• Thursday, July 2, 2020


    A Route 3 não parecia muito diferente das outras rotas apesar de ser mais longa que suas anteriores e possuir uma fauna mais abrangente, graças as gramas altas. Sem contar que no comecinho da rota, ficava uma pequena creche/pré-escola e ao lado, o famoso Day Care, os dois locais eram as maiores atrações da rota.

    Centenas de crianças em fase pré-escolar passavam suas manhãs e tardes sob os cuidados prestativos de professoras e professores qualificados, e mesmo pequenos, eles aprendiam a identificar letras, figuras, sons e números. Graças ao Day Care construído ao seu lado, a escolinha recebeu o nome de Kangaskhan Primary School.

    Já o seu vizinho era conhecido por ser a creche dos Pokémon. Muitos treinadores deixavam seus parceiros quando sentiam que eles precisavam de um tempo para relaxar, ou se seus donos precisavam viajar para longe, ou até mesmo para gerar novos Pokémon filhotes.


    Hilda e Hilbert passaram em frente dos locais e olharam curiosos para as crianças brincando no tanque de areia, no escorregador e na gangorra. A alegria chegava a ser contagiante.

    — Eu não lembrava dessa escolinha aqui – comentou a garota. – Deve ter sido construída recentemente.

    — Achei maneiro construírem no meio de uma rota – observou o outro. – Será que as crianças aprendem a capturar Pokémon?

    — Acredito que elas não têm coordenação motora pra isso ainda – riu a morena. – Vamos andando. De acordo com o PokéGPS, Nacrene City fica por ali – informou, apontando. – Parece que tem uma caverna lá na frente, mas não fica na nossa rota para a cidade do segundo ginásio.

    — Ugh, odeio cavernas. Algumas são úmidas, frias e escuras – murmurou Bert. – Sem contar que tem Woobats.

    — Aaah, mas eles são tão fofos!

    — Não quando eles enfiam o nariz na nossa cara e deixam aquelas marquinhas de coração – ele sentiu a espinha gelar, como se recordasse o passado. – Sem contar que eles são peludos!

    — Eu não sabia que você era cheio das frescuras – Hilda debochou do amigo.

    — Frescura não! – retrucou, meio bravo. – Você não sabe o que eu passei nas cavernas dessa região.

    — Falando assim parece que você ficou preso numa ilha deserta e teve que racionar comida para não morrer de fome porque não saberia quando seria resgatado.

    — Você não sabe o saco sem fundo que é o estômago do Vic.

    Eu tô ouvindo,hein! – exclamou o Victini de dentro da bolsa.

    — De qualquer forma, vamos ficar beeeeem longe de cavernas. Principalmente daquelas que tem ninhadas das bolinhas de pelos voadora – concluiu Hilbert, cruzando os braços.

     

    O céu já começava a decorar a paisagem com tons de azul e laranja indicando que a noite estava se aproximando, e com isso, Hilda e Hilbert encontraram um lugar abaixo de uma árvore e perto de um grande lago para montarem suas barracas e sacos de dormir. A dupla se aventurava em lembrar o passo a passo de montar os equipamentos - visto que os últimos três dias eles acabaram dormindo em camas confortáveis -, enquanto isso, Vic continuava a decifrar o livro que tinha pegado emprestado sem previsão de devolução da biblioteca da escola de Striaton. A única coisa que conseguia interpretar era as diversas figuras ilustradas, por se tratar de um livro infantil, todas eram gentis e delicadas, a da capa mostrava um Victini voando em direção ao céu, na primeira página, acompanhada de letras e palavras, retratava um lugar conhecido como Liberty Garden – como Bianca tinha dito –  onde aparentemente era sua casa. O lugar era cheio de flores amarelas e árvores grandes e lotada de folhas. Seja lá quem fosse o artista, parecia conhecer o lugar pessoalmente.

    Ei, Hilbert – chamou Vic. – Pode ler esse livro pra mim?

    — Agora não dá, amigão – respondeu o garoto, tentando encaixar os ferros que mantinham a barraca de pé. – Estou montando isso aqui.

    Hilda?

    — Desculpa, Vic, estou tão perdida quanto o Hilbert aqui – riu a menina.

