

A
manhã se iniciara com certa paz.
Brianna
tomava seu chá na sala de jantar, estava com as pernas cruzadas e uma expressão
séria. Nem se importava com os resmungos que vinha de Vic que estava ajoelhado
ao seu lado no chão usando uma exótica coleira.
Mirsthy
logo apareceu, se espreguiçando. Quase deu um grito ao ver o amigo naquela
condição.
—
O-o que, em nome de Cresselia, aconteceu? – questionou, observando como a Snivy
segurava a corda presa a coleira.
—
Oh, bom dia, Mi – Brianna soltou um sorriso gentil, ainda que parecesse
extremamente falso. – Isso aqui? É só meu novo e leal companheiro, Vic, o
Lillipup.
—
Bree, ele é um Victini – informou a Minccino, confusa.
A
outra balançou o dedo negativamente.
— O
Victini está morto. Agora eu tenho um Lillipup que me segue pra cima e pra
baixo e me obedece, não é, querido? – ela puxou levemente a coleira e Vic
murmurou mais.
—
Sim, senhora, ó, minha suprema rainha, dona da minha vida. Como eu te amo, devo
tudo a você – respondeu o Lilli- digo, o Victini, em uma fala ensaiada.
—
Quando foi que vocês assumiram esse tipo de relação de fetiche? – questionou
Mirsthy.
—
Alguém achou que seria uma boa debochar de mim fazendo musiquinhas com Woobats.
—
Ah, vocês escutaram também? – perguntou a cinzenta, animada. – Foi maravilhoso,
consegui dormir a noite inteira.
—
Mal consegui dormir – murmurou Brianna. – Pelo menos agora, eles vão dormir por
um bom tempo – ela alcançou algumas berries, devorando com gosto.
—
Majestade, tô com fome – disse o Victini, fazendo bico.
—
Hm? Ah, não é hora da sua ração – respondeu a Snivy, com deboche.
Vic
se levantou, arrancando a coleira.
—
Ok, mulher, já chega! Eu já pedi desculpas e isso não tem graça!
Os
olhos avermelhados da inicial de grama encontraram os olhos azuis do Victini
que gelou. Ela invocou um Vine Whip e fez as vinhas estalarem como um
chicote. Vic engoliu seco e voltou para a sua posição de Lillipup, resmungando
ainda mais.
Lilly
logo apareceu, assim como os outros hóspedes (com a exceção dos Woobats). Ela
convocou uma pequena reunião a fim de contar as novidades.
— Muito
bem, como devem saber, nosso número de hóspedes deu um salto enorme desde...
hã... ontem – ela riu, ansiosa. – E como ninguém esperava esse crescimento
rápido, estamos com alguns problemas de espaço na cozinha e falta de comida. A
partir disso, eu tomei uma decisão importante.
—
Vamos expulsar os Woobats? – questionou Sombra.
— E
se a gente matar metade deles? – sugeriu Brianna.
A
Lilligant encarou o grupo, perplexa.
—
... Eu decidi abrir um café – revelou, por fim.
A
Snivy colocou a mão sobre o queixo, pensativa.
—
Ainda acho que mata-los é uma solução mais rápida e eficiente – concluiu.
— O
Café ficaria do lado da Pensão. As refeições seriam servidas tudo por lá e
ainda teria a possibilidade de oferecer um cardápio para quem fosse de fora –
contou Lilly, como quem tivesse passado a noite inteira pensando sobre o
assunto, planejando cada detalhe.
Exceto...
— E
temos dinheiro pra isso? – questionou Mirsthy, como boa funcionária.
BINGO!
A única coisa que tinha escapado pelas prestativas mãos da Lilligant. Uns
minutos em silêncio confirmaram aquilo que todo mundo pensava.
—
Então – Lilly começou, depois de pigarrear. – É aqui que eu pediria ajuda de
vocês. N-Não é obrigação de vocês, na verdade, eu nem espero que vocês me
ajudem, mas, se puderem, eu ficaria grata – a Pokémon juntou as mãos, ansiosa.
Os
hóspedes se entreolharam. Koin foi o primeiro a levantar a mão.
— Eu
topo! – disse.
Brianna
olhou para o companheiro e levantou a mão também.
—
Vic pode roubar dinheiro – sugeriu. – É a especialidade dele.
Vic,
ainda no chão, com sua coleira, encarou a mulher.
—
Roubar? Você é podre de rica! – retrucou, cruzando os braços. – Pede pra sua
família pagar. Você é a que come mais nesse lugar! Tá até ficando gorda.
Snivy
segurou com um pouco mais de força a corda conectada na coleira de seu
“Lillipup” e soltou um sorriso cínico.
— Se
me dão licença – ela se levantou e se dirigiu para outro cômodo, carregando
Vic. O Pokémon temeu pela sua condição física.
