COMENTÁRIOS ▼
a VERDADE prevalecerá
@TruthForPokemon
A pior coisa foi ter trazido a @HildaFoley.
Eu estava lá quando ouvi ela dizer que "não era problema dela" quando viu um monte de Pokémon sofrendo.
É sério isso? Ela quer se isentar?
❤️ 38.211 Curtidas | 🗨️ 15.630 Comentários
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
Calma aí, poxa. Não é como se ela tivesse falado que apoia maus-tratos. Vocês estão distorcendo tudo.
❤️ 20.992
LIBERTEM OS POKÉMON!
@PlasmaAwakens
Ela não ficou chocada com os abusos. Ficou chocada por ter sido exposta.
❤️ 54.803
Wendy, a Growlithe
@GrowlitheMom
"Não controlo o que acontece nos bastidores." Mas continua recebendo milhões por causa deles.
❤️ 81.940
HF Nation ✓
@HildaNation
Vocês estão tratando uma adolescente como se fosse responsável por toda uma indústria.
❤️ 18.301
Fashion Leaks ✓
@FashionLeaks
Engraçado. Quando o assunto é publicidade ela adora ser o rosto da campanha.
Quando aparece sujeira ela não tem responsabilidade nenhuma.
❤️ 96.312

Hilda sentiu um calafrio que fez seu corpo tremer, daqueles que se parece como uma premonição de algo ruim, mas que não sabe se confia na sua intuição. A modelo balançou a cabeça e voltou para as postagens principais.

Uma atualização do feed e dessa vez a adolescente sentiu o coração pular no peito.

Hayley | Ex-PA
@FormerStudioPA
Para todos que estão surpresos com as declarações de @HildaFoley:
Trabalhei em produções onde a participou. Nada do que está aparecendo me surpreende.
❤️ 122.091 Curtidas | 🗨️ 20.563 Comentários
▼ ROLE PARA VER OS COMENTÁRIOS ▼
Gengar Anônimo
@AnonymousCrew94
Ela tratava figurantes como lixo. Assistentes tinham medo dela. Até mesmo os próprios diretores evitavam contraria ela.
Agora todo mundo tá fingindo surpresa.
❤️ 159.882 Curtidas | 🗨️ 30.897 Comentários
Will | 📖 The Solrock and The Starmie
@CinemaUnova
De repente várias pessoas da indústria estão contando histórias parecidas sobre a "Queridinha de Unova".
Isso não parece coincidência.
❤️ 108.420 | 🗨️ 10.357 Comentários
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
E tem alguém verificando essas histórias? Porque qualquer pessoa pode inventar qualquer coisa.
Todo mundo faz isso quando alguém se destaca um pouco mais que os outros.
❤️ 22.772 Curtidas | 🗨️30.412 Comentários
Nick✨|Escrevendo Honedge de Madeira
@BeautyInsider
Não quero colocar lenha na fogueira, mas lembram quando uma maquiadora "abandonou" uma campanha depois de discutir com ela?
Na época chamaram de boato, mas depois de hoje, não seria absurdo falar que @HildaFoley demitiu a coitada ou esgotou ela mentalmente.
❤️ 304.119 Curtidas | 🗨️ 105.363 Comentários
Mulher de Muito Chá
@NimbasaTea
Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que trabalhou com Hilda e nenhuma história é boa.
❤️ 187.003 Curtidas | 🗨️ 35.986 Comentários
HF Nation ✓
@HildaNation
Vou evitar dor de cabeça tentando discutir com esse povo.
❤️ 241.882 Curtidas | Comentários Desativados

Hilda sentiu seu coração na boca. Além de postagens e comentários, havia vídeos com trechos do discurso da Team Plasma e das respostas da garota. Não só estavam a massacrando pelas respostas, como estavam aproveitando a oportunidade para cavar mais fundo.

Um pop-up pulou na parte superior de sua tela que pertencia a um perfil de notícias. Seu estômago embrulhou de ansiedade quando ela leu o nome de Clara.

Unova Breaking News ✓
@BreakingUnova
Assessora da modelo e influenciadora Hilda Foley, Clara Laurent, morre durante incidente em Accumula.