    Tudo bem – murmurou o Pokémon, desanimado.

    Brianna observava seu treinador com dificuldades de montar uma barraca e parecia julgá-lo, Mirsthy estava ao seu lado, e parecia estar meditando ou algo do tipo. Sombra parecia não se incomodar e estava dormindo como um bom bebê que era.

    Qual a dificuldade em montar uma barraca? Eles estão lá há horas e já começou a esfriar”, resmungou a Snivy.

    “Shhh, seu pessimismo está atrapalhando minha conexão com Cresselia”, murmurou a Minccino com os olhos fechados.

    “Podíamos estar confortáveis em um Centro Pokémon, podíamos estar treinando, mas ele está lá, sofrendo com uma barraca.”

    “Ele é um garoto esforçado, querida”, explicou a criatura cinza, se espreguiçando em sinal de que sua meditação havia chegado ao fim. “Meio irresponsável, mas esforçado.”

    “Ele ganhou o primeiro ginásio com sorte, não com uma batalha”, suspirou o Pokémon verde. “Não terá a mesma sorte em todos, eu mesma não ganhei nenhuma batalha com ele” – ela acariciou a pequena cicatriz em seu rosto. “Maldita Purrloin...

    “Tenho certeza de que ele vai perceber isso e vai te tornar a Snivy mais poderosa de Unova. Tudo no seu tempo, fofinha”

    Koin, o Tepig, se aproximou da dupla que estava conversando e não mediu esforços para entrar entre as duas e se jogar na grama com toda a preguiça possível.

    “Saudades de você, Snivy!”, cumprimentou o porquinho, soltando um grunhido involuntário.

    “Meu nome é Brianna agora”, disse a Snivy, revirando os olhos. “E eu não consigo acreditar que você fugiu do laboratório. Quanta imprudência.”

    “Nome estranho esse... Brianna”, confessou o Pokémon, recebendo uma encarada da colega. “Brincadeirinha. A maravilhosa da minha dona me apelidou de Koin, por causa do meu rabinho. Ela não é linda?”

    “Veio atrás da Hilda?” questionou Mirsthy. “Isso é tão fofo, um Pokémon dedicado a um humano.”

    “Você sabe que ela não é bem uma treinadora né?” questionou a inicial de grama. “Você basicamente será o mascote fofo que recebe comida na boca e é penteado a cada cinco minutos.

    Tepig refletiu por alguns segundos antes de soltar um sorriso largo e outro grunhido involuntário.

    “Não tenho nada a reclamar.”

    Brianna revirou os olhos novamente antes de notar Hilda se aproximar. A garota se agachou perto da pequena Zorua que estava dormindo e a pegou no colo junto com Koin.

    — Vocês devem estar morrendo de sono e de fome né? – disse, soltando um sorriso gentil e atencioso. – Demorei para montar essa barraca, mas finalmente consegui – riu. – Olha só, já está de noite.

    Finalmente o sol tinha desaparecido por completo, deixando apenas a lua fazer o trabalho dela de iluminar a paisagem com as estrelas. A noite estava limpa e não tinha nenhum sinal de chuva, o que era um alívio para os dois companheiros de jornada.

     

    Não dava pra saber exatamente que horas eram, mas estava tarde o suficiente para que todos estivessem dormindo. Hilbert, irritado por não conseguir montar a barraca, acabara apelando para um saco de dormir, o que deixou Brianna irritada. O único que se mantinha acordado era Vic, que usando seus poderes psíquicos e de fogo, deixava uma pequena chama flutuando perto de si o suficiente para iluminar o mesmo livro.

    Estava em uma página que ilustrava o grupo de Victinis assustado com algo que parecia representar o vilão, na outra página, um dos Pokémon tomava a frente do grupo e encarava o malfeitor com muita coragem. E nas últimas páginas, as pequenas criaturas comemoravam a derrota da criatura que atrapalhava a paz.

    Será que eu era o líder deles e agora eles estão desamparados? – refletiu Vic em voz alta, ainda que ninguém estivesse ali para ouvir. – Droga, eu preciso aprender a ler! O Hilbert é um vacilão e a Hilda só dá atenção para os Pokémon dela. Preciso arrumar alguém.