Em
alguns minutos, quem ficou, pode ouvir gritos de desespero e golpes de
chicotadas violentas.
— Tá
virando rotineiro – observou Mirsthy. – De toda forma, acho que todos nós
topamos a ideia. Podemos te ajudar, dona Lilly.
Lilly
deu um leve pulo, animada. Koin sorriu.
— Obrigada,
de verdade – ela disse, eufórica, enquanto procurava os papéis com anotações
quilométricas. – Eu pensei em vender tortas na estradinha perto da Pensão.
Sempre tem grande movimento por lá.
—
Maravilhosa ideia – sorriu Mirsthy. – Se empenhe em fazer deliciosas comidas
enquanto nós vendemos o peixe.
—
Mas ela disse que vai vender tortas – apontou o Tepig, confuso. – Aliás, o que
é peixe?
— Eu
não faço ideia – brincou a Minccino. – Apenas sorria e siga o roteiro.

Foram
preciso alguns poucos dias para que a barraca fosse montada. Com sorte, Wooby e
A Legião haviam saído em uma jornada breve para sua terra natal em busca de
alguns pertences, então não precisariam se preocupar com a cantoria da
madrugada nos próximos dias.
O
grupo se dividiu entre quem ficaria na cozinha: Koin, Lilly e Grimaud.
Enquanto, na parte das vendas, ficaram Vic, Brianna, Sombra e Mirsthy. E assim,
começaram o primeiro dia de vendas.
A
Minccino tentava chamar a atenção junto de Sombra de alguns clientes que
olhavam curiosos para as tortas, mas só alguns realmente paravam. Brianna
recepcionava eles enquanto Vic observava tudo, sentado no chão. Seu castigo com
a coleira continuava firme e forte.
Uma
fêmea Haxorus acompanhada de seu filho Fraxure se aproximaram. A Snivy atendeu
com um sorriso tão meigo que o Victini estranhou com tamanha delicadeza.
—
Vamos levar uma torta hoje? – questionou ela. – Aposto que o rapazinho adora um
bom doce.
—
Estão com uma cara tão boa – comentou o Pokémon dragão.
— Foram
feitos com muito amor e carinho pela Lilly, a dona da Pensão – informou ela,
dando ênfase ao marketing.
O
Fraxure olhou para o Victini no chão e franziu a testa.
— O
que tá fazendo aí? – questionou, com as mãos no bolso.
—
Ele é meu Lillipup de estimação – informou Brianna, sorrindo, mantendo a pose.
—
Mas ele é um Victini.
—
Não adianta falar isso pra ela – resmungou Vic. – Acho que o cérebro dela foi
devorado e ela ficou burra.
A
lei da ação e reação foi imediata e o chicote estralou contra a parte lateral
do Pokémon. A Haxorus se assustou e recuou com o seu filho. Vic se levantou e
encarou Snivy.
— Tá
querendo morrer? – questionou ela, enfurecida.
—
Cai dentro, nariguda! – desafiou. – Se eu ganhar, tu tira essa droga de mim! –
disse, agarrando a coleira.
Uma
aura intensa e demoníaca cercou aqueles dois. Os dois agarraram as mãos do
adversário e começaram a se empurrar, com uma força de igual para igual.
Mirsthy notou a confusão e quase gritou de desespero quando viu a mãe Haxorus
se afastar com seu filho, que parecia interessado em ver uma briga por motivos fúteis.
—
V-Vic, B-Bree – a Minccino levantou as mãos. Queria impedir, era só o primeiro
dia de trabalho, como eles conseguiam estragar tudo em poucas horas?
Mas
ela não impediu. Não quando ela olhou para os lados e notou que alguns
interessados pareciam estar apreciando aquele embate. Era de se surpreender que
até mesmo Pokémon, em toda sua espécie, tinham um interesse por batalhas. Desde
os mais grandes até os pequenos paravam e começavam a apostar no mais forte,
alguns apostavam na vantagem de tipo do Victini, enquanto outros arriscavam na
força bruta da Snivy.
Mirsthy
sentiu uma lâmpada acender em sua cabeça e rapidamente começou a cortar fatias
das tortas. Ela acenou para Sombra, que se aproximou, curiosa:
—
Vai oferecendo e vendendo essas fatias para os que estão assistindo – ordenou.
– Vamos lucrar com entretenimento sensacionalista de baixa qualidade igual na
TV aberta aos domingos.
A
Zorua assentiu e se aproveitou do fascínio do público para oferecer-lhe comida
pega e pronta. Que Pokémon iria perder essa chance? Aos poucos, todo o estoque
iria sumindo e Lilly quase não conseguia dar conta de tantas vendas.