Segundo testemunhas, Hilda foi uma das últimas pessoas vistas com Clara antes de desaparecer.
A jovem discutiu com populares momentos antes, após o discurso público de um grupo de defesa dos Pokémon denunciar maus tratos da mídia e utilizar Hilda como exemplo.
A investigação segue em andamento.
Ative as notificações para receber mais atualizações sobre o caso.
❤️ 615.281 Curtidas | 🗨️ 215.360 Comentários
▼ ROLE PARA VER OS COMENTÁRIOS ▼
Apenas um CAMINHANTE
@AccumulaResident
Eu estava lá. Ela estava gritando com o próprio segurança minutos antes de tudo acontecer.
❤️ 117.009
Chatot Fofoqueira
@ConspiracyCast
Não estou dizendo que ela fez alguma coisa. Só acho estranho ela desaparecer logo depois.
❤️️ 305.882
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
O que você estão fazendo é doentio! Estão transformando uma tragédia em entretenimento.
Tenho certeza de que ela logo vai aparecer e contar a verdade.
❤️ 19.223
Quero um cargo fantasma na prefeitura
@UnovaLeaks
Primeiro uma declaração polêmica, depois um monte de gente expondo ela, agora, ela "casualmente sumiu" de uma cena de um crime?
Péssimo dia para a ser a @HildaFoley
❤️ 1.004.332
Hilda Fo(ley)rever
@HilForever
O silêncio dela é triste.
Apaguei meus posts defendendo ela. Não consigo mais acompanhar isso.
❤️ 388.901
#JustiçaPorClara | NEW USER!
@ClaraDeservedBetter
Talvez ela seja inocente.
Mas se até os próprios fãs estão indo embora, o que exatamente eles enxergaram que nós não vimos?
❤️ 2.011.228
Apenas um Unoviano
@UnovaCitizen
A investigação vai descobrir a verdade e talvez Hilda Foley seja inocente e todas as acusações estejam erradas.
Mas uma nunca mais vai mudar: hoje ela descobriu o que as pessoas realmente pensavam dela.
Ninguém se surpreendeu com as atitudes e ninguém se deu o benefício da dúvida sobre as reações dela.
Você pode passar a vida inteira construindo uma imagem, mas, quando a crise chega, não existem explicações, você terá apenas a sua reputação.
❤️ 3.194.558

Hilda não foi capaz de reagir mais. A tela do celular desligou e tudo que ela viu foi o reflexo de si mesma no vidro trincado, o defeito fazia com que parecesse que o próprio rosto da garota estivesse fragmentado.

Triste coincidência. Se tivesse ouvido o conselho de Martin, talvez agora não estivesse manchando a tela com pingos de lágrimas que escapavam sem pedir permissão. Pela primeira vez, desde que se tornara famosa, sentiu medo de ligar o próprio celular.

Alguém bateu na porta.

— Hilda?

A modelo pulou de susto quando a voz de Bianca veio da porta. Jogou o celular de lado e se levantou, ajeitando o pijama emprestado, depois, usou o espelho da escrivaninha para verificar se estava apresentável e secou as lágrimas na bochecha.

— Pode entrar.

A loira abriu a porta do quarto. Ela usava um vestido branco com um colete tricotado de um tom laranja saturado por cima, sinal de que já estava há um tempo acordada. Ela entrou e sorriu:

— Te acordei?

— D-De jeito nenhum. — Hilda precisou de alguns segundos para fingir naturalidade. — Acordei faz um tempo, mas estava com preguiça de levantar.

Bianca riu docemente.

— Quer tomar café da manhã? — convidou a loira. — Tem alguém te esperando lá embaixo, louco para te ver.

Hilda quase se engasgou, visivelmente preocupada.

Depois de uma higiene rápida e uma troca de roupa, Hilda desceu eufórica, seja lá quem fosse, ia encarar de frente. Desceu os últimos dois degraus da escada num pulo e entrou na sala de jantar.

Próximo a janela, observando a paisagem através de seus óculos, como se a analisasse, estava um adolescente também da idade de Hilda e Bianca. Ele logo percebeu a presença da modelo e se virou. Seu corpo esguio e pálido parecia um pouco ansioso já que coçou os cabelos negros azulados com um corte na altura do queixo. Seus olhos acinzentados quase não conseguiam encarar Hilda.