    Mergulhado em pensamentos, o Pokémon vitória foi desperto por movimentos bruscos na estrada da rota, alguns metros longe do pequeno acampamento montado. Curioso, mas com um pouco de medo, Vic deixou o livro sobre a grama e alçou voo, escondendo-se entre os galhos das árvores e se aproximando dos ruídos.

    Crente de que encontraria algo de grande proporção, ele se deparou com uma pequena garota que passava um pouco mais de um metro de altura e aparentava ter uns quatro anos a julgar pelo cabelo curto e castanho presos em um inocente maria-chiquinha e as roupas – sujas de terra – que se assemelhavam a um uniforme escolar.

    A garota perseguia com todas as suas forças um Patrat, um Pokémon ainda menor que ela que se assemelhava a um esquilo, e este parecia se divertir com as tentativas falhas de sua perseguidora.

    Ela tá tentando fazer o quê? – questionou-se o Victini, intrigado com a cena. – Ela é muito nova pra ser uma treinadora. E está tarde, e acredito que os pais não devem estar satisfeitos em vê-la fora de casa a essa hora.

    — V-Volta aqui! – exclamou a menininha que continuava a correr atrás de sua presa, até que conseguiu agarrar o rabo comprido do Patrat. – AH, consegui!

    O Pokémon grunhiu alto pela dor e encarou a garota com raiva, soltando um segundo grunhido ainda mais alto. Vic estranhou tal ação, assim como a criança. Em questão de segundos, pequenos olhos vermelhos e amarelos revelaram-se na escuridão e quando alcançaram a luz, mostraram ser outros Patrats, que pareciam prontos para defender seu companheiro.

    — A-ah... O-oi... – a voz dela falhou e ela soltou o rabo do Pokémon, recuando com passos cuidadosos.

    O grupo de esquilos se aproximava e começavam a cercar a garota, impedindo-a que fugisse, ela era a presa dessa vez e sabe-se lá o que aconteceria com ela. Não demorou muito para que ela começasse a chorar como a criança que era, chamando pelos pais.

    Victini cansou de apenas olhar e mergulhou em direção a cena, usando um golpe que fazia seus redondos olhos azuis brilharem da mesma cor e causar desconforto ao grupo de Pokémon marrons. O golpe era conhecido como Psychic.

    Menina! – exclamou Vic – Sai daqui, não quero machucar esses caras.

    Assustada com o fato de estar ouvindo uma criatura que supostamente não fala, mas aliviada o suficiente por saber que ele a tinha salvado, ela saiu correndo e se escondeu em uma árvore próxima.

    O Pokémon anjo então libertou os Patrat de seu golpe.

    Foi mal pelo ataque galera, mas ela só é uma garotinha – explicou-se.

    “Já faz dias que essa menina tá perseguindo Pokémon nessa rota”, disse o Pokémon que teve seu rabo puxado.

    E-Ela deve ter um motivo – suspirou – Eu vou ver o que posso fazer...

    O grupo, em questão de segundos, sumiu pela mata da mesma forma que apareceu.

    Vic olhou em volta e localizou a causadora de toda a confusão e se dirigiu até ela com calma, ainda que ela não retribuísse o mesmo sentimento, sua respiração estava desregulada e quase não conseguia falar direito.

    Relaxa, eles não vão mais vir atrás de você – começou o anjo. – Tá machucada?

    — V-você fala – ainda que em sussurro, a garota conseguiu falar para que o outro ouvisse.

    Acredite, todo mundo tem essa mesma reação – ele pousou no chão. – Mas você se acostuma. O que estava fazendo perseguindo Patrat tarde da noite?

    — Eu preciso de um Pokémon... – confessou a garotinha, sentando-se de frente a criatura.

    Você é meio nova para ser uma treinadora. Quantos anos tem?

    — Quatro. Eu não sou treinadora, eu só preciso de um Pokémon.

    É só pedir para os seus pais. Eles podem arrumar um que seja pequeno e manso – Vic deu de ombros. – Acredite em mim, Patrats são traiçoeiros.