Mirsthy
percebeu que Vic e Brianna estavam para encerrar a briga. Com destreza, ela
berrou:
—
BRIANNA, O VIC DISSE QUE PREFERE SENTAR NO COLO DE GIRATINA DO QUE PASSAR CINCO
MINUTOS OUVINDO SUA VOZ!
A
Snivy fuzilou o Victini com o olhar e o mesmo gritou:
—
QUER PARAR DE ME CALUNIAR?!
— SE
VOCÊ QUER TANTO ENCONTRAR GIRATINA, DEIXA EU QUE ADIANTO ESSE PROCESSO! –
possessa, ela avançou contra o rapaz que, revidou, inconscientemente, com um
golpe de fogo contra o rosto da mulher, que recuou, com dor.
— A-Ah,
B-Bree – Vic gelou pois sabia que um golpe tipo fogo era prejudicial a um tipo
planta. Ele se aproximou, preocupado. – Brianna, ei! Fala comigo! Tá doendo?
C-Chamem um médico!
Brianna
virou o rosto e encontrou os olhos do companheiro. Ela sorria cinicamente e
suas pupilas ardiam como brasa.
—
Acha mesmo que uma faísca dessa iria me derrubar? – perguntou, de forma
retórica. – So you’ve choosen death, foolish boy!
E a
batalha recomeçou, dessa vez, os espectadores gritaram eufóricos e agitados,
como se o round 2 estivesse com muito mais alma. Sombra continuava a
oferecer mais e mais fatias, usando suas artimanhas de fofura para convencer os
clientes, alguns até pagavam a mais pelos pedaços.
Lilly
e Koin se aproximaram com novas tortas e se assustaram com a quantidade de
clientes.
—
U-uau, o que tá acontecendo? – questionou a dona da Pensão, logo depois caindo
seu olhar para a briga. – Ah meu Arceus! Tá tudo bem?
— Dona
Lilly, pau na máquina! – disse Mirsthy, exaltada. – O pessoal tá comprando
tortas como loucos. Tudo isso só para continuarem a assistir aqueles dois
brigando.
— Tá
dizendo que a briga faz parte da estratégia de venda?
— Um
bom produto atrai pessoas, mas um bom atendimento atrai clientes fiéis –
apontou a Minccino. – Agora, continue trabalhando. E traga alguns curativos pra
remendar aqueles dois.
A
Lilligant riu, com uma felicidade diferenciada. Sentia que aqueles hóspedes que
tanto a ajudavam estava se tornando sua nova família. Koin segurou a mão da
mulher:
—
Vamos, Lilly, temos muitas tortas para fazer!
Naquela
noite, os hóspedes e Lilly faziam as contas de quanto haviam lucro, nunca tinha
se visto tanta moeda e dinheiro. Vic e Brianna estavam de costas um para o
outro, segurando pequenos sacos de gelo contra os ferimentos e hematomas. O
Pokémon anjo estava com a sua coleira, indicando que tinha perdido a batalha.
—
Espero que tenha aprendido – disse a Snivy, com o orgulho ferido.
—
Não fala comigo – murmurou o Victini. – Aliás, de quem foi a ideia de
incentivar a briga?
— O
pessoal começou a aparecer quando vocês brigaram – explicou Mirsthy. – Acha que
estarão recuperados até amanhã?
—
Nem fodendo que eu vou brigar com essa ogra de novo! – protestou. – Olha a
nossa situação. Se virem.
A
Minccino cruzou os braços, pensativa. Olhou para Sombra e sorriu.
— Já
sei, podemos pedir para que Sombra conquiste todos com sua fofura. O que acha,
pequena?
—
Posso morder quem não comprar as tortas? – a Zorua pulou, agitada.
— Só
se o cliente pedir – riu.
No
outro dia, foi a vez de Sombra ser o centro das atenções. Mirsthy e Brianna
ficaram responsáveis em vender e Vic aproveitou o dia para ficar deitado (sob a
supervisão de Bree, é claro). O primeiro cliente foi uma gentil Audino que
caminhava com a sua cestinha, Zorua se aproximou:
—
Ei, tia, estamos vendendo tortas – sorriu, usando o máximo da sua fofura. – Que
tal você comprar todas? Digo – ela juntou os dedos indicadores, fazendo charme.
– Pode comprar uma, é para uma amiga nossa e estamos vendendo para ela realizar
o sonho. Sombra ficaria muito feliz se você comprasse.
Uma
flecha imaginária atingiu o coração daquela Audino.
— Se
eu comprar duas, Sombra ficará feliz? – ela perguntou, certificando de que
veria um sorriso daquela obra de Arceus.
—
Muito. MUITO FELIZ! – a Zorua levantou os braços, animada e agitada. – Venha,
venha.
Ela
guiou a primeira cliente do dia para a tenda que logo foi atendida pela
Minccino e a Snivy. Sombra logo notou sua segunda vítima, um Sawk mal-humorado
que nem olhou para o lado. Mas insistência era uma característica dela.