A modelo suspirou aliviada, se curvando pra frente e apoiando as mãos no joelho. Era apenas seu outro amigo de infância.

— Ufa, é só você Cheren — ela riu.

Cheren estranhou e ajeitou os óculos, um pouco constrangido, um pouco decepcionado.

— Sim?

Bianca parou ao lado de Hilda.

— Mandei mensagem para o Cheren ontem à noite contando que você estava aqui — explicou. — E ele ficou ansioso para te ver. — A menina cobriu a boca num risinho zombeteiro.

Cheren tossiu de nervoso, as pontas de suas orelhas esquentaram.

— B-Bianca! — ele resmungou, constrangido.

A mãe de Bianca surgiu no ambiente enxugando as mãos com um guardanapo de pano. Ela sorriu, nostálgica ao ver os três amigos juntos após um longo tempo. Como boa anfitriã, garantiu que seus convidados e sua filha desfrutassem de um belo café da manhã na mesa de jantar.

A TV, em volume baixo, só fazia som de fundo. Cheren percebeu que Hilda ignorava o aparelho propositalmente, ainda que o canal local estivesse passando um programa de variedades para donas de casa. O menino ousou perguntar, entre uma golada de café ou outra.

— Você está bem? Você sabe...

Hilda encarou o amigo, visivelmente irritada, fazendo o garoto se calar na hora.

— Não quero falar sobre isso.

Bianca trocou olhares com Cheren. Ela tombou um pouco a cabeça, sinalizando para que ele evitasse o assunto enquanto o menino assentiu, captando o recado, alcançando uma torrada e trocou de assunto.

— Seu pai está viajando, né, Bianca? — questionou o garoto de óculos.

— Uhum — ela respondeu. — Ele está de férias do trabalho e está passando uns dias na fazenda de um amigo aqui perto.

— Então você vai tentar aquilo?

O tom de mistério deixou fez Hilda levantar os olhos, curiosa.

— Tentar o quê?

Bianca encolheu os ombros, um pouco ansiosa, se sentia prestes a fazer uma revelação chocante.

— Eu vou fazer a prova para tentar obter a Licença de Treinadora. — Ela brincou com os dedos.

Hilda não era muito familiarizada com o mundo dos Treinadores de Pokémon, mas sabia de alguns detalhes pois já fora o rosto de algumas propagandas convocando os jovens para as provas de admissão.

Com o incentivo do governo de Unova e as bolsas especiais, praticamente todo pré-adolescente e adolescente via numa jornada Pokémon a oportunidade de crescer na vida e se descobrir. Era um mundo distante para Hilda.

— Isso é... bom, eu acho — respondeu a modelo. — Estou meio surpresa, admito. Nunca te imaginei batalhando por insígnias ou explorando o mundo.

Bianca riu um pouco, envergonhada e concordou.

— Meu pai surtaria só com a ideia, mas acho que vai ser legal.

Bianca olhou para a mãe como se precisasse de um empurrão. A mulher retribuiu com um sorriso tão doce quanto o da filha, recarregando a coragem que a menina precisava.

— Eu gosto muito da minha cidade. — A loira esfregava as mãos, acanhada. — Papai disse que pagaria minha faculdade em Accumula e isso é legal. Mas eu sinto que não é aqui que eu vou encontrar a minha vocação. Quero explorar Unova, ver paisagens, viver novas experiências e conhecer pessoas.

— Então você vai fazer a prova enquanto seu pai estiver fora? — Hilda questionou, conectando os fatos.

— Vai evitar a fadiga de ter que dar explicações — respondeu Bianca, olhando para a modelo ao seu lado. — Eu espero que eu encontre o que eu quero pra mim assim como você encontrou, Hilda. Eu te admiro porque dá pra ver o quanto você ama aquilo que faz. Você é minha inspiração.

Hilda não escondeu a surpresa, mas também não escondeu o sorriso.

— B-bem — ela quase não conseguia controlar a autoestima inflada. — Espero que dê tudo certo. Ah, é mesmo. — Ela se virou para Cheren, como se estivesse com energia restaurada. Depois, deu um sorriso sugestivo. — Você vai fazer a prova também, Cheren?