    — Eles não deixam, dizem que eu sou muito pequena pra ter um – lamentou ela, abaixando a cabeça em sinal de desânimo.

    Errados não estão.

    — Você não entende – disse, meio impaciente. – Eu preciso de um Pokémon para levar na escola. Vamos ter o dia do Pokemon de estimação e eu disse que levaria o melhor do mundo.

    Agora faz mais sentido – Vic levou a mãozinha ao seu próprio queixo, reflexivo. – Mas não é só dizer que não conseguiu, inventar uma desculpa, sei lá.

    Mas aí meus amigos vão rir de mim – a menina encolheu a pernas e as abraçou. – E eu não quero isso.

    Que situação.

    Reflexivo, Victini cogitou possibilidades. Ele podia acordar Hilbert e pedir para que ele capturasse um Pokemon para ela. Ou ele podia pedir emprestado a Zorua de Hilda. Talvez roubar Snivy de seu treinador. Mas todas as ideias pareciam fáceis demais com uma execução falha, já que qualquer um desses planos poderia ser facilmente anulado com um simples ‘não'.

    Ao mesmo tempo, ele queria simplesmente ignorar ela e voltar para o seu livro e continuar decifrando palavras do alfabeto humano.

    É isso! – uma lâmpada imaginária acendeu-se sobre a cabeça do Pokemon mítico e ele sumiu por entre as árvores em direção ao acampamento, deixando a criança para trás.

    Não demorou muito para que o mesmo voltasse, carregando o livro.

    Acho que posso te ajudar – começou, recuperando o fôlego. – Mas com uma condição, quando isso terminar, você vai ler esse livro pra mim. E eu quero que você leia tudo, tudinho!

    — T-Tá... – a menina estava meio perplexa e confusa com o pedido, mas estava contente por receber ajuda. – O que você vai fazer?

    Eu vou ser seu Pokémon – Vic refletiu após dizer, logo após, completo: - Mas eu não posso aparecer como um Victini, as pessoas vão me ver e eu vou ser capturado, perseguido.

    Antes que ele pudesse continuar com seus pensamentos, sentiu dois braços o envolverem e a menina o trouxe pra perto num abraço sincero.

    — Obrigada – disse, com a voz meiga.

    O Pokémon sentiu suas bochechas arderem de timidez, mas não se livrou do abraço.



    Ellie era o nome da garotinha, e Vic combinou que iria encontrá-la no dia seguinte na Kangaskhan Primary School. Aparentemente, o dia do Pokémon de estimação era um evento popular e a menina nunca havia participado, o que a deixava isolada em sua sala de aula. Ela contou que seu sonho era levar uma criatura tão incrível que chamaria a atenção de seus colegas de sala e ela finalmente teria um espaço nos grupinhos. Para Victini, era um sonho muito bobo, mas talvez os sonhos dos humanos ficassem mais maduros conforme eles fossem crescendo. Não iria questionar, se a fazia feliz, ajudaria, além do mais, ela retribuiria o favor lendo o livro.

    O anjinho começou a refletir em qual Pokémon iria imitar. Poderia observar os amigos dormindo e tentar copiar seus movimentos e grunhidos, ele se aproximou primeiro de Brianna, que dormia na mesa barraca que Hilda e começou a rodeá-la. Como agir igual uma Snivy?

    “Se continuar me rodeando desse jeito eu vou berrar por ajuda”, resmungou a criatura, acordando ao sentir a presença do colega. “O que faz acordado?”

    Estou te observando.

    “Seu Victini tarado. Eu vou gritar.”, a serpente encarou Vic, irritada.

    N-não é nada disso, sua louca! – explicou. – Preciso imitar um Pokémon para ajudar uma amiga e eu estava pensando em imitar um de vocês.

    “Pois saiba que ninguém consegue imitar a nobreza de uma Snivy”, gabou-se Brianna, ajeitando a folha em sua cauda. “Você teria que passar meses aprendendo regras de etiqueta”

    Não tenho tempo e paciência para isso – resmungou o Victini. – Oh, talvez a Sombra possa me ensinar a usar a habilidade dela se transformar num Pokémon.

    Vic se dirigiu até a Zorua seguida de Brianna. A criatura dormia apoiada sobre a cauda fofinha de Mirsthy.