—
Moço! – ela chamou, conseguindo roubar a atenção. – Estamos vendendo torta. Se
você comprar algumas, eu vou ficar muito feliz. Você quer ver Sombra feliz? – e
mais uma vez, ela usou suas artimanhas.
O
Sawk revirou os olhos.
— E
o que acontece se eu não comprar?
Sombra
encarou o cliente com um olhar amedrontador que só os Dark-type sabiam
fazer. A espinha do Pokémon lutador gelou.
—
Então eu vou te morder. E vai doer muito – ela disse, com voz baixa.
No
final, ele levou pelo menos dez tortas.
—
Vocês todos estão presos.
Ninguém
sabia exatamente o que aconteceu. Dois Growlithes e um Stoutland impaciente
foram chamados para a barraca que vendia tortas. Brianna encarou Vic.
— O
que você roubou?
— Eu
nem sai daqui, mulher – defendeu-se.
Mirsthy
se aproximou.
— Em
que posso ajudar, senhores?
—
Recebemos a denúncia de um comércio que usava mão de obra de menor e
incentivavam briga entre duas pessoas.
—
Falando desse jeito, fica parecendo que somos demônios – ironizou Vic.
Lilly
logo surgiu. Desesperada, ela tinha ouvido falar da denúncia e da presença da
polícia.
—
S-Senhores. S-Sinto muito. Estou vendendo tortas para arrecadar dinheiro para
construção de um Café – ela explicou. – Não tive cabeça para impedir que meus
hóspedes se expusessem tanto. Eu assumo toda a culpa.
—
Vai ser presa no lugar de todos? – questionou o Stoutland, sem estar muito
preocupado.
—
Não pode prender ela! – Koin apareceu e interveio.
—
Pera aí, senhor policial – Vic protestou também. – Não podemos negociar. Quer
uma torta? Por conta da casa.
O
Pokémon cão encarou o Victini.
—
Podem pagar uma multa – disse. – E devem fechar essa barraca.
Lilly
engoliu seco com o valor dito pelo policial. Aquilo era praticamente o dinheiro
arrecadado em um dia de trabalho. Ela sorriu, sem graça e logo pagou os
policiais, pedindo mais e mais desculpas. Os outros hóspedes observavam tudo em
absoluto silêncio. Koin percebeu toda a tristeza da Lilligant, como se ela
estivesse entregando o seu curto sonho no lixo.
Naquela
noite, ninguém contou o lucro, só o prejuízo.
Todos
se desculparam milhares de vezes e Lilly teve que acalmar todos, dizendo que
estava tudo bem.
Como
se as notícias ruins já não fossem o suficiente, Wooby e A Legião voltou após
alguns dias de viagem, cheio de pertences. O líder parou ao ver todos naquele
clima de desânimo.
— Meu
santo Hilbert, gente – começou. – Que cara é essa?
—
Ganhamos dinheiro, perdemos dinheiro e vocês voltaram. Essa é a desgraça –
respondeu Brianna, de braços cruzados.
Lilly
riu de leve e explicou a história para os Woobats. Wooby ouviu tudo com muita
atenção e sorriu.
— Na
verdade, essa é a oportunidade perfeita para agradecermos. Sabemos que incomodamos
com nossas cantorias, mas nos divertimos muito – sorriu o líder dA Legião. –
Por isso, vamos morar em uma caverna próxima. Mas antes, queremos pagar com um
dos nossos maiores tesouros.
Alguns
Woobats apareceram carregando um enorme diamante polido.
Os
olhos de todos brilharam junto com a pedra.
—
V-vocês têm certeza? – questionou Lilly.
—
Não pergunta duas vezes ou eles mudam de ideia – sussurrou Mirsthy.
—
Tenho certeza que vão ajudá-los no que precisam – sorriu Wooby, entregando o
objeto.
—
Com uma dessa, acho que abro cafés por todo o mundo – riu a Lilligant. – Muito
obrigada, de verdade. Eu andei pensando num nome pro café.
Todos
olharam curiosos para a proprietária da pensão. Uma chama de esperança tinha
sido acesa no coração de todos. O clima de derrota tinha sido levado para fora
e tudo que restava era a expectativa para o futuro.
— Eu
percebi como adoro essa mistura nossa. Eu me sinto bem com vocês. Dizem que
casa é muito além daquilo que você mora e se sente bem, é onde seu coração fica
e repousa – explicou, um pouco tímida com tanta atenção. – Por isso, quero que
mais pessoas se sintam assim. Lógico que ninguém mora num café, mas vocês
entenderam – ela riu. – Senhoras e senhores, digam boas-vindas ao CAFÉ MIX.
Victiny de trela é minha nova religião
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