O garoto de óculos negou com a cabeça.

— Estou focado em entrar na faculdade.

Hilda fez um biquinho. O trio se surpreendeu com a risada da mãe de Bianca ao fundo, que parou quando notou os olhares curiosos.

— Ouvir vocês falando sobre jornada, carreira e faculdade me fez me sentir nostalgia — ela explicou. — Vocês eram inseparáveis quando crianças e agora vão para caminhos tão diferentes. Por que não aproveitam para fazer algo especial?

Bianca refletiu.

— A praia! — disse ela, empolgada. — Podemos ir lá hoje à tarde!

— Eu topo! — Hilda se animou. Depois, estalou os dedos, como se lembrasse de algo e fez uma careta. — Ah, droga... Esqueci que tenho uma reunião com o Martin hoje à tarde. Assim que eu me livrar dele, encontro vocês lá.

— Não se preocupe — disse Bianca. — A praia não vai sair do lugar, então a gente te espera. Pode ser assim, Cheren?

O garoto assentiu e as meninas sorriram, satisfeitas. Em seguida, Bianca tagarelou sobre as ideias que tivera e sugeriu atividades para o trio no encontro e que iria preparar tudo, também contou que a prova seria em dois dias e em como Cheren estava ajudando com os estudos. Cheren compartilhou suas opções para a faculdade.

Aquele curto café da manhã fez Hilda esquecer um pouco do caos de sua vida profissional. Se sentia aliviada em saber, que, pelo menos, seus amigos ainda estavam lá e sabiam quem era ela de verdade.

A mãe de Bianca deixou a casa para ir até o mercado local em busca de ingredientes para o almoço. Cheren logo se despediu também, alegando alguns compromissos com os pais.

Enquanto Bianca lavava as louças do café, Hilda ficou por perto, resmungando algo sobre suas unhas estarem danificadas. Ela balançou as pernas no ar enquanto estava sentada na bancada, logo atrás da amiga.

— Agora que eu parei pra pensar. — A modelo puxou assunto. — Não vai ser difícil pro Cheren e pra você ficarem distantes?

Bianca olhou por cima do ombro, confusa.

— Você sabe, amiga. — Hilda balançou o corpo, sugestiva. — Relacionamento a distância.

Hilda percebeu que o rosto de Bianca praticamente brilhou de tão corado, não só de vergonha, mas um pouco de frustração. O silêncio de segundos deixou a modelo indignada.

— Você ainda gosta do Cheren, né?

Bianca deixou um prato escorregar dentro da pia, que, apesar do barulho alto, não quebrou. Hilda pulou do local em que estava e se aproximou, parando do lado da amiga, procurando o olhar dela. A loira olhou para a modelo e assentiu.

— Você AINDA não contou pra ele?! — indagou a adolescente.

— HILDA! — Bianca reagiu, interrompendo a atividade que fazia. — N-não.

— Pelo menos beijou ele? Segurou as mãos? Já transaram?

— NÃO!

Bianca sentiu o rosto explodir, fazendo Hilda piscar algumas vezes, em choque.

A novela entre Bianca e Cheren já durava alguns anos. Ela se lembrou da madrugada em que a amiga lhe mandou mensagens surtando sobre o que sentia pelo garoto e Hilda a incentivou a ser honesta e direta diversas vezes, mas Bianca não criava coragem o bastante.

Parte desse nervosismo tinha um motivo. Hilda não era de se gabar quanto a isso, mas sabia quando um homem estava gostando dela. Não que Cheren fosse um livro aberto, mas ele não sabia disfarçar, principalmente naquela vez que ele entregou o presente de quinze anos da menina junto de uma cartinha, na qual dava pra ler um ‘Gosto de você’ rabiscado furiosamente no fim da carta.

Infelizmente, para a desilusão de Cheren, Hilda não compartilhava o mesmo sentimento. A modelo vivia tão ocupada que nem se preocupava em resolver esse impasse, para ela, Cheren era um bom amigo e nada mais. Mas, para Bianca, é como se acontecesse uma competição, ainda que a adversária já tivesse abandonada a disputa antes dela começar.

— Ainda preocupada com aquilo? — questionou Hilda, com uma voz mais empática e tranquilizadora.