    Ei, Sombrinha... – começou, com a voz baixa para não assustar a bebê Pokémon.

    Ela deu um longo bocejo para enfim abrir os olhos. Chegava a ser cômico ver uma criatura do tipo Noturno dormir tanto durante a noite.

    “Tio Vic”, sorriu a pequena ao vê-lo. “Já tá de manhã? Parece que dormi tão pouco”

    Não, não, não. Ainda tá de noite. Mas eu realmente preciso da sua ajudinha.

    “Ajuda?”, Sombra esboçou interesse e curiosidade, como uma criança que era, qualquer coisa que fugisse da sua rotina era motivo de animação.

    O tio Vic precisa que você me ensine a sua habilidade de se transformar em outros Pokémon – pediu, juntando as mãozinhas.

    “É só espirrar ou ficar muito bravo”, explicou a raposa rapidamente. “Sempre funciona comigo, mesmo a tia Mirsthy dizendo que eu não tenho controle total”

    “Porque ninguém desse lugar consegue ter um minutinho de sono?”, resmungou a Minccino, acordando. “Que horas são? Se for 3 da manhã é a hora que os espíritos se levantam e começam a vagar. Eu realmente não quero dar de cara com um”

    “O Vic quer virar outro Pokémon”, Brianna resumiu a história.

    “Meu querido Vic, não tem problema você não se identificar com o que você é, mas não apele para decisões radicais sem falar com ninguém”, começou o Pokémon cinza, pegando a mão do colega, num gesto de empatia. “Somos seus amigos, queremos te ouvir”

    Não é nada disso! – exclamou Victini, se desvencilhando do toque da outra. – Eu preciso ajudar uma humana.

    O Pokémon então contou a história, explicando com detalhes como tinha encontrado Ellie e como tinha surgido a ideia de ajudá-la. Entre perguntas, o grupo topou fazer alguma coisa, ainda que Mirsthy se oferecera para cumprir o favor, o anjo insistia que aquilo era uma missão para ele.

    Todos eles passaram a noite inteira refletindo em como transformariam Vic em qualquer Pokémon no mundo sem levantar suspeitas. Não é como ele se parecesse com outra criatura, ele era apenas Victini, único e singular. O sinal de que tinham falhado veio quando o sol começou a surgir no horizonte, trazendo consigo os sons e cheiros da manhã.

    Eu não devia ter me envolvido – lamentou Vic pela décima vez. – Tudo isso por causa de um livro.

    “Você tentou, querido”, consolou Mirsthy, sentada ao seu lado, acariciando as costas peluda do amigo. “Tenho certeza de que ela vai entender”

    Eu espero que sim, aquela menina tinha um sonho... Vou falar com ela e ver o que posso resolver.


    Na hora e no local combinado, Vic permaneceu escondido em uma das árvores que cercavam a escolinha, planejando vários pedidos de desculpas, quase não notou quando Ellie se aproximou com o mesmo uniforme da noite passada, só que dessa vez limpo e carregando consigo uma mochila de couro marrom.

    — Ei... – sussurrou ela, evitando chamar a atenção dos colegas que estavam aproveitando o tempo livre antes de começar a aula para brincar com seus Pokémon nos brinquedos. – Vem cá.

    Victini pousou para perto dela, ainda mantendo-se escondido, um tanto envergonhado.

    Desculpa, Ellie, não consegui pensar em nada e nem me transformar em outro Pokémon – desculpou-se a criatura, um tanto frustrado por notar que o discurso saíra mais simples do que imaginara.

    — Você vai ser um Pikachu – disse Ellie, ajoelhando na frente do outro e vasculhando sua mochila.

    C-Como é? – questionou, confuso.

    — Eu ouvi falar que todo mundo gosta de Pikachu, mas que eles são raros aqui – explicou, tirando potes de tinta guache e alguns pincéis. – Eu vi o papai um dia assistir na TV uma batalha Pokémon onde tinha um moço usando um Pikachu.

    Você pensou em tudo? – Vic estava surpreso.

    — É que você tem orelhas grandes como um Pikachu, acho que se eu pintar elas, vai ficar igualzinho.

    Pera aí. Pintar?

    Ellie abriu um pote de tinta amarela e pegou seu pequeno pincel e se aproximou do outro a sua frente que mesmo relutante, cedeu. A garota começou a pintar as orelhas de Vic com um amarelo que cobria todo o laranja delas, aplicou detalhes como as bochechas vermelhas, as tiras marrons nas costas, os detalhes pretos nas pontas das pontudas orelhas, não era nada profissional, a menina borrava alguns detalhes como uma criança qualquer, mas era incrível ver todo sua criatividade sendo colocada em prática.

    Em poucos minutos, tudo estava pronto.

    — Qualquer coisa a gente fala que você nasceu sem rabo – riu Ellie. – Mas ainda sim continua sendo o Pikachu perfeito pra mim.

    I-Isso é incrível.

    — Nada de falar, você tem que ser um Pikachu agora – repreendeu a criança. – Você tem que dizer ‘pi-ka-chu’.

    Não posso simplesmente ficar calado?

    — Não! – ela cruzou os braços e fez birra.

    Ok, ok – Vic suspirou, procurando coragem e deixando a vergonha de lado, murmurou: - Pika-chu – quando terminou, sentiu seu orgulho indo embora.

    — Perfeito! – sorriu Ellie, animada. – Vem comigo – ela pegou o Pikachu impostor no colo e seguiu para o prédio onde ficava sua sala de aula.

    Credits: pichu90 
     

    A sala era um sonho de criança, colorida, bem decorada e grande, além de muito segura e cheia de itens básicos para o aprendizado. Giz de cera, tinta, cadernos, lápis, mesinhas baixas, cadeiras com decoração de rostos de Pokémon, brinquedos, livros grandes com ilustrações que saltavam aos olhos. Tudo era bem planejado.

    O local estava cheio de crianças e Pokémon, de diferentes tamanhos e formas, a única coisa que assemelhava todos era o fato de serem mansos e “apropriados” para os pré-escolares, aliás, nenhum professor queria que um Onix furioso destruísse a estrutura e nem assustar as crianças.

    “Você é diferente”, um Pokémon ao lado de Vic puxou conversa. Ele era duas esferas unidas quase se tornando uma com uma boca remetendo a um losango, olhos pretos e uma pequena mola amarela que lembrava um topete, seu corpo era revestido por uma bolha verde que o protegia, permitindo-o flutuar. Era um Solosis. “Pikachu são raros por aqui, ainda mais um que não tem rabo”

    F-foi um acidente, mas estou bem – inventou ele, dando de ombros. – Você é um Solosis, né?

    “Exatamente, me chamam de Solaris”, apresentou-se a criatura, fazendo um movimento que representava um cumprimento. “Sou responsável por auxiliar o pequeno Joshua nas lições de casa. Mesmo ele sempre as ignorando e saindo pra brincar” explicou ela, soltando uma rápida risada. “E você?”

    Ah, meu nome é Vic – ele optou por não mentir no nome, e torceu para que Ellie colaborasse. – Eu apenas... sou um mascote que sirvo exclusivamente para abraços e mimos – riu.

    A sala de aula cerrou sua euforia quando a professora entrou com passos curtos e gentis nela, soltando um sorriso largo e cumprimentando seus alunos.

    — Ora, ora, quantos Pokémon maravilhosos – disse ela, caminhando entre as crianças, ajeitando seus óculos. – Ah, você trouxe um dessa vez, Ellie? – sorriu ela, observando Vic.

    — É um Pikachu – Ellie encheu a boca de orgulho para falar do falso Pokémon. – Igual ao do Red lá de Kanto.

    — Ele é uma gracinha – comentou a professora. – Ele é um pouco diferente, mas continua sendo um Pokémon maravilhoso.

    O fato de ser um Pokémon igual ao de um treinador popular em outra região despertou a atenção dos colegas de classe da menina. Não demorou muito para que as crianças, no parquinho da escola, começassem a rodear ela e o Victini e a fazer perguntas de todos os gêneros, animadas. Mais animadas que elas, estava Ellie que se sentia a garota mais sortuda do mundo, exibindo seu falso Pikachu como um troféu. Vic a observava com um sorriso franco.

    “Eles gostaram de você”, comentou Solaris, mantendo sua atenção no pequeno Joshua.

    Parece que sim. Não sabia que o sorriso de uma criança era tão confortante assim.

    “É mais sincero do que se imagina. Sem contar toda a inocência, é isso que contagia demais”, disse a Solosis.

    — Crianças, vou ligar o chafariz! – disse a professora, recebendo gritos eufóricos e animados de seus alunos.

    C-chafariz? – gaguejou Vic. – Isso quer dizer... água?

    O pequeno chafariz que servia para pura diversão das crianças, liberava água de todos os lados. Foi o suficiente para que um dos jatos atingisse o Victini e destruísse com toda a sua maquiagem de Pikachu.

    — Olha, o Pikachu tá virando outro Pokémon! – exclamou em alta voz uma das crianças. Imediatamente, todas as outras se viraram para ele.

    Vic sentiu seu corpo paralisar e ficou frustrado ao ver o plano de sua falsa dona, literalmente, ir por água abaixo. Ele trocou olhares com Ellie que parecia tão temerosa quanto ele.

    — A Ellie tem um Pokémon que pode se transformar em outro! Isso é incrível! – Joshua levantou os braços, achando aquilo tudo incrível.

    — Uau, que Pokémon deve ser esse? – perguntou outro aluno.

    — Ele é tão lindo quanto um Pikachu!

    A julgar pela idade, provavelmente nunca tinham visto um Pokémon mítico e muito menos sabiam da raridade em se encontrar um, para elas, se tratava apenas de mais um entre tantos, e Vic se sentiu aliviado por isso, não seria perseguido.

    O resto da manhã se resumiu a nova “habilidade” de Victini, as crianças abraçavam, beijavam e rodopiavam com a criatura. Até Ellie agora começava a se encaixar no grupinho. Seu sonho estava realizado.

    “Um Victini? Uau”, disse Solaris entre uma brincadeira e outra. “Desconfiei como você não tinha uma cauda”

    Desculpa pela mentira.

    “Foi por um bom motivo, todos estão se divertindo agora”

    Pois é – sorriu o Pokémon anjo.


    A manhã passou rapidamente e Vic estava esgotado. De onde saia tanta energia?

    — Obrigada, Vic – disse Ellie, segurando as alças de sua mochila enquanto aguardava pelo seus pais no portão da escola, em um lugar mais discreto – Foi o melhor dia da minha vida.

    Ah, quanto exagero – respondeu o Pokémon, envergonhado. – Foi uma manhã divertida.

    — O que você queria que eu fizesse por você mesmo?

    Oh, é mesmo. Eu queria que você lesse um livro para mim – Victini tinha completamente esquecido que a garota lhe devia um favor. – Eu preciso ir lá buscar.

    — Hã... Vic – começou a aluna do primário, tímida.

    Eu juro que volto rápido.

    — Eu ainda não sei ler – confessou, recebendo em seguida um olhar incrédulo de seu parceiro.

    C-Como é?

    — D-Desculpa. Mas obrigada de verdade por me ajudar.

    Vic não teve coragem de brigar com ela. Como culpar uma criança que estava começando sua vida ainda? Pelo menos tinha se divertido como nunca, não precisou se esconder e pode ser ele mesmo, ainda que acreditassem que ele poderia se transformar em qualquer outro Pokémon. Poderia encontrar qualquer outra pessoa para ler o livro, além do mais, tinha ganhado uma amiga. Se despediu da menina com um abraço caloroso e prometeu que haveria um reencontro, ainda que não tivesse certeza se visitariam a Kangaskhan Primary School novamente.

    Voltando para o acampamento, se deparou com Hilda e Hilbert já com as coisas prontas, preparados para seguir viagem, porém, sentados em pedras, como se esperassem o companheiro.

    — Oh, olha ele lá! – apontou a garota assim que o viu.

    — Vic! Onde você estava, cara? – questionou o garoto, aliviado. – Ficamos preocupados.

    Eu estou bem, pessoal – sorriu o Pokémon.

    — Que sorriso é esse?

    Victini riu.

    Nada demais. Eu só acabei de completar uma missão super especial.



    { 6 comentários... read them below or Comment }

    1. Hello Star minha querida, como que você tá, minha chegada?
      Eu amei muito esse capítulo, não tenho como pôr num comentário tão elaborado o quão fofo ficou este cap, sabe, eu amei tudo nele, o Vic se esforçando para que alguém leia o livro para ele, amei o diálogo dos Pokémon fora da pensão da Lilly e a menininha que queria um Pokémon pra levar pra escolinha e ainda pintando ele de Pikachu que fofucho e o Solosis, ai, amo que amo ele. O plot twist desse capítulo insisto em dizer que foi que a menininha não sabe ler, mas sinto que eles chegando em Nacrene alguém deve ler esse livro pra ele.
      É isso, a gente se vê no próximo capítulo.

      ReplyDelete
      Replies
      1. Yooo Leucro
        Bom te ver por aqui <3
        Ess capítulo é só um alívio fofo depois de tanta coisa, e eu queria trabalhar a escolinha mesmo kk Acho que Unova tem muitos lugares bons para se explorar :3

        Esse capítulo é um poço de humor e fofura e espero que tenha se divertido, Vic merece destaque nessa fanfic e vamos torcer pra ele achar alguém que leia pra ele hahshhahsha

        Obrigada pelo comentário <3

        See ya

        Delete
    2. Replies
      1. VIC, O PIKACHU SEM RABO FOFO DEMAIS AAAAAAAAAAAAAAA <3

        Delete
    3. AAAAAAAAA voltamos aos capítulos muito fofinhos.
      Gostei desse capítulo ter sido focado no Vic. Apesar dele ser um pokémon eu o enxergo como o terceiro protagonista do grupo, afinal, ele é totalmente independente e tem uma personalidade marcante. Eu achei muito criativo usar a história desse livro infantil, uma coisa tão simples para ser a base para criar uma grande aventura para o Vic.
      A parte que eu mais gostei foi a interação entre os pokémons na fic principal e li nas notas que você ficou preocupada das personalidades não condizerem com da pensão, mas não se preocupe, pra mim não teve nada de incondizente (ou se teve eu não percebi).
      MDS O VIC VIROU UM PIKACHU SEM RABO FOFO. As duas coisas que sempre devemos fazer quando uma criança pede é: 1 - atender o telefone de brinquedo quando ela passa e 2 - fingir ser um pokémon para impressionar os amigos na escolinha. Bem legal que apesar das crianças terem descoberto que o Vic não era um Pikachu, continuaram a tratar bem e ser amigos dela. Espero que um dia essa fofinha apareça de alguma forma de novo para nós.
      Adorei o capítulo, Star-chan! Até o próximo!

      ReplyDelete
      Replies
      1. Yoo Carol

        O BAGULHO É METER OS CAPÍTULOS FOFOS TODA HORA QUE NINGUÉM CANSA
        SIIIIM, EU AUTONOMIA DELE DE PODER FAZER O QUE QUISER O TORNA UM QUASE HUMANO AHSUASHUAHUS EU ADORO PENSAR NELE COMO PROTAGONISTA.
        Vic precisava de um plotzinho pra ele né? Ele não podia ser só o Pokémon fofinho e engraçado que segue os humanos.
        Aaaaaa agradeço por isso. Esse capítulo deve ter sido escrito antes de alguns da pensão, então não tinha nada das personalidades concretas, mas que bom que sentiu isso <3
        FOI O PRIMEIRO POKÉMON QUE EU PENSEI AHSUASHUASHUAHU
        ATENDER O TELEFONE DA CRIANÇA É SAGRADO! VAI QUE É ALGUÉM FALANDO QUE VOCÊ GANHOU 1 MILHÃO DE DÓLARES?
        CRIANÇA FALA, CRIANÇA MANDA, A GENTE OBEDEVE AHSUAHSAHUS
        Vic se fantasiando de Pikachu é uma das memórias a se guardar pro resto da fic

        Obrigada pelo comentário Carol <3

        See ya

        Delete

  • Copyright © - Nisekoi - All Right Reserved

    Neo Pokémon Unova Powered by Blogger - Designed by Johanes Djogan