— Ele já admitiu algumas vezes qual era o “tipo” dele. — Bianca fez o sinal de aspas com os dedos. Seus olhos ainda não conseguiam encarar Hilda. — Comecei a desconfiar quando o tipo era “alta, morena, inteligente e decidida”.

Hilda deixou uma risada fraca escapar pelo nariz. Adorava ouvir elogios sobre si.

— Bianca, você tá inventando uma competição que não existe e ainda por cima já está se colocando como perdedora.

Bianca voltou ao seu afazer, secando alguns talheres com o pano de prato, tremendo levemente.

— Amiga, é sério. A vida muda rápido demais.

Doce ironia de quem falou sem pensar. Hilda por um momento teve lapsos de memória do dia anterior, e, dessa vez, foi a vez da modelo desviar o olhar.

— Você deveria falar logo para ele — concluiu, focando no problema atual.

— E se... — Bianca não desviou o olhar da sua função. — E se ele não sentir o mesmo?

Hilda deu de ombros e sorriu confortante.

— Pode acontecer, essa é a vida. Pelo menos você vai saber.

— E se o clima ficar estranho? E se ele não quiser mais ser meu amigo?

Chegava a ser cômico como Bianca perguntava coisas que Hilda provavelmente a ouviria falando com a mãe.

— Você disse pra gente mais cedo que queria explorar Unova para conhecer novos horizontes e viver novas experiências. — Hilda explicou. — Talvez você precise cortar todos os nós que ainda te prendem aqui em Nuvema, seja sair de casa ou o próprio Cheren. Se ele for um babaca com você, é só dar um pé na bunda dele, Unova tá cheia de homens gostosos pra você escolher.

Bianca riu pela primeira vez com o jeito descontraído da outra, sentindo um peso sair dos ombros.

— Às vezes você parece mais velha que eu com toda essa experiência — brincou a loira.

Hilda fez uma careta.

— Eu? Velha? Arceus me livre! — ela levantou as mãos pra cima, num gesto de brincadeira. — Quero que descubram logo a fonte da juventude eterna para que eu fique com essa pele lisinha e sem rugas para sempre.

Bianca gargalhou, mas logo em seguida parou. Hilda percebeu que a amiga a encarava com um pouco de aflição, até que ela perguntou:

— Se fosse você no meu lugar, você realmente faria isso?

A modelo piscou algumas vezes, um pouco confusa.

— Sobre o Cheren. Se fosse você, você contaria pra ele?

Hilda parou por alguns segundos para refletir e sorriu:

— Eu nunca deixo as coisas importantes para depois, Bianca.

A resposta saiu automática, mas Bianca sorriu, como se aquela fosse exatamente a confiança que precisava ouvir, mas, por um instante, a frase pareceu estranha para a própria Hilda, como se ela estivesse sendo hipócrita, adiando seus próprios assuntos.

O celular tocou uma notificação no bolso e atravessou o silêncio. Era Martin, provavelmente encaminhando o local do encontro.

— Enfim. — Ela bateu as mãos nas pernas e forçou um sorriso. — Vai lá e conquista aquele nerd antes que alguma outra garota faça isso.

Bianca arregalou os olhos.

— Hilda!

— O quê? Estou sendo sincera.

— Você é impossível.

— E você é lenta.

Bianca revirou os olhos, mas acabou rindo, fazendo Hilda imitar o gesto, logo trocando de ambiente para verificar a mensagem. Pela primeira vez naquela manhã, o peso dos últimos acontecimentos pareceu um pouco mais distante, mas só um pouco, porque assim que a tela acendeu com a mensagem de Martin, Hilda lembrou que algumas coisas não podiam ser deixadas para depois.

{ 1 Comentários... leia-os abaixo ou comente ! }

  1. É A SHII AQUI COMENTANDO COMO ANÓNIMA PELA SEGUNDA VEZ

    vIC MENCIONOU CASTELIACONES O VIC MENCIONOU CASTELIACONES AAAAAAAAA

    Adorei o capítulo, conseguiste lidar bem com as consequências do capítulo 1 nesse, e foi bom ver a Hilda sendo simpática para alguém kkkk estou ansiosa pelo próximo!